Coração revolucionário


Meu amor grita feito o povo nas ruas,
indigno.

Ele canta e balança
e se agita e corrompe,
sempre com aquele medo
despreocupado de que tudo
dele se furte.

Criando canções e
parodiando a si mesmo,
fatigado, cansado, moído,
torto, debruçado,caído…
indeciso.

Tudo para contar a mesma história
que todos os corações  já ouviram,
para ignorar a profusão
confusa dos inúmeros dramas
que circulam entre carrascos
e flagelados;

para morrer em pedaços
de sorte,
em promessas e desejos,
aflições e tragédias,
pelo simples ato criminoso de andar por aí
desprevenido em posse da coisa mais proibida
entre todas as coisas do mundo:
a esperança.

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Encaixe


Ao sol do basculante, fim de tarde,
som das folhas dançando em valsa tal,
Me indago por que toda paroxítona
Acaba sendo proparoxítona, mas o contrário não.

Bendita essa maldita dessa língua
Portuguesa que não me deixa falar
Mais besteira do que eu posso
(E devo… mas é segredo)

Não me deixa falar de mais besteira
Pois só me deixa falando nela
Igual um poeta sem tema

Igual à escritor sem novela
Igual a um final de semana sem ela
Igual a um jabuti

Andando sempre devagar
Buscando alguma forma métrica
De se encaixar nalgum lugar.

N° 6


Mesmo calado ainda me resta a insônia
Mesmo de bruços ainda há o desconforto
De um sentimento grande e reprimido
Do cheiro podre subindo do esgoto.

E essa alma sem equivalência
Não se equivale e é sempre absurda
Toque de Midas virado ao reverso
Transforma o ouro em matéria fajuta.

De que adianta escrever poesia?
De que adianta escrever com afinco?
Melhor seria ter medo do abismo
Do escutar sua resposta surda.

E se calado me resta o abandono
Abandonado me deixo ao relento
De uma realidade tão escura
À luz da vela do conhecimento.

Eterno contorno


Se para tudo que se passa
Nesse mundo eu fico mudo,
Então de deixo de tudo, um pouco
                                  (um muito)
Escondido no tépido término
De um saco sem fundo.

E se não mudo
Essa torpe forma algébrica
De ver o mundo
Me encontrarei em adultério
Com os meus sonhos de jovem
De viver me mudando
Mesmo diante dos dilemas mais profundos.

É por isso que,
Mais do que tudo
Não se deve jamais ficar mudo
Nem sobre as desgraças da vida
Nem sobre os pecados do mundo.

Provocação Métrica


A cigarra canta ao longe,
livre e leve, uma canção
de encantos maltrapilhos
encharcados de emoção.

E o poeta em rima pobre
versa muito sem saber
que sua rima tosca encobre
grandes odres se seu ser.

E o sonete inacabado,
poesia indeclamável,
segue deixado de lado

segue sempre indecifrável
segue sempre mal amado
num anticlímax preguiçoso.

Samba


Caso a tristeza em sua porta bata,
saiba que desilusão é coisa séria, 
e mais que séria, alveja e mata
até os sonhos mais distantes da matéria

até os encontros improváveis,
que, nessa ilusão etéria, 
ocorrem, vivos e insondáveis,
tirando a alma da miséria.

Miséria essa que não é só sua,
que é de tudo que está vivo,
que é de tudo que transpira e sua

que é de todos os reprimidos
que é morrer de forma crua, 
mesmo estando ainda vivo.

Nº 5


Numa sarjeta, um fantasma antigo
chorava um movimento entristecido.
Um rapaz novo, assim tão parecido
sem rima alguma gritava, amigo:

“Venham, comprem tudo aqui comigo
Pois quero me livrar de todo acúmulo
Antes de deitar em meu nobre túmulo
Antes de dormir em meu jazigo”

E o pobre corpo, leve, esguio e trêmulo,
Não era mais do que o de um cão sem dono
Não era mais do que uma coisa pública

No chão da praça morrendo de sono
Enraivecido com essa sina esdrúxula
De ser escravo do próprio abandono.

