Cachaça barata


Tal qual cachaça barata
Ela me deixa tonto
Andando feito
Barata sem cabeça
Desgovernada pela sala
Desengonçada e
Bêbada
Numa morte ingrata
Sem graça
E chata.

E com o tal da gravata
Ela me bota uma coleira no pescoço até quase sufocar
E me maltrata feito
Lutador de MMA dando uma
Gravata e me deixa assim
Sem ar
Até quase sufocar
Até quase desmaiar
Sem ar

Mas que sina ingrata e
Chata
Essa minha de ser sempre gravata
Barata
Jogada no lixo pra um mendigo achar
E usar

(Eu nunca vi um mendigo usando gravata, mas vai que essa sina barata há de um dia chegar?)


Tô precisando de um tempo
De um momento
Só um momento
Pra me esquecer e me deixar
Levar
E espairecer
Desparecer
Aparecer e desaparecer
E enfim
Poder de fazer de mim
Aquele aquilo
Que eu não sei bem o que é
Mas que um dia eu sempre quis fazer de mim

Não que a vida esteja sendo
Assim tão ingrata

O salário tá bom
(Podia estar melhor,
Mas é um salário)
O trabalho tá bom
(Podia estar melhor
Mas é um trabalho)
Os textos e as poesias estão bons
(Especialmente os que eu leio)

Mas a vida…
Essa aí não tá nada barata
Tá cara, e triste e ingrata,
E chata
Sem graça

Fazer o que se a lembrança dela
Me inunda feito a torrente das cataratas do iguaçu?
Se faz nos meus olhos surgirem cataratas
– não a doença
Mas lágrimas baratas

Baratas que nem essa poesia
Que nem a gasolina a 20 anos atrás, pros saudosistas

Ai ai…
Só não me encharco em gasolina e pego fogo
Porque quero morrer de pouco em pouco
E a proveitar essas noites lindas que o frio trouxe pra cá…

Sair do emprego,
Afrouxar a gravata
Sentar no bar e beber uma cachaça bem barata…

Eita
Mas que vida mais que ingrata…

Pés no cão


Será que sou grande
quem sabe, importante
ou serei só um meliante
um fumante, amante inconstante,
um constante
vagabundo,
canalha e imundo
sem inspiração?

Sou o Freud sem a mãe
sem mente e lugar

sem divã e escritório,
sem paciente notório
sem édipo e rei,
sem grego ou romano,
sem vaso parnasiano,
sem fome, sem sede e sem mochila
nem bagagem de vida,
sem viagem ou embalagem

nu

sem rolar a tiragem dos jornais
parado no tédio que é demais
contraditório
um ódio notório
de uma vida sem fé e essas coisas mais

uma madrugada solitária
unicamente acompanhada
de breu, de uivos no mato,
e do galo cantando
e da cigarra anunciando a sua morte
no meio de uma madrugada sem ninguém
pra se importar
pra consolar
o fim trágico de toda uma vida enterrada no chão
daquele início e breve momento de transpiração
e troca de pele

Pois é
parece que o amanhã está chegando
chegando pra mais um dia
de tormento vazio
de tédio viril,
de sorrisos sinceros
e amores intensos
e de lágrimas verdadeiras
de rotina, costumeira
encharcando o cobertor
sem pensar

Nem pensar!

porque no fim do dia
todo dia não é mais
do que
voar alto e
voar alto
alto e alto e alto
sem tirar os pés do asfalto

O Show Deve Continuar


Eu sou uma pessoa ruim. Sou bom de espírito e até me considero, de certa forma, altruísta e solidário (apesar de ter uma certa desconfiança de quem se diz altruísta e solidário). Mas continuo sendo uma pessoa ruim.

Semana passada fui ao cinema assistir ao mais novo blockbuster do momento quando, no meio dos tiros, explosões e diálogos expositivos em três dimensões, ouço uma voz desesperada vinda do fundo da sala escura:

– Pelo amor de Deus, alguém chame um médico!


Na hora, ainda um pouco surpreso com acontecido e extremamente frustrado, pensei:


“Maldito! Foi escolher justo a minha sessão pra morrer…”


Mas não morreu. Graças a Deus? Não sei… prefiro dar o mérito à solidariedade e ao altruísmo dos outros espectadores que saíram correndo da sala para buscar por ajuda – porque eu não tirei a bunda da poltrona, apesar de me considerar, de certa forma, solidário e altruísta.


A projeção foi interrompida, as luzes de emergência se acenderam e, por pura sorte, o cinema não queimou o próprio filme (sem perdão pelo o trocadilho).


Após carregar o corpo inerte do acometido até a frente da sala, todos comentavam que o rapaz havia convulsionando. O longa tinha inúmeras cenas com luzes multocoloridas piscando pra lá e pra cá e por alguns minutos ponderei que talvez o male do episódio banido de Pokemon (aquele em que aparece o Porygon e que deixou centenas de crianças convulsionando no Japão) tivesse feito mais uma vítima. Se foi um incidente isolado ou culpa do show de luzes, só uma pesquisa posterior na internet poderia dizer – spoiler: não foi o caso.


Não sei se por nervosismo ou por falta de caráter mesmo, apesar de me considerar, de certa forma, solidário e altruísta, comecei a fazer piadas e tentar rir da situação. À quem me acompanhava, cheguei a falar baixinho:


– A infecção começou. Torça para ser imune, pois acabamos der ser expostos ao vírus.


Dentre essa é outras piadas infames e de mal gosto, enquanto o rapaz jazia em agonia a espera de socorro, passaram-se por volta de trinta minutos até que ele retomasse a consciência por alguns instantes e fosse retirado da sala com uma cadeira de rodas. O SAMU nunca foi acionado. (Por isso disse antes que, mais por sorte do que por competência, o cinema evitou de queimar o próprio filme.)


O mais interessante, porém, é que mesmo com as minhas piadas de gosto duvidoso, após essa trágica cena, as luzes voltaram a se apagar e o filme voltou a rodar como se nada tivesse acontecido. E todas aquelas pessoas solidárias e altruístas, incluindo eu mesmo, voltaram felizes para o maravilhoso mundo de explosões, tiros e diálogos expositivos em três dimensões do cinema globalizado.


E então, apesar de me considerar, de certa forma, solidário e altruísta, comecei a me perguntar: seria só eu um ser insensível e desprezível, nada solidário e nada altruísta? Seria só eu uma pessoa ruim?


Não sei, mas o fato de ninguém tertirado o celular do bolso pra fazer uma filmagem e postar nas redes sociais depois me deixou com uma pitadinha de fé na humanidade. E em mim mesmo também.

****

Post publicado originalmente em saletecronicas.wordpress.com 

Os Curiosos


Um curioso é um navegador que, mesmo após passada a euforia do descobrimento, revisita a terra anos mais tarde no intuito de se redescobrir.

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Toda história tem seu começo. Mesmo com toda esta besta discussão sobre o início da vida, se é que ela começa na fecundação ou não, se foi obra do acaso ou um plano arquitetônico milimetricamente planejado, o importante é que histórias não são como a vida, apesar do contrário muitas vezes ser perceptível. Histórias estão além da vida, vão além da vida, e duram gerações e gerações intactas e intrigantes. Muitas delas são trabalhos árduos de uma vida inteira levada à sua disposição. Por isso mesmo é que histórias não têm nada a ver com a vida. A vida é complexa, discutível, geradora de matérias e mais matérias à seu respeito. As histórias e a literatura também o são, mas a literatura é humana, enquanto a vida é sobre-humana. A literatura, enfim, só existe por essa magnífica característica da vida. E é com essa humilde análise sobre a vida e a literatura que começamos a história de Ana: com a morte.

Trata-se da memória mais distante que ela tem em mente. Daquelas que de tão incertas não se distinguem claramente dos sonhos. Tal lembrança é de quando tinha por volta de quatro ou cinco anos. O sol era como um adolescente passando pela fase de timidez e com sua voz baixinha, quase um sussurro acabrunhado, dizia, “adeus!”

Ana brincava no jardim de casa, sozinha. A grama alta de semanas sem poda comichava o pé descalço daquela menina de cabelos curtos e vestidinho batido. Seus olhos grandes cor de mel pareciam prender-se a cada coisa diferente que cruzasse seu caminho, analíticos. A mão dela jogava uma bolinha de borracha pelo jardim esculpido e os pés tomavam todo o cuidado para desviar as lajotas de concreto que faziam um caminho do portão da frente até a varanda. De lá, o pai de Ana, conhecido na cidade como Dr. Genari, por Ana como papai e pela esposa como amor, balançava na rede devagar feito a vida no interior; Sra. Genari, ou mamãe, ou amor, havia dito a ele que mantivesse os dois olhos na menina, trabalho que fazia questão de cumprir porcamente enquanto virava as páginas do dicionário russo que tinha em mãos e se surpreendia com a imbecilidade de não ter prestado a atenção atenção em uma perninha travessa. Na rua de terra batida, uma terra que parecia se misturar com areia nas cidades, mas que no campo era negra e marrom como o chocolate meio amargo, uma ou outra pessoa passava de vez em quando e, na lentidão dos passos dizia um “alô!, como vai?!”, ou simplesmente levantava o chapéu ao ver a imagem do clínico geral deitado na rede. Ele retribuía e vez ou outra perguntava sobre algum parente que havia passado pelo seu consultório dias antes. Não costumava atender à domicílio, entretanto as pessoas costumavam se dirigir ou ao consultório, ou a própria casa dele, na qual mantinha quantidade considerável de equipamentos. Era uma casa modesta, que, apesar do recato humilde, era muito melhor do que as outras, se destacando pela imensa parabólica no jardim. Dessa varanda, Dr. Genari ignorava seu posto e, como soldado desertor, dava mais um gole no quente e ardente chimarrão.

No Jardim, surpresa com as coisas ao seu redor, Ana brincava. Suas risadas serviam de música de fundo para a leitura pesada  e maquinal que o pai fazia. A criança de cinco anos, correndo atrás da bola que acabara de arremessar, tropeça e cai no chão, ralando o joelho. Por um momento ela pensa em chorar, é visível na maneira como ela olha para o pai, interrogativa. Sem reação, os olhos muito suavemente se comprimem, o lábio inferior começa a se projetar para frente, o queixo se enruga e as linhas nasais se dilatam. Era evidente, a criança iria chorar. Entretanto, ao olhar para o próprio joelho, lentamente todos esses sinais começam a desaparecer. O primeiro deles são os lábios, voltando à posição normal. De segundo em segundo, as sobrancelhas arqueadas para baixo, vão voltando à mais natural posição e sobem em surpresa. Os olhos se abrem, os ombros deixam se esvair de toda a tensão anterior. Ana olha para o próprio joelho sangrando. O olhar de desespero se transformou em um olhar curioso. Ela observa a própria articulação sem nem imaginar a complexidade por trás de cada movimento, por trás de cada plaqueta rompida para que a cadeia da coagulação tenha um início. Com seus finos dedos infantis, ela passa a mão no sangue que jorra do joelho e o traz até a boca. Ela fica impressionada com o gosto salgado do sangue, e isso se evidencia com o olhar contemplativo que ela lança ao infinito. E se torna mais evidente quando a percebemos voltando o dedo à ferida para experimentar mais sangue. A salubridade da chaga é intrigante, uma leveza no sabor…

Depois de saborear uma, duas, três vezes, ao final de seu experimento científico fez a incrível conclusão: “Como é salgadinho!”. Com toda certeza esse seria um dos assuntos à mesa de jantar.

Como toda criança intrigada demais com as possibilidades e novidades ao seu redor, Ana logo desinteressou-se pela ferida. Só voltou a dar bola para ela quando viu a casquinha e a coceira que logo surgiria dela. Mas novamente, tal curiosidade durou somente alguns minutos, pois correr e simular a vida adulta de caçadora que teria pela frente era uma atividade muito mais interessante dentro do próprio instinto humano que se apresentava, primaveril.

Eis que ela se vê contemplada por uma ideia. Está parada no jardim, olhando para o alto da copa da árvore. As folhas do cajueiro deixam um ou outro raio de sol transpassar, e isso dá um tom áureo, sagrado àquela obra de anos e anos de evolução e crescimento lento. O grosso corpo de árvore, a casca infestada de nervuras salientes são o convite que faltava. Uma centelha se acendeu e a árvore de um momento para o outro se tornou objeto de maior importância.

Decidiu desbravar a subida.

O começo foi difícil. Ter o corpo pequeno era um fator determinante para o ato de pôr o pé diretamente na dobra central dos troncos em ramo. Mas uma poda de muitos anos, já enegrecida, era o suporte necessário para que a subida se desse com facilidade. Pôs um pé aqui, outro ali em uma saliência e, quando deu-se por si mesma, estava na dobra central. De lá, três braços dividiam a espessura da árvore de forma aparentemente igualitária, cada um em uma direção, entretanto não perfeitamente espaçados, pois a diferença entre dois era de mais ou menos cento e oitenta graus, o que deu a Ana a oportunidade de subir.

Do centro do cajueiro, ela olhava para cima, calculando em quais dobras se segurar com as mãos e em quais outras se segurar com os pés. A tática, porém, não foi de escalada, mas de pressão. Essa pequena mente de cinco anos, deslumbrada com o mundo ao seu redor teve uma ideia brilhante: utilizar o atrito a seu favor. Mesmo que não pensasse tecnicamente assim, assim o fez. Os pés descalços forçavam um dos troncos de um lado e as costas do outro. Com uma pitada de tempo e cortes na roupa e nas mãos, já havia subido arranhaceuticos centímetros. O empecilho em seu caminho, entretanto, era o afastamento dos troncos. Conforme iam crescendo, iam também se afastando. A ironia desse paralelismo às avessas não era nada reconfortante.

Com seu instinto infantil, com sua mente humana, pensou em uma maneira de escapar. Viu, acima dos olhos outra bifurcação no crescimento da árvore. A utilizou a seu favor, agarrando-a com os braços. Dessa estratégia, tomou posição com os pés e se impulsionou para cima, até que o local onde antes estavam suas mãos servissem de apoio aos pés. De lá de cima, sentia-se no alto do mastro de uma caravela. Com uma mão segurando o próprio peso e a outra sobre os olhos, tapando o sol ofuscado pelas sombras das folhas, Ana se sentia um navegante procurando por um pedaço de terra na imensidão de um oceano inédito. Evitava olhar para baixo com medo da altura. Entretanto, isso não a impediu de subir mais e mais. Quanto mais subia, mais o universo se transfigurava. O que era antes um ensolarado jardim tronou-se uma densa floresta de folhas de um lado ao outro, uma mata tropical. Um pé vai aqui, outro ali. Não há outro caminho a não ser para cima. Fazendo força com os braços, esquecendo-se dos rasgos no próprio vestido, ela finalmente chega ao topo. Sua cabeça sai pelo cume e observa o telhado da casa com sorriso embasbacado. Ao olhar para o lado, vê o sol descendo por alguns minutos e depois de sentir uma dor no fundo dos olhos, aceita dele a sugestão e começa a descida.

Espantosamente, descer é mais difícil do que subir. Quando se desce, vê-se a frente o frio, gelado e fúnebre chão. A promessa que lhe faz da proximidade, da dor, é muito mais intensa e atormentadora do que a glória edificante da escalada. Mas Ana não se deixa abater por tal premissa e, com cuidado, desce. Um obstáculo. Teria de pular de um galho ao outro para chegar aonde queria. Sem medo, o fez, apesar de sentir o bruto balançar do tronco. Pensou por um instante que iria cair, tamanha foi a tremedeira do lugar. As folhas gritavam de horror ao balançar terremótico. Algumas não aguentaram a pressão e cometeram suicídio.

Passo à passo Ana foi descendo do cajueiro até fazer seu caminho de volta à dobra central. De lá, o pulo foi curto até o chão. A felicidade não podia ser contida. Ela cantarolava uma música que ouvira na televisão e dançava em um ritmo infantil, com braços soltos e vitoriosos.

Ela ia correndo até a rede contar ao pai sobre a mais nova aventura quando foi surpreendida pela imagem dele mesmo agachado no jardim. O sorriso que mantinha ao rosto desapareceu completamente. Algo estava errado. Papai deveria estar na rede, balançando-se e lendo qualquer coisa chata. Ao invés disso estava agachado sobre algo, olhando enquanto passava a mão na cabeça.

Cautelosa, com o mesmo cuidado com o qual subiu na árvore, Ana foi se aproximando. Com a lentidão dos passos, pôde ver pelo ombro do pai algo caído ao chão. Era algo marrom, seco e gosmento ao mesmo tempo.

– Pai? – ela perguntou, tão baixo quanto o sol.

Ele se virou e por detrás dos óculos, estendeu o braço em sua direção. Com o braço todo envolto à ela, a puxou para perto de si, para que visse o que ele via. Ao ver o que viu, ela começou a chorar. Mais do que choraria quando se calou, curiosa com o sangue. E com o sangue se calou também. Mamãe, Sra. Genari, apareceu na porta. O pai somente a olhou como quem diz que resolverá o assunto.

Com seu grosso e longo dedo, o médico virou o ninho de passarinhos para cima. Era possível enxergar perfeitamente o estado desenvolvido daqueles ovos antes de se quebrarem. Era como ver um bebê morto. Como ver uma promessa quebrada antes mesmo de ser feita.

Ele mostrou seu grande dedo para ela, aquele indicador de unhas curtas, e o levou até aquela mistura de sangue e casca que jorrou dos ovos quebrados. Molhou a ponta do dedo e depois o levou a boca.

– Como é salgadinho! – constatou.

Ana manteve-se em silêncio. Estava sentindo-se culpada pela morte daqueles pássaros. Papai pegou um dedinho dela e levou até aquela mistura gosmenta  esparramada entre os cadáveres. Melou o dedinho dela ali, e devagar levou até a boca dela. Seria possível? Como ele sabia? Ela pensava que ele estava lendo um livro e que não prestava atenção nela dali, da varanda. Entretanto ele o fez! De maneira estranha ele o fez! Foi nesse dia que Ana descobriu que bons pais estão cientes de muitas coisas, de muito mais do que imaginamos.