N° 4


Passará o momento
Em que essa passarada demente
Seguirá em frente
E deixará pra traz
Essas terras tão boas
Essas mesmo
Da qual tanto cantor já sentiu saudade
Da qual tanto gestor já gerou desigualdade

Pois a saudade é
Desigualdade
Posto que a rima pobre
É o que faz o coração de um poeta sem renome
Palpitar cheio de esperança dasfalcada

Passará o momento
Em que essa passarada miserável
(de espírito e não de bens)
Vai deixar de achar
Que é pedir demais se colocar
No lugar do outro que não se é
E por isso não se sente
Nem é possível se imaginar sentindo

Ao menos é o que acredita
Esse nosso coração de menina
Que fica o dia todo a sonhar
Com o dia em a sensatez
No coração dos homens
Tomará seu lugar

Lugar esse que é lugar nenhum
Que não ocupa nenhum espaço
A nao ser…

É… não ocupa espaço algum.

Pois passará a dor
Passará o amor
Passará A Banda
E toda essa gente branda e brava
Que brada que não têm mais lugar.

Mas a verdade é que sempre tiveram
A verdade é que nunca abdicaram
Desse direito de berço
Que é ter para si mesmo o mundo inteiro
E ainda se ver no direito
De ser ouvido mesmo sem ter do que reclamar.

Mas
Por que não declamar
Ao invés de clamar
Por um espaço que já é seu?

A poesia é tão bonita…
A literatura é tão bonita…
A arte é tão bonita…

Não, é melhor se calar

Ah, se não fosse essa vírgula
Que me obrigam a botar fora de lugar

Não é melbor se calar.

É melhor escrever
Declamar
Vociferar

Pelo direito
Que ainda nem é direito direito
Já que à muitos não se dá
Nem a permissão de amar.

“Que se dê!”, eu declamo
Mas meu clamar é vazio
Pois nessa luta já não tenho lugar

Tenho só o que apoiar
Poemas pra declamar
Corações para tentar tocar

Em vão

Posto que já passou do dia
Em que essa passarada arredia
Deveria ter se posto
Em seu lugar.

E includo eu com minha poesia
Nessa maçaroca de gente a chorar

Pois é do medo da sina
Que surge a rima

É de todas as lágrimas
Que surgem páginas
E mais páginas

É dos olhos em maresia
Que surgem as mais belas poesias.

Ah, se eu pudesse cantar de novo
Tirava todo esse nó no engodo
Que me faz de carrasco
Das minhas próprias ambições

Porque passará a tristeza
Passará o sorriso
Passará o eterno retorno
Só não passará
Essa passarada
O tempo todo a gorjeiar
Já que têm medo da vida
Já que têm medo de amar.

N° 3


De tanto deixar de lado
Aquele seu lado
Que não era seu
Que era de ninguém
E que não sabia de quem era
Encontrou-se de novo
Naquele estado
Em que não se paga
E nem se é pago
Aquele estado
Em que tudo se é jogado de lado

E de tanto manter-se
Nesse estado natural
Que era tão seu (mas não sabia)
Fez com que todos sumissem
Fossem embora, desaparecessem
Como num truque de mágica
Sem público
Sem púlpito e platéia
Tamanha a grandeza
Dessa pobre nobre ideia
De se esconder de forma trágica
Atrás dessa máscara mole e sólida
Verborrágica

Deixou a vulva
Para voltar-se ao interno
E ao eterno contorno retornar
Desnudo em sentimentos mudos
Sem sentido
Sem direita e sem esquerda
Sem baixo nem cima
Sem pé nem cabeça
Grande seja a nossa sina

E a feiticeira olhou em suas mãos
E lhe disse que seu coração
Nunca deixaria de sofrer
Por todas as tragédias românticas
Por todas as rosas sem pétalas
Por todas as revoluções meândricas
Cheias de espírito e espinhos
A maltratar a pele do seu pobre irmão

Com nó na garganta
Então a ouviu dizer
Que viveria até que chegasse podre
O torpe o dia de morrer.

E de tanto de deixar de lado
E de tanto se queixar do acaso
Voltou àquele pobre estado
Em que tudo se deixa ao todo de lado
Até que a própria mente
Deixe de se queixar
Até que a própria mente respire
E deixe de lado
Esse ato nefasto, tão gasto,
De pensar, amar e penar.

Nº 2


Já confundi estrela
Com disco voador.
Já confundi elogio
Com declaração de amor.

Já confundi estrela cadente
com um cometa caindo em cima da gente
e acabando com essa dor que tão pouca
tão pouca gente sente assim como a gente.

Cê não sabe de nada.
Cê precisa ir se tratar.
Cê precisa tanto de elogios
que não consegue relaxar.

Então bato asas em frangalhos
porque falta habilidade,
não disposição:
Simples assim.

E sonho com as pinturas modernistas de Deus:
galáxias sem rumo e em infinitos
universos em processo de colisão.

Pois a origem de todos os equívocos
está em confundir liberdade
com rebeldia.

A rebeldia é optativa
E a liberdade
Coercitiva.

N° 1


Será de tanto mal
Viver morrendo tanto e sempre?

Morrer de amor
E epifanias
Que vem e matam
Assim, tão de repente?

Mas não mais que de repente
Nasce vivo um novo agente
Que não é gente
Mas somente agente
Daquilo que se é
E daquilo que se sente

E se não mais que de repente
Vivo e morro
Eternamente
Com gerúndios
Vou versando
(Com)versando

Livre
Leve
E contente

Lula preso amanhã


(Texto publicado originalmente em Salete Crônicas)

Mais uma vez eu só fiz um título chamativo e apelativo. Dessa vez, ele nada tem a ver com o que eu vou escrever: não, não vou falar do Lula sendo preso amanhã (ou seria hoje?), como disseram as previsões diárias do “O Antagonista”, um protagonista do sensacionalismo na internet.

Hoje eu venho falar sobre sensacionalismo, sobre programas tendenciosos, apelativos, como o título deste texto. Uma colega de trabalho, esses dias, quando eu a indaguei sobre qual tema eu deveria escrever nas minhas próximas crônicas, me disse:

–  Escreva sobre a “ridicularização das pessoas em programas de auditório”.

O que a levou a falar sobre esse tema em específico, eu não sei. O que sei é que parece me pareceu um desafio. Especialmente porque eu sou uma daquelas pessoas diferentonas que não assiste televisão. Especialmente televisão aberta.

Mas já que eu toquei no assunto, odeio essas pessoas diferentonas que dizem que não assistem televisão, mas que assistem séries como maníacos obsessivos. Se você assiste séries de televisão então, direta ou indiretamente, você assiste televisão.

E isso me faz lembrar de pessoas que dizem que não torcem pelo Brasil durante as copas do mundo. Ou, ainda pior, pessoas que dizem que não dão à mínima para o futebol, especialmente para a Copa do Mundo, mas que “comemoraram”, “soltaram fogos” quando o trágico dia, que nunca será esquecido da memória dos brasileiros, o fatídico dia do 7 a 1, aconteceu. Ora bolas, se você não dá a mínima para futebol, por que diabos comemorou a derrota do Brasil?

Diferentões. Os piores tipos de pessoa.

Mas voltando a esse assunto diferentão, vamos falar sobre pessoas que são ridicularizadas em programas de auditório. Isso é algo de praxe da televisão brasileira desde que eu me conheço por gente. Apesar de nunca ter sido de assistir TV aberta, de tempos em tempos, durante a minha infância, eu era obrigado a assistir aos programas do Silvio Santos, às novelas da Globo e até mesmo ao programa do Ratinho. Ia viajar com a minha família para a casa dos meus avós ou de outros familiares e lá, nessas residências, só as redes abertas funcionavam. Isso teve suas vantagens. Foi através de uma dessas limitações que eu e meu irmão entramos em contato, meio que sem querer, com a maravilhosa série “Todo Mundo Odeia o Criss”. Entretanto, já tive de sentar por muitas tardes assistindo pessoas sendo ridicularizadas na telinha.

O finado programa “Ídolos” do SBT, é um bom exemplo. Lembro-me de um episódio em específico em que fizeram uma montagem de participantes que cantaram o hino nacional errando a letra por completo. Há outros clássicos, como o Moisés, que pediu que desenhassem um “arco-iro”, ou o Tayrone, do programa da Eliana.