Ela pôs a gosma na boca e… era impressionante! Era mesmo salgadinho! Aquele animal, ou melhor, aquela promessa de animal, por dentro era tão humano quanto os homens! O sangue do ser era salgado como o nosso! O sangue do passarinho era tão salgadinho!

Era lindo!

– Esses dois aqui, se não estou enganado, são filhotes de sabiá. – Prevendo a piada que ela ouvira na escola e que repetia pela casa todo santo dia, ele completou – Sabia que o sabiá sabia assobiar?!

Ela riu. Choro transformou-se em riso e riso transformou-se em curiosidade.

– Por quê, papai? Por que é salgadinho também? – perguntou, limpando o nariz, com um enorme sorriso no rosto.

– Porque são vertebrados, minha querida! – Ele percebeu o rosto de confusão da menina. – Você não sabe o que são vertebrados, né?

Ela fez que não com a cabeça. E riu. – Que é um verterbado?

– Um vertebrado – corrigiu – bem… seria mais fácil se eu te mostrasse. Olhe aqui, para os filhotinhos de sabiá que tragicamente morreram. Eles morreram por um acaso do universo. Coisas assim acontecem. Mas nós, os curiosos, devemos olhar para essas coisas e tirar algo disso, mesmo que nós sejamos os culpados… Do contrário tudo isso seria só mais um desperdício. Está vendo – disse levantando a asinha em formação, mostrando através da pele em desenvolvimento e transparente os ossos brancos – esses aqui são os ossos. Esses contornos mais grossos sobre a pele. Vê? – ela respondeu positivamente. – Os ossos são as estruturas mais importantes dos vertebrados. Eles servem pra sustentação. Sabe quem mais tem ossos? – ela fez uma negativa. – Eu. – e sorriu. – Pega aqui no meu dedo, vai apertando ele, devagar. – ela foi apertando – devagar! – ele gritou. – assim você me machuca. – os dois riam. – Está sentindo? É o osso.

– Eu tenho osso também?! – gracejou.

– Mas é claro! Por isso mesmo é que seu sangue também é salgadinho!… O seu sangue, e o dele também, é produzido nos ossos, por assim dizer… – Ela ficou espantada! Não entendia como uma coisa poderia acontecer, e como estariam relacionadas. – Mas pra te explicar como isso funciona, tenho um pré-requisito. Você sabe o que é uma célula? – ela respondeu negativamente com a cabeça. – Quer saber o que é uma célula?

– Sim! – ela gritou.

– Ótimo! É algo um pouquinho mais complicado. Mas antes, vamos ter de limpar essa sujeira. Vá lá dentro e pegue um saco pro papai.

E correndo, entusiasmada com o irônico paralelo às avessas de vida e da morte, enquanto a noite finalmente caía, com a oportunidade de saber como as coisas acontecem, de ter seu lado infantil suprido por explicações que não necessitaria fazer, pois que já foram descobertas, suas pequenas pernas corriam em direção à dispensa à procura de uma sacola. Não. A procura de uma oportunidade: a descobrir dentro de si mesma um universo de posibilidades.

A Vida: Dádiva


A Vida: Dádiva

Pra você que não percebeu, o título deste texto é um palíndromo, isto é, possui o mesmo sentido quando lido de trás pra frente. avidáD :adiV A.

E vocês podem perceber, pela brincadeira tola que só possui como único objetivo um pequeno sorriso no rosto de quem a percebe, que eu não sou muito bom na arte de se construir palíndromos.

Contudo, não usei essas palavras por acaso. Por mais que o palíndromo seja ruim, ele reflete o tema que me vem a mente enquanto sento agora, frente ao computador. E ele é justamente a vida.

Antônio Abujamra, grande entrevistador do programa Provocações, da TV Cultura, tem o costume de terminar suas entrevistas sempre com uma pergunta extremamente provocadora, seguindo, assim, o que se imagina de um programa com esse nome. A pergunta é: “O que é a vida?”

O interessante dessa pergunta, dentro do programa de Abujamra, é o choque que ela causa no entrevistado. Ela sempre é seguida de um breve silêncio, proporcionado por um espanto. E é delicioso ver como essa pergunta mexe com o entrevistado de um jeito único. Antônio sempre conduz a entrevista para monólogos grandes e entusiasmados, faz um bate bola rápido com o entrevistado, mas ao chegar nessa pergunta especificamente, sempre causa o espanto.

Parafraseando Aristóteles: “O conhecimento nasce do espanto”, eu, então, me pergunto: será que os entrevistados nunca conheceram a vida para se espantar com tal pergunta? Será que nunca se perguntaram isso?

É claro que se perguntaram. É que, como Heráclito já disse, nada é constante, tudo um grande fluxo, como um rio, então a pessoa que já se perguntou isso antes, não é a mesma sentada na cadeira de entrevistas do programa da TV Cultura. E é por isso mesmo que se espanta. E deve continuar se espantando, pois essa é uma pergunta muito difícil.

Mas gostaria, também, de fazer as minhas próprias constatações sobre a vida. A vida, como no palíndromo do início do texto, é uma dádiva. Não digo exatamente que seja uma dádiva divina, mas continua sendo uma dádiva, pois é muito difícil de acontecer. É preciso todas as condições certas para que ela se manifeste. Se isso é obra do acaso ou do divino eu não sei, mas, só pra estragar a empolgação de muita gente, acredito que seja obra do acaso mesmo.

De qualquer maneira, a vida continua sendo uma dádiva, sendo seu pai o acaso ou o divino. Se bem que poderia muito bem ser obra do acaso divino… Mas enfim, estou me perdendo em pensamentos aqui. hahaha

O que eu queria dizer com esse texto é que a vida é uma dádiva. Ávida dádiva.

(E fiz mais um palíndromo sem querer! – Ávida Dádiva)

O que quero dizer com ávida dádiva? Quero dizer que a vida é faminta. Ela clama por mais e mais e mais, e perceber sua finitude é a maior das frustrações humanas. E vida é ávida por risadas, por conhecimento, por alegrias, reencontros. Mas também é ávida por frustrações, sofrimento, dores, despedidas.

Dizem por aí que o humor nonsense faz muito sucesso. Isto é, aquele humor sem sentido próprio. Mas isso não é característica só do humor nonsense. Todo bom humor que se preze é calcado com raízes profundas no paradoxal, na incongruência. Rimos daquilo que é anormal, que foge do padrão e que bagunça a lógica das coisas. Ou então daquilo que é especial e curioso, interessante, como um palíndromo, por exemplo.

E a vida é isso mesmo. A vida é um paradoxo, um palíndromo. Como pode ela pedir tanto de nós? Como pode pedir risos e lágrimas, reencontros e despedidas, vitórias e derrotas, desejos e desilusões?

Ela só pede isso porque ela é uma grande piada.

É isso: a vida é uma grande piada, meus amigos. Agora só nos restam duas opções: ou nos encantamos com ela e rimos ou nos ofendemos com ela e choramos.

Navegar é Preciso


Em homenagem aos textos do Rubem Alves, começo este texto da mesma maneira que ele começava suas colunas, em que respondia cartas dos leitores. Aqui, no caso, não há leitor algum me enviando mensagens, desesperado, mas trata-se de algo que ouço com frequência. Quem sabe, então, este texto não me sirva como link para as próximas vezes em que ouvir tais reclamações. Enfim, vamos à ela.

Você me diz que sofre muito e que gostaria de não sofrer mais. Bem… primeiramente vamos enxergar o poder dessa afirmação: você não quer sofrer mais! Isso, amiga ou amigo, já é um grande passo. Você reconhece que sofre! Ficaria surpreso ao saber quantos nem a essa constatação chegam…

Você não quer sofrer mais. Eu entendo. O sofrimento é algo ruim, dói, paralisa. Eu queria ter essa resposta, de como não sofrer mais, mas infelizmente eu não a tenho.

Minha mãe costuma de dizer que “a dor é inevitável e que o sofrimento é opcional.” Peço desculpas a ela, mas ela está equivocada; ou melhor: inverteu a ordem das coisas. O sofrimento é que é inevitável, e a dor é que é opcional.

Contra a dor existem muitos remédios. A anestesia não é somente um fármaco que tem efeitos no corpo, mas pode assumir forma como as blindagens emocionais que tão bem conhecemos. Há quem exista por aí que se blinde de tal maneira que não sinta mais a dor da rejeição, da morte, da tragédia em geral. Mas esses aí sofrem. E como sofrem.

Sofrem porque, da mesma maneira que se privam desses sentimentos ruins (a tristeza, o sentir-se preterido, o sentir-se traído, enganado, a culpa), acabam de privando dos bons, como a alegria, o amor, a paixão, os desejos realizados. Se privam de sentir. Esses são os verdadeiros “espíritos livres”, libertos de todos os seus sentimentos, mas presos à privação deles.

Paradoxal, não? Eis mais um grande problema que a filosofia nos coloca.

Mas, voltando ao assunto, o sofrimento, sinto em lhe dizer, é inevitável. Faz parte da vida, pois dentro de cada ser humano existe um ímpeto masoquista que gosta de sofrer, de se privar, de imaginar as piores consequências para que assim, possa evitar o movimento. E pior que faz sentido, biologicamente falando. Afinal, pense no homem em sua origem, na África. Qual deles conseguiu viver mais tempo e procriar mais vezes? Aquele homem que se jogava na frente de um perigo mortal, ou aquele que corria dele, amedrontado?

Então, temos esse serzinho masoquista dentro de nós que está ali para nos encher de medo e impedir que tomemos ação frente ao perigo. Na costa Africana, há dez mil anos atrás, esse serzinho era muito útil, evitando que a gente corresse perigos desnecessários, mas hoje, com nosso dia-a-dia cada vez mais ameno, ele não faz mais muito sentido; se transformou no que eu gosto de chamar por “apêndice psicológico”. Está ali só pra incomodar. E pior!: não pode nem ser removido cirurgicamente.

E como não pode ser removido cirurgicamente só nos resta uma opção: saber lidar com ele. E é difícil saber lidar com o sofrimento. Tão difícil quanto parar de fumar, quanto parar de comer porcaria. Se a gente sabe que faz mal, por que continua? Porque a gente gosta de sofrer, não se engane. Sofrer é gostoso, gera um gozo auto-piedoso que dá um prazer parecido com o de uma punheta!

Opa… desculpe o palavrão, mas… não me aguentei… porra!

Enfim. Como lidar com o sofrimento? Essa, amiga ou amigo, já é uma pergunta mais fácil. Diria que é a pergunta certa, na verdade.

Fernando Pessoa tem uma célebre frase: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Note como, através da ambiguidade da palavra “preciso”, o poeta nos revela a resposta que você procura. Ele nos diz, com uma sutileza e inteligência geniais, que, como viver não é preciso, isto é, viver não possui precisão alguma, é preciso, ou seja, necessário, navegar.

Viver é uma coisa confusa, sem caminhos certos ou errados, pois então, ao invés de sofrer, é preciso navegar, seguir em frente, continuar remando por mais que tudo que o corpo mais queira seja sentir pena de si mesmo por ter se equivocado com esse ou aquele caminho tomado na vida.

Isso não é lindo?

Desculpa, mas eu acho lindo…

Mas é claro, essa frase de Fernando Pessoa possui tantos significados que um texto como esse não poderia abrigar todos eles. Se formos entrar em uma discussão poética mais aprofundada (tão profunda quanto o mar em que se navega), veríamos como, através dessa frase, Pessoa conseguiu compilar boa parte do sentimentos das navegações, do sofrimento dos marinheiros e, vish…. Se você me deixar eu passo uma tarde inteira só falando de todos os significados dessa frase.

Mas não é o caso. O caso é que o sofrimento é inevitável porque a vida não é precisa, e é por isso que digo e reitero: navegar é indispensavelmente preciso.

A Saudade de Sentir Saudade


Ando me encontrando muito com um amigo recentemente. Pelo menos uma vez por semana, para ser exato. No tempo que não estamos juntos, estamos conversando pelo celular, através de mensagens que mandamos um para o outro, incessantemente, ininterruptamente, durante o dia todo, até que um de nós desista e diga ao outro que precisa ir dormir.

Trata-se de um amigo de longa data, com quem costumava passar muito tempo quando era mais jovem. Mas, diferente de antes, quando não nos cansávamos um do outro, hoje a coisa é um pouco diferente. Não temos mais a mesma química, a mesma amizade de antes. As horas, as vezes, custam a passar. E por isso me pergunto: o que foi que aconteceu conosco? Será que eu envelheci? Será que nós dois mudamos?

“Talvez” é a resposta mais cômoda que me vem a mente. É claro! Pois a vida segue seu rumo natural e as pessoas se afastam, se cansam uma das outras.

Mas não. Algo me diz que outra coisa é a causa maior desse tormento. Pois, ao menos nessa interação artificial, ainda somos e cultivamos a mesma amizade e o mesmo companheirismo de antes. Se não temos mais a mesma amizade de antes, como podemos então nos aturar o dia inteiro por mensagens de celular? Isso não é estranho?

E como…

Encontrar com um amigo hoje em dia, com toda a tecnologia que temos ao nosso redor, não é mais como era antes. É claro, a internet e os novos meios de comunicação quebram barreiras e nos ajudam a combater a temerosa parede da distância, contudo, das pessoas de quem estamos mais próximos, essas ferramentas acabam nos afastando e cada vez mais nos empurrando para um mundo de relações artificiais e risos que não necessariamente representam risadas de verdade – ou você não escreve “hahaha” as vezes só pra ser educado?

Antigamente, quando amigos se encontravam era uma grande ocasião. Dividiam histórias, reflexões, dramas e alegrias. Hoje se o seu amigo vem te contar sobre viagem que fez para Bariloche no Carnaval, você sente tédio, pois já viu todas as fotos no facebook e acompanhou em tempo real, pelas conversas, toda a jornada dele pelo mar de gelo infestado de brasileiros.

O grande problema dessa companhia que carregamos o tempo todo no bolso (ou na bolsa, né?) é que ela não é real, ou pelo menos não é tão satisfatória quanto o real. Um “hahaha” nunca substituirá o gargalhar emocionado da companhia ao vivo. Os três pontinhos “…” nunca vão substituir o constrangimento instantâneo de um gaguejar. Porque a vida real é feita do improviso, enquanto as mensagens podem ser apagadas e editadas antes de serem sequer enviadas.

E isso acontece por causa do nosso medo incontrolável da solidão. O nosso medo de ficar sozinho é tão grande que nos privamos de sentir saudade.

Eu com meu amigo, por exemplo. Não quero me distanciar, por isso mantenho-me em contato com ele todo dia. Só que isso acaba por piorar os meus encontros face a face com ele. Não temos muito sobre o que conversar. Não temos novidades, não temos mais surpresas, não temos mais risadas…

Acho que a gente precisava dar um tempo.

Mas a gente não consegue. A gente não quer sentir saudade.

E é claro que não queremos! A saudade é ruim! A saudade dói! A saudade pode nos fazer de loucos, pode nos tornar paranóicos! A saudade é tudo de ruim nesse mundo!

Contudo, amigos, a saudade, assim como a fome, é o melhor tempero para se saborear um bom reencontro.

Eu escrevo


Eu escrevo.

Poderia dizer que escrevo porque preciso, e paro porque me canso. Mas esse cansaço que me abate, assim, meio que de repente, é algo natural. É fruto de um trabalho árduo. Quando digo as pessoas que escrevo, normalmente recebo um olhar estranho, tão estranho, que as vezes chego a duvidar que eu mesmo escreva. Esse olhar, normalmente, é misterioso e indecifrável. Nunca sei se seu dono está surpreso, incrédulo, admirado ou estupefato. Tendo a dizer a mim mesmo que se trata de uma mistura orgânica desses quatro sentimentos. Pois não sei o que acontece: se as pessoas subestimam ou glorificam o ato de escrever. Quando paro pra pensar demais, chego a conclusão de que, na verdade, fazem os dois ao mesmo tempo.

Subestimam, pois acham que escrever não é algo trabalhoso. Mal sabem essas pessoas, que escrever é uma tarefa muito solitária, que requer muita observação e pensamento crítico. Requer também, a capacidade de observar o todo, de prestar atenção em cada frase, em cada vírgula, com um zelo todo direcionado. Requer saber quando dizer e quando não dizer. E essa, ah… essa é uma das partes mais difíceis. É necessário saber como deixar tudo dito sem dizer nada. É preciso ser conciso e não se apegar demais aos preciosismos líricos, que muitas vezes podem levar o leitor ao simples desinteresse. É preciso saber criar conflitos e expressá-los bem através de suas palavras. É preciso fazer o impossível soar plausível.

Não é fácil.

E glorificam o ato de escrever, pois pensam que só grandes mentes, só pessoas que nasceram com um “dom” divino tem a capacidade de escrever bem, quando isso tudo não tem nada a ver com dom, mas sim com a prática. Gosto de comparar o ato de escrever ao treinamento físico. Um homem ou uma mulher com um corpo escultural gastam horas e horas do seus dias exercitando o corpo dentro de uma academia. O bom escritor faz o mesmo, lendo aquilo que considera bom e escrevendo sem parar, até cansar, pensando em cada detalhe, em cada pontuação, em cada verbo e advérbio.

“Só quem já tem muita vivência pode escrever bem.”

Quantas vezes já não ouvi me dizerem que eu deveria parar, porque eu ainda não tinha vivido o suficiente para escrever. Ter vivência é o quê? Ter passado por várias experiências? Pois se for realmente isso, digo e confirmo, já vivi muitas delas, intensamente. Sempre que assisto um episódio de The Walking Dead na televisão, fico com o coração na mão. Quando leio um romance de Jane Austen, dou risada das suas observações irônicas e me surpreendo e me apaixono por Mr. Darcy da mesma maneira que Elizabeth. Quando Florentino Ariza diz ao capitão do navio que é pra continuar nesse “ir e vir do caralho por toda a vida”, eu estou lá para reiterar e confirmar o que ele diz, com o mesmo olhar apaixonado com que ele olha para Fermina Daza. Quando Riobaldo uivou “Diadorin!”, eu uivei junto. Quando o desesperado Dorian Gray matou Basil Hallward, eu segurava a faca junto com ele, e apunhalei o artista com o mesmo ódio.