Os apresentadores se utilizam da simplicidade dessas pessoas para trazer audiência aos seus programas de auditório de maneira descarada. Por um lado, eu me sinto bastante revoltado com esse tipo de atitude, mas por outro lado, penso que essas pessoas estão lá porque querem.

Mas, de novo, me pergunto se realmente querem estar lá. Se têm noção do que estão fazendo com a imagem delas, afinal, a televisão é o veículo de comunicação que atinge mais pessoas no Brasil. E ser ridicularizado num programa de televisão é ser marcado para sempre.

Um fenômeno parecido tem acontecido com a internet hoje: as pessoas dos memes. Serão para sempre marcados, terão, para sempre, uma tatuagem na testa.

O que isso tem a ver com o Lula sendo Preso amanhã? Tudo!

Esses programas são tão sensacionalistas quanto o “O Antagonista”, um dos protagonistas do sensacionalismo na internet.

Mas, apesar do papo diferentão, juro que não sou. Não quero ser um diferentão. E talvez isso me torne diferentão… mas eu não me importo. Ou não.

Patente


É cá estou eu, de novo
sentado no trono dos tronos
Pra cumprir minha tarefa diária
Meu compromisso diário
De sentar
Pensar
E evacuar
De mim
Toda essa bosta 
Dessa poesia
De bosta
E poluir o mar e o mundo
Com o cheiro fétido
daquilo que vem de dentro de mim
E que sai de mim
num lampejo
numa bela de uma cagada
como esgoto saindo dos canos pro rio
fazendo eutrofizar toda a fauna e flora
Toda fauna e flora de peixes e plantas
a nadar, nos rios e no mar
Estou presente
Dando de presente este presente
Essa fatalidade
Esse pequeno pedaço de um desastre ambiental
Essa linda poesia
Que corta árvores pra fazer papel
E inunda florestas pra se digitalizar
E que eu faço aqui
Enquanto poluo deus e o mundo
No meu trono, a pensar
Nos peixes e no mar
Pois não me falta patente
(Nem comida e nem lar)
Pra brincar de bostejar 
Pela ponta do lápis
Pelo peido perdido no ar
Pela minha mente tola a ponderar
Sobre essa bosta besta boiando na patente
E indo embora em direção ao mar
Sempre ao mar.

Cachaça barata


Tal qual cachaça barata
Ela me deixa tonto
Andando feito
Barata sem cabeça
Desgovernada pela sala
Desengonçada e
Bêbada
Numa morte ingrata
Sem graça
E chata.

E como a tal da gravata
Ela me bota uma coleira no pescoço até quase sufocar
E me maltrata feito
Lutador de MMA dando uma
Gravata e me deixa assim
Sem ar
Até quase sufocar
Até quase desmaiar
Sem ar

Mas que sina ingrata e
Chata
Essa minha de ser sempre gravata
Barata
Jogada no lixo pra um mendigo achar
E usar

(Eu nunca vi um mendigo usando gravata, mas vai que essa sina barata há de um dia chegar?)


Tô precisando de um tempo
De um momento
Só um momento
Pra me esquecer e me deixar
Levar
E espairecer
Desparecer
Aparecer e desaparecer
E enfim
Poder de fazer de mim
Aquele aquilo
Que eu não sei bem o que é
Mas que um dia eu sempre quis fazer de mim

Não que a vida esteja sendo
Assim tão ingrata

O salário tá bom
(Podia estar melhor,
Mas é um salário)
O trabalho tá bom
(Podia estar melhor
Mas é um trabalho)
Os textos e as poesias estão bons
(Especialmente os que eu leio)

Mas a vida…
Essa aí não tá nada barata
Tá cara, e triste e ingrata,
E chata
Sem graça

Fazer o que se a lembrança dela
Me inunda feito a torrente das cataratas do iguaçu?
Se faz nos meus olhos surgirem cataratas
– não a doença
Mas lágrimas baratas

Baratas que nem essa poesia
Que nem a gasolina a 20 anos atrás, pros saudosistas

Ai ai…
Só não me encharco em gasolina e morro num incêndio
Porque quero morrer de pouco em pouco
E a proveitar essas noites lindas que o frio trouxe pra cá…

Sair do emprego,
Afrouxar a gravata
Sentar no bar e beber uma cachaça bem barata…

Eita
Vida e sina mais que ingrata…