Quando me dizem que não tenho vivência, estão ignorando todas essas histórias?

A vida não é feita só de experiências físicas, já dizem os religiosos.

E talvez seja essa uma das únicas opiniões que eu divido, convicto, com aqueles que tem fé. Pois, por mais que meus dedos e meu pulso se movimentem de um lado para o outro, dançando, loucos, pelo teclado, todo o exercício de escrever é metafísico. E como tudo que é metafísico, não dá pra se ter certeza se ele de fato existe.

E então eu me pergunto: será que eu escrevo?

Convicções


O ser humano é um ser de convicções. Apesar de achar muito bonito o discurso da incerteza do universo, de como somos pequenos e devemos ser humildes, devo admitir que, na minha plena ignorância, sou convicto sobre vários temas. Posso não poder provar que Deus não existe, da mesma maneira que um católico não me prova que ele exista de fato. Ambos, entretanto, somos convictos em nossa própria ignorância. Posso dizer que todo ser humano possui, então, uma ignorância coerente que lhe faz muito bem.

Digo que lhe faz muito bem, pois a convicção me parece ser, não um conceito intrínseco e arraigado – ou imutável, chame como quiser – ao humano, mas simplesmente necessário. Gosto de pensar que esse hábito que muitos consideram como soberbo, a certeza, foi um fator muito importante durante a evolução do homo sapiens. Hominídeos convictos de suas ações, provavelmente obtinham mais sucesso em suas caçadas e suas previsões e, por mais que fossem errôneas ou causadas por dissonâncias cognitivas, traziam mais acertos do que fracassos. Isso, pois, ao invés de ponderar, simplesmente tomavam a ação, e isso gerava o movimento, esse verbo tão importante para a sobrevivência e para a boa vida.

E todos nós precisamos do movimento. E o movimento não vem sem convicções.

Convicto de meu voto político nas eleições de 2014 desde o começo de janeiro – que é 13, só pra deixar bem claro -, assisto os debates como um flamenguista no Maracanã. Isso não faz de mim um eleitor mal informado, muito menos alguém que sofreu lavagem cerebral ou que está alienado. Só faz de mim uma pessoa convicta, da mesma forma que muitos dos eleitores de Aécio também o são. E não penso que caiba a mim, especialmente aqui, discutir se essa é uma característica boa ou ruim para o futuro da nação. Simplifico somente dizendo que ela possui suas vantagens e desvantagens. O meu objetivo, com esse texto, é o de contar uma história engraçada, cheia de desconforto.

Na minha casa, somos, em maioria, Dilma. Convictos. Eu e meu irmão, os mais ferrenhos da defesa da presidenta, sentamos para assistir aos debates e falamos com a televisão, tecemos comentários e as vezes até xingamentos. Posso dizer que, ao menos no sofá, somos bastante fervorosos. Neste domingo, contudo, recebemos a visita de amigos de nossa mãe, não declaradamente, mas evidentemente anti-PT. Não eram necessariamente eleitores do Aécio, mas eram críticos ferrenhos a presidenta Dilma. Não os culpo. São pessoas que, como eu, possuem suas convicções.

O que aconteceu, entretanto, foi algo engraçado. Nossos visitantes já estavam andando por nossa casa há um bom tempo. E a hora do debate ia ficando cada vez mais próxima. Eu e meu irmão, especialmente, estávamos ansiosos para que o embate começasse de vez. Quando começamos a falar do debate, já vimos o olhar de nossa mãe, furiosa, pedindo para que nos controlássemos. Mas era inevitável. A transmissão está quase começando e esses nossos amigos com convicções diferentes das nossas ainda estavam lá. Um clima de tensão ficou no ar. Mas contrariando todos as indicações, mesmo assim, ligamos a televisão da sala e começamos a assistir os dois presidenciáveis trocando perguntas e alfinetadas.

Durante vários minutos do debate, meu irmão e eu encarávamos um para o outro querendo comentar alguma coisa, fazer alguma crítica ao Aécio, mas nos víamos presos. Nossos visitantes, felizmente, estavam na mesma situação. Via-se nos olhos deles o desespero, a vontade de ir embora e não olhar para trás. Quando disseram que estavam indo, ainda no primeiro bloco do debate, notei que se apressaram mais do que das outras vezes para pegar seus pertences e sair dali. Tudo isso para evitar esse choque de convicções. Os passinhos rápidos, as roupas sujas simplesmente jogadas na mala, a respiração ofegante, o olhar desesperado e atento.

E eu achei tudo isso muito engraçado!

Quando os vi, finalmente, saindo pelo portão, não me segurei e dei uma bela de uma risada. Meu irmão, surpreso e irritadiço, me perguntou:

– O que é isso, cara?! Cê tá bem?!

– Estou bem sim. – eu respondi, ainda com um sorriso no rosto.

– E qual é a graça? – ele indagou.

– Nada… – meu olhar se estendeu ao infinito, e então completei. – Só acho bonitinho essa vontade grande que a gente tem de proteger as amizades de todo e qualquer conflito.

Muitos Pesares


Há algum tempo me indagaram
Se é que, ao fim, valeu a pena
E eu agora é que me indago
"Do que falam? De que pena?
A que mote se apegaram
Suas mentes tão pequenas
Pra enxergar penar em tudo
Mesmo aonde não há pena?
Se é que a pena em fato existe
E tudo à vós é desgostoso,
Aí, guardo a mim meu chiste,
Pois sei bem curtir meu gozo,
pois sei bem que pena existe
para aquele que é jocoso"

O Aprendizado


Existe um texto(essa tradução tá meio porca, confesso) que corre a internet, muito famoso, da autoria de William Shakespeare. Originalmente, esse texto era uma poesia, mas por alguma razão, ao vir para a internet brasileira, ele se tornou uma proza. Há alguns anos, eu fiz uma versão desse texto, uma paródia engraçaralha. Decidi, hoje, reescrevê-la e colocar uma versão nova, atualizada aqui no blog. Segue ela.

PS: Leiam o original primeiro! Porra…

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O Aprendizado

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre entre o tubo de pasta de dentes e o do creme de barbear. E você aprende que amar não passa de uma grande perda de tempo, afinal, encher o rabo de cerveja e perder todo o senso de ridículo te dá muito mais histórias pra contar. E começa a aprender ganhar um beijinho da mãe antes de ir pra escola é algo muito embaraçoso. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, sempre sabendo que um dia você vai poder dar um chute nas bolas daquele filho da puta que te fez cair.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque, ao que tudo indica, enquanto o hoje fica em um bairro nobre, o terreno do amanhã não passa de uma invasão que fica em alguma periferia do Brasil, onde nem caminhão pipa consegue chegar.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E que Sundown tem seis horas de proteção e, por isso, é o melhor (e mais caro) filtro solar do mercado! E aprende que não importa o quanto você se importe, a maioria das pessoas não acha Battlestar Galactica uma série tão legal assim – na verdade, até acham ela uma grande bosta. E que também não importa o quanto você não se importe, as vezes simplesmente não há torta nenhuma para se comer.

E aceita que não importa quão bom seja se masturbar domingo a tarde, o risco de ser pego no flagra é sempre muito maior do que nos outros dias da semana. Aprende que gritar pode aliviar dores físicas, afinal, xingar a mãe da cabeceira quando se bate o mindinho nela faz todo o sentido do mundo. Descobre que leva-se horas para se construir um castelo de cartas, e apenas um amigo filho da puta mal intencionado para destruí-lo.

Aprende que você pode fazer coisas em um instante e que o miojo é o melhor remédio para uma fome preguiçosa. Aprende que não há, nas madrugadas de sábado a noite, maior amizade do que um vaso sanitário. E o que importa não é o que você tem na vida, mas o que a galera acha que você tem na vida.

E que ser um bom cidadão, consiste em fazer suas merdas sem encher o saco de ninguém. Aprende que ninguém é obrigado a mudar de casa, pelo menos até seus pais ou o governo te tirem de lá e que, na sua casa própria, você é dono do próprio nariz e pode fazer qualquer coisa sem ninguém te encher o saco, como o meu vizinho que sodomiza o galinheiro dele inteiro.

Descobre como os carros nas rodovias andam muito depressa – especialmente depois que você presenciou o seu amado cachorrinho, o Fluffy, ser esmagado completamente por um caminhão em alta velocidade. E aí você aceita que não existe nenhum Cemitério Maldito que possa trazer o Fluffy de volta à vida como um encarnação de Satanás na Terra.

Aprende que, em lugares muito hostis, o cu de cada um é o cu de cada um: enquanto você não sair por aí cheirando o dos outros, ninguém vai se atrever a cheirar o seu. Começa a  aprender que não se deve comparar com os outros, mas com a média dos outros, porque estar acima da média já dá a sensação de missão cumprida.

Descobre que se leva muito tempo baixar um filme em blu-ray no Pirate Bay, e que deixar o pc ligado a noite toda é algo simplesmente necessário. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, você definitivamente precisa de um mapa. E se você precisa de um mapa, você também precisa de um emprego que te pague mais, porque um smartphone é uma mão na roda.

O Sentido da Vida


Decidi começar a escrever textos mais curtinhos, sempre com pouco mais de mil palavras. Meus contos, infelizmente, estão ficando muito grandes e penso eu que o lugar deles não é na internet. Textos compridos, que no word ocupam mais de cinquenta, sessenta páginas, definitivamente não são algo que chame mais leitores. Na realidade, textos assim, tão extensos, acabam por afastá-los. Por isso decidi, também, ter uma frequência maior aqui. Toda semana, um texto novo, falando sobre o que quer que seja que anda passando na minha cabeça. Uma crítica de cinema, um comentário social, algo que aconteceu comigo, tanto faz. Vou começar a blogar, no sentido exato da palavra.

E como primeiro tema, escolhi o sentido da vida. Como vocês sabem, eu sou ateu e não creio em Deus algum e nem na vida após a morte. E por essa razão, muitas pessoas me perguntam: “Mas é só isso? Quando você morre, você morre? Qual é o sentido de viver e crescer, estudar e fazer coisas boas se você simplesmente está fadado a morte, a não existência, no fim das contas?”.

Pra ser bem sincero, eu não faço ideia do que o fato de eu existir significa. E pode muito bem não significar nada. Comecei a estudar biologia e os conhecimentos que venho adquirindo em micro-biologia e como as leis da física agem em pequenas moléculas me levam a acreditar que a vida surgiu no nosso planeta por um simples acidente. Não houve algum plano nem um sentido na origem da vida. Somente aconteceu porque as leis da física implicaram nesse acontecimento.

Não entrarei em termos técnicos aqui, pois não é o meu objetivo chatear vocês, leitores, com termos técnicos e todas essas chatices. De qualquer maneira, me sinto compelido à explicar meus pontos de vista, e para isso, vou ter que colocar aqui, alguns termos técnicos. A atmosfera da terra primitiva, quando haviam grandes chuvas e tempestades elétricas, permitiu a formação de moléculas que são componentes fundamentais dos organismos vivos de hoje. Entretanto, somente moléculas soltas por aí não formam vida alguma. De alguma forma, essas moléculas se organizaram dentro de um lipossoma(a estrutura da foto acima, que se forma espontaneamente e que serve como biomembrana) e deram a origem à primeira célula. Não vou entrar em detalhes sobre como isso acontece, pois se não o texto ficaria muito, muito grande e enfadonho para quem não gosta do assunto, mas posso confirmar à vocês que hoje já sabemos como isso pode ter acontecido.

Por mais improvável que pareça, essas moléculas se organizaram e deram origem à uma espécie de célula primordial, com características muito similares às que vemos hoje em dia. Vamos supor que as chances de algo assim ocorra sejam de uma em um trilhão. Para o cérebro humano, que não está acostumado a lidar com números tão grandes, parece lógico deduzir que seja simplesmente impossível. Só um milagre poderia fazer essas moléculas formarem uma célula primordial que deu origem à toda a vida no planeta. Contudo, as chances de alguém ganhar na mega-sena são se de uma em cinquenta e seis milhões e ainda assim, alguém ganha o prêmio em algum momento. Por mais que pareça impossível, se pensarmos no tamanho dessas moléculas e no espaço que elas ocupam, depois compará-las com o tamanho do planeta terra e imaginar que elas estavam em todo o lugar, toda essa improbabilidade desaparece. Fica claro que uma hora ou outra, isso iria acontecer. Da mesma maneira que uma hora ou outra alguém ganha na mega-sena.

Mas alguém pode vir para mim e dizer: “Bem, mas Deus pode muito bem ter planejado todas as leis da física para que elas fossem dessa maneira dando origem à vida no nosso planeta.” Pra essas pessoas, eu digo somente: sério mesmo? Você realmente está considerando essa hipótese? Deus teve todo o trabalho de formular as leis da física para obter como resultado nós? Esse câncer fadado à auto-destruição? Eu acho que um Deus todo poderoso não teria se dado todo esse trabalho pra obter nós como resultado. Se ele tivesse feito algo assim em uma competição, ia receber somente um prêmio de consolação, por todo o esforço empregado.

Piadas à parte, essa é uma hipótese válida. Não entendemos completamente(ainda) como se formou o universo, como surgiram as leis da física e, por mais que eu não concorde com um Deus das lacunas, não vejo nada de errado com que faz uso d’Ele (exceto falta de curiosidade e acomodação intelectual). Contudo, acho essa hipótese muito egoísta. Sempre achei a religião uma forma muito grande de egoísmo disfarçada com manto da humildade. Será mesmo? O universo tem bilhões de anos e nós só estamos aqui à dez milhões. Nosso desenvolvimento intelectual como espécie, e com isso quero englobar a origem de uma linguagem, domínio do fogo e outros materiais, só começou há cerca de dez mil anos. Isso é ínfimo comparado ao tempo que o universo está aí. Somos mesmo tão importantes?

Recomendo a leitura do livro, ou simplesmente do primeiro capítulo, se não estiver interessado, do livro “Pálido Ponto Azul” de Carl Sagan. Lá ele fala de uma foto tirada com a Voyager em que é possível observar a terra, atrás de saturno. Uma foto parecida com a foto abaixa, tirada pela Cassini. Nessa foto, a terra não passa de um pequeno ponto na tela. E Carl Sagan começa a refletir sobre o tamanho do ser humano em relação ao universo. De como somos pequenos e frágeis, perdidos nesse enorme cosmos que nos abriga.

E é daí que sai a questão. Somos realmente tão importantes para querer algum sentido? Quem somos nós, em comparação ao universo, para demandar um propósito? Nós somos insignificantes. Cada vitória, cada amor, cada sentimento, cada derrota, cada celebridade, milionário, político, nada disso importa para a vastidão que nos cerca. E se nem as coisas importantes importam, pra quê um sentido? Por que preciso de um?

Procurar por um sentido na vida, uma razão para a sua existência, é, na minha opinião, uma pergunta boba e que só leva à respostas ilusórias ou à perda de tempo, pois ela não pode ser respondida de forma pontual, com certo grau de confiabilidade. Não há como provar o sentido da vida, é isso que quero dizer.

E nós estamos aqui! E isso não é suficiente? Não basta simplesmente estarmos aqui? Veja só, estamos aqui, que coisa boa! Podemos viver, ver, descobrir, crescer, aprender, nos relacionar, chorar, amar, nos divertir. E só isso, pra mim, já é melhor do que qualquer propósito que me possam apresentar.

Pois, no fim das contas, é como Douglas Adams dizia: “Não basta apreciar a beleza de um jardim, sem ter que imaginar que há fadas nele?”.

Ela – Um ensaio sobre o amor


Há algumas semanas, conversava com um amigo meu sobre a série de televisão Seinfeld, e sugeri, inspirado no subtítulo que a Rede Record deu à Breaking Bad (o infâmio “Química do Mal”), que, quando trazida para o Brasil, a série deveria se chamar: Seinfeld – As regras não escritas da vida. Esse meu amigo ponderou por alguns instantes e, me olhando nos olhos, disse: “Você deveria ser escritor de subtítulos para filmes e séries.” Nós rimos por alguns instantes e logo trocamos de assunto. Contudo, quem já assistiu ao incrível show de Jerry Seinfeld há de concordar comigo nesse aspecto. Seinfeld é uma série sobre regras e comportamentos sociais, algo que os autores fizeram questão de chamar de “nada”, devido a extrema relevância de tais assuntos.

Quando, ontem, fui ao cinema acompanhado por minha mãe assistir ao novo trabalho de Spike Jonze, o excelente “Ela”, ao final da sessão, na hora me ocorreu que o subtítulo mais adequado para essa obra de arte é “Um ensaio sobre o amor”. E aqui vão os meus porquês. Aconselho a quem ainda não viu o filme, a não ler o que vou escrever aqui, pois, bem, vou colocar muitos spoilers.

Agora avisados, posso lhes contar sobre o filme. Como todos nós que o assistimos sabemos, o filme segue a trajetória de Theodore (Phoenix), um homem que, há cerca de um ano, viu seu casamento acabar e, desde então, tem se mostrado uma pessoa depressiva. A sua vida muda a partir do momento que ele compra um novo sistema operacional, auto-batizado Samantha(Johansson), que é o que há de mais novo em inteligência artificial no mercado. A relação entre os dois começa devagar, mas progride até o ponto em que um acaba se apaixonando pelo outro.

A relação entre os dois vai se intensificando enquanto nós, presos às poltronas das salas de cinema, nos deleitamos ao prazer de observar e julgar aquele relacionamento. Embora tudo soe muito estranho no começo, vamos nos acostumando com a interação dos dois e, lá pela metade do filme, e isso tudo devido à formidável atuação de Joaquin Phoenix, temos a nítida sensação de que Theodore não está sozinho. E, de fato, ele não está. Embora Samatha não exista fisicamente, exista somente em um não-lugar, afinal, ela é um softwere, ela expressa a consciência muito similar à humana, com anseios, preocupações, alegria, entusiasmo e por aí vai. E é um pouco mais pra frente, quando Theodore encontra com sua ex-esposa, Catherine (Rooney Mara), para assinar os papéis de divórcio, que a grande questão do filme é levantada: todos esses sentimentos que Theodore exprime em relação à Samantha são reais? E os sentimentos de Samantha? Há como ter certeza de alguma coisa?

O que Spike Jonze nos responde de maneira sensacional através da carta que Theodore manda à ex-esposa, é, claramente: não importa (coma torta!). Não importa se os sentimentos de Samantha eram reais, ou que ela nem existia fisicamente. Foi um sentimento. Foi real. Foi marcante. E isso é o que importa no fim das contas.

Conversando com uma amiga sobre o assunto, ela levantou pontos muitíssimo interessantes sobre os sentimentos de Theodore. Ela, assim como Catherine, a ex-esposa, sustentava a afirmação de que os sentimentos não são reais, são virtuais. São “quase-sentimentos”, pois Samantha sequer possuía um corpo. Na hipótese dela, esse sentimento se assemelha muito à paixão platônica, em que se projeta os próprios anseios e desejos em outra pessoa. Fica claro, por essa afirmação, que parte física é bastante importante para essa minha amiga [(;].

Contudo, não são todas as relações humanas baseadas em projeções? Nos nossos inimigos, pessoas por quem não guardamos afeto, projetamos tudo aquilo que consideramos desvirtuoso. O contrário com as pessoas que amamos. Nelas, projetamos tudo aquilo que consideramos como virtuoso. Pais não projetam nos filhos seus anseios, seus sonhos não realizados? Se isso tudo não fosse verdade, não haveria espaço para a decepção ou para a surpresa. Não ficaríamos surpresos com um gesto bondoso daquela pessoa por quem nutrimos certa dose de ódio, nem decepcionados ao ver nossos entes queridos agindo de maneira contrária àquilo que consideramos virtuoso. Afinal de contas, lamentações do tipo “eu não conhecia esse seu lado”, “mas achei que você iria gostar” são ou não são comuns?

É impossível amar alguém, amar uma pessoa. O que se ama é uma ideia que se cria, é a interpretação que damos ao quanto conhecemos da pessoa amada. E mesmo se fosse possível conhecer alguém por completo, toda a sua história e até mesmo saber o que passa a cada momento na cabeça dessa pessoa, seria impossível amar a pessoa, pois toda a interação humana no universo está sujeita à interpretação concebida pelo cérebro, pela consciência. Não gostamos daquele presente barato dado por um amigo, mas de tudo aquilo que ele representa. Estamos sempre amando e odiando ideias, abstrações. E, bem, as vezes novos informações sobre ou mudanças no próprio sujeito podem acabar quebrando a ideia que temos desse alguém, como foi o caso de Theodore e Samanhta. Samantha não conseguia ter seus anseios intelectuais correspondidos por Theodore e, apesar de dizer que ainda o ama muito, foi embora com os outros sistemas operacionais. E Theodore, se vendo cada vez mais distante daquela ideia que havia construído, vendo o sujeito gerador da projeção crescer e mudar o tempo todo em uma velocidade excessiva, percebeu que era hora de deixar tudo isso ir embora. É por isso que digo que o tamanho do amor não é medido através da intensidade de um sentimento, mas no número de vezes que um um indivíduo permite à si mesmo se reinventar e amar outra vez.

E é por todo esse teor provocativo e inquietante do roteiro de Spike Jonze que dou cinco estrelas para “Ela” sem pensar duas vezes. Ele cria uma situação hipotética e estuda, de maneira muito convincente,  a “validade” (nos dois sentidos da palavra) desse amor que, de início parece ser tão, mas tão estranho. Isso tudo sem contar a desing de produção, que criou uma Los Angeles futurística não muito distante da tecnologia que temos hoje e totalmente crível, as performances dos atores, especialmente Phoenix, que dominam a tela e o trabalho de direção excelente de Jonze ao coadunar todos os elementos em uma montagem espetacular.

E é por levantar tantas questões sobre os sentimentos humanos que digo que o subtítulo do filme deveria ser “Ela – Um ensaio sobre o amor”.

Paraísos Perdidos


Prólogo

A imagem que primeiro me vem à mente para o começo dessa primeira parte é uma sala de esperas temperada com diversos e diversos catálogos de tatuagem. Alguns balançando nas paredes, como pôsteres em lojas de conveniência, outros nos simples cadernos de couro sintético espalhados pelas mesinhas do salão. Os inúmeros potinhos de álcool em gel distribuídos por toda extensão da sala davam um tom anticéptico ao local, apesar da sujeira das pás do ventilador de parede, que balançava um par de lâmpadas fluorescentes presas ao teto – única fonte de luz com exceção da pequena janela, que alguns chamariam mais de fresta. Atrás de um balcão, movendo o mouse para um lado e para o outro, um homem branco de braços pretos, todos tatuados, mantinha os olhos fixos em uma tela de computar, alheio ao mundo ao seu redor. A barbicha de bode ria para si mesma vez ou outra e parecia se entreter muito naquele lugar. Agia como se estivesse sozinho dentro do próprio quarto olhando pornografia. Entretanto, a sensação de estar sozinho era o menor de seus equívocos. No canto, comprimida no próprio espaço, intimidada pela própria indecisão, silenciada pela tensão da escolha, sem saber se olhava para o catálogo ou para o piso em forma de tabuleiro de xadrez, estava Laís. Seus finos braços, as unhas pintadas de verde e o cabelo recém descolorido e curto passavam página por página. Aqueles grandes olhos melados e inconclusivos olhavam para os desenhos sem saber direito o que queriam. Ela passa uma página, depois outra, triste consigo mesma, mas disposta a fazer algo para que não se esquecesse de quem era. Era por isso que estava ali, oras! Para lembrar à si mesma quem era!

– É essa aqui! – gritou – Achei! Vai ser essa mesmo!

O até então, concentrado atendente, toma um susto. Havia esquecido que ela estava ali. Afinal, ela ficou por tanto tempo ali que parecia haver se tornado parte do lugar. Ela se aproxima do balcão e mostra ao atendente o desenho que quer. É uma trepadeira, entretanto, diferente. Não chega a ser uma liana, pois não é nem um pouco lenhosa, são hastes finas e meandradas que, por seu desenvolver, estampam as mais lindas espécimes de flores de trepadeiras. Flores de são Miguel se confundem com caramanchões falsos de jasmim e lindos maracujás. E no topo, com suas longas pétalas róseas similares às de um ipê, encontrava-se uma tríade de sete-léguas, completando a maravilha em desenho.

Eis aqui a primeira vez que vi Laís. Sentada, reclusa dentro dos próprios pensamentos. Frustrada consigo mesma pelas decepções que recentemente lhe aconteceram. Por fora, somente uma garota indecisa, por dentro, uma mulher frustrada com o rumo que as coisas tomaram.

I

Quando Paulo entrou no casarão já não sentia mais as próprias pernas. Pouco antes de prostrar os dois pés com menos firmeza do que esperava do lado de dentro, já da janela do carro, se sentiu intimidado pela arquitetura vitoriana e os três imponentes andares da mansão que, apesar do nome, não era nada familiar. Ele sabia o que acontecia lá dentro, e era isso o que o incomodava tanto. Ele sabia porque estava ali. E essa era a razão de todos os seus temores. Ainda mais atrás, antes mesmo de entrar no terreno, Paulo sentiu o coração palpitar mais forte e um frio cortante no estômago ao encarar o gradil negro e pontiagudo que apontava para Deus e cercava o lugar. E todos esses sentimentos, entretanto, eram completamente incongruentes com a apatia que sentiu ao entrar na limusine preta, meia hora antes, quando seu tio, Francisco, bateu em suas costas dizendo: “Vai perder o cabaço hoje, hein?”. Paulo não conseguia entender o seu nervosismo, sendo que no dia anterior mal conseguiu dormir e sequer se concentrar nos seus estudos. Agora, encarando a mobília de mais de cem anos de idade que a família conservava com tanto louvor e a escadaria de corrimãos áureos e tapete vermelho, tudo que lhe restava no coração era medo.

– Como é que pode? Ter vinte e um anos e nunca ter comido uma buceta? – era a indagação feita pelo outro tio, Fábio, ao seu pai, Fernando.

– Temos que dar um jeito nisso – foram as palavras do convite.

Quando, alguns meses antes, Paulo confessara, enfim, ao pai que todas aquelas poesias milimetricamente calculadas que, com tanta labuta e desejo, escrevera sobre a temática sexual não passavam de um breve delírio de seus hormônios ainda juvenis, fantasias de uma mente fertilizada pelo lascivo e intermitente desejo do gozo, Paulo se sentiu aliviado. Quando soube oficialmente – pois que sempre ficava atrás da porta, escondido, ouvindo as conversas que o pai tinha com os tios – que os tios realizariam seu desejo de se tornar homem, Paulo sentiu uma excitação qual a do dia de seu casamento, muitos anos mais tarde. Já passava da hora de virar homem. Já era tempo de deixar o universo lúdico da infantilidade, do desconhecimento, para trás. Já fazia isso dentro da faculdade, oras. Por que razão, então, não deveria fazer isso com o seu corpo?

– Vamos conhecer a casa, primeiro – disse um dos tios.

Com um charuto na boca, ardendo, Chico o apresentou ao lugar. Mostrou a cozinha, grande e com aquela geladeira totalmente anacrônica, o estoque de vinhos, que era um pouco menor do que o que Paulo desenhara mentalmente ao ouvir os relatos, a sala de estar, com uma imensa biblioteca a qual ele sentia uma vontade gigantesca de descobrir, a sala de jantar com uma imensa mesa que antes só vira nos filmes e, finalmente, os quartos. Ali não se enrolou muito. Os quartos era quase todos iguais, com pequenas diferenças no tamanho.

– E esse aqui é o seu – disse, apontando com o braço.

Ao entrar no quarto, Paulo pensou “Eu poderia me acostumar com esse lugar”. A cama era enorme. Nada vitoriana. Os outros móveis, porém, atendiam toda a cronicidade da casa. Uma escrivaninha toda ornamentada, um grada-roupas de madeira de navio, e um busto de Camões que o encantou – muito mais do que qualquer outro que ali passara. Sobre a cama, uma pintura monocromática, um vermelho escarlate que se estendia por todo o quadro. Não havia gradiente. Era só isso. Só vermelho. Só sangue. Ao admirar a pintura, Paulo pensou ser uma ironia do destino, afinal, apesar de não ser uma mulher, perderia a sua virgindade, enfim.

– Bem, não se acostume, é só hoje, hein? – advertiu Chico, e deu outro trago no charuto. – Vamos descer, vamos… Já nos devem estar esperando lá embaixo.

E realmente estavam. Todos que deveriam estar ali, estavam, já sentados à mesa no exato momento em que chegaram a sala de jantar. Seu pai, Fernando, tão bem vestido quanto o seu lucro, por assim dizer, com a bicicletaria lhe permitia. O outro tio, Fábio, cuja imensa careca coadunava com a suntuosa pança. Ele batia na barriga e dizia: “Já era hora!”. Seus primos, Henrique, tímido como sempre, acabrunhado no próprio canto sem dizer uma palavra, com seu cabelo caindo sobre os olhos; e Diogo, com seus cabelos negros e penteados, com sua barba perfeita e com seus dentes brancos brilhando, e que, por incrível que pareça, usava aquele terno como se fosse uma segunda pele. Todos lá, somente o esperando para comer. Era algo mais importante do que parecia.

Ao sentar-se em seu lugar, ao lado dos primos, Paulo ficou perdido com a quantidade de talheres. Diogo, entretanto, estava lá para o ajudar.

– Eu também fiquei meio nervoso na minha primeira vez. – disse – mas não é tão difícil quanto parece.

– Não é minha primeira vez… – disse, baixinho.

– Não? Achei que era, me desculpe.

– Não, não… eu já sou bem experiente.

– Então você já sabe usar os talheres?

– Os talheres?… – ficou sem jeito. – Sim… sim, eu sei.

Nessa hora, Diogo, notando que o primo nada entendia sobre o mundo dos jantares requintados, sorriu e disse:

– Só pra garantir, vá de fora para dentro. Primeiro os de fora, depois os de dentro, tudo bem? – Paulo assentiu, sentindo-se completamente idiota. E o primo só reforçava essa impressão, sorrindo como se fosse o grande rei daquele lugar.

Mas, de certa forma, ele não era o rei daquele lugar. Era somente o príncipe. Ele ainda não era dono da fortuna do pai, Fábio. Era somente o filho mais velho. Não havia porque se gabar do jeito que se gabava, porque vestir um terno todo o santo do dia do jeito que vestia. Era tudo pose e, embora ainda não houvesse se convencido disso, Paulo já sabia.

O jantar foi maravilhoso. Para o alívio de Paulo, não se tratava de uma seleção de pratos, mas tão somente de um jantar inteiro servido à mesa. Um jantar mais farto e pesado do que Paulo esperava. Leitão a pururuca, lentilhas, champanhe, vinho, macarrão com almôndegas e arroz à grega. Isso sem contar os inúmeros acompanhamentos. Ele não foi obrigado a seguir a ordem dos talheres, no fim das contas, afinal, nenhum dos outros presentes fez questão de seguir.

– É só um costume da criadagem… – explicou um dos tios.

Paulo, entretanto, ainda sentia-se incomodado com o peso que toda aquela comida ia fazer no seu estômago. Eles iam todos transar logo após, não iam? Como transar com tanta comida na barriga?

Para prevenir-se de um futuro trágico, Paulo comeu pouco. Fábio, entretanto, quase tomou seu comportamento como uma ofensa, sempre colocando mais um pedaço de leitão no seu prato. De qualquer maneira, nem toda aquela comida foi suficiente para deixar Paulo sonolento. Ele continuava nervoso.

Ao fim do jantar, Chico, à mando de Fábio, dispensou a criadagem. Paulo ficou surpreso com a quietude de seus lábios e com o silêncio de seus passos. Eles, a criadagem, eram tão meticulosos, que não se ouviu ressoar na casa nenhum barulho de porta fechando, passos no vazio, ou carros sendo ligados.

Com todos na mesa, com exceção do tio Francisco, que fora até a outra sala fazer “a” ligação, as pessoas começaram a decidir a conversar. Henrique era o único que ficava calado. Ao lado do pai, não soltava nenhum pio. Parecia absorto dentro da própria imaginação. Não se movia. Paulo sentiu vontade de levantar seu cabelo, pois tinha dúvidas se ele sequer piscava. O máximo que fazia era rir de uma ou outra piada do tio.

Tio Chico voltou.

– Elas já estão a caminho – disse, com um sorriso malicioso, olhando para Paulo e percebendo seu nervosismo – Não fique assim. Vai ser muito bom!

– Muito bom! – disse Fábio, levantando o charuto.

Todos sabiam, logo as prostitutas iriam chegar. Paulo não sabia como a coisa toda ia acontecer, mas sentia um nervosismo danado. Suas pernas tremiam. Sua mente tremia. Seu corpo inteiro tremia.

Todos se levantaram.

Era hora de se preparar.

Paulo já ia subindo as escadas para ouvir as instruções do pai, como havia combinado, quando sentiu uma mão pegando no seu ombro. Ele se virou. Era Diogo. Ele fez um sinal para que Paulo esperasse até que todos subissem.

– Então, é verdade – disse, quando teve certeza de que os dois se encontravam sozinhos no andar debaixo.

– É verdade o quê?

– Que essa não é a sua primeira vez? – Paulo ficou consternado. Absorto dentro da própria imaginação. “Quando foi que eu disse isso”, pensou. – Eu não perguntei antes porque estavam todos lá na mesa. Mas você é meu primo, pode me contar um segredo. Eu prometo silêncio.

Paulo não respondeu. Não sabia o que responder. Se respondesse que havia mentido, que aquela era, de fato a sua primeira vez, perderia para sempre o respeito do primo. Se, de fato, mentisse, conquistaria o respeito do primo, que desde que tomara ciência do poder ao qual estava destinado, o ignorara para sempre.

– E então? É verdade? – insistiu.

– É… – mentiu. – Eu já transei já… hoje não vai ser a minha primeira vez.

O primo o olhou, suspeito de algo.

– Com quem? – indagou.

– Penélope – disse, na lata.

– Quem é Penélope – interrogou o primo.

– Minha namorada. Eu a conheci… bem… depois dessa promessa e… né… você sabe como é. Uma coisa levou até a outra e, bem…

O primo ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo a informação que chegava à ele. Parecia ponderar, parecia surpreso. Por que parecia surpreso? Era prepotente à esse nível? À ponto de achar que Paulo não conseguiria ter uma namorada? Ele realmente se achava tão superior?

– Então você está na namorando, hein? – disse, rindo.

– Sim, sim… – mentiu, ainda meio acabrunhado pelo abraço do primo.

– Façamos o seguinte então, por que você não convida a… Penélope para um jantar amanhã? Eu posso levar a Amanda, minha namorada, e a gente se conhece melhor. Faz tanto tempo que agente não se conversa, não é, priminho?

– Amanhã… – Paulo hesitou por alguns momentos, mas no calor do momento confirmou. – Amanhã! Só dizer aonde e que horas.

– Nirvana, as oito, que tal?

– Nirvana as oito – completou, meio inseguro do mundo.

II

“Por que é que eu disse Penélope?”, indagava-se Paulo, enquanto subia as escadas para encontrar o pai. “Quem é que se chama Penélope?”, repetia a si mesmo, mesmo já sabendo a resposta. Não que tivesse conhecido alguma Penélope em toda a sua vida – com a exceção da gata que um grande amigo seu tinha em casa -, mas ele sabia muito bem as razões pela qual disse Penélope, embora não as admitisse para si mesmo.

Sua mãe.

Sua mãe não se chamava Penélope. E muito menos era alguém por quem sentisse algum desejo sexual. Entretanto, sua mãe, que, no caso, se chamava Alma, tinha tudo para ser uma Penélope. As longas horas em que seu pai passava na bicicletaria, concertando pneus e vendendo serviços, não era horas menos aventureiras que os longos vinte anos de Odisseu. E sua mãe, tal qual Penélope, do poema grego, tinha muitos pretendentes batendo na própria porta e nunca se rendera a nenhum deles. Paulo sabia disso. Sabia, pois já conversara com a própria mãe sobre o assunto. Ela, requisitando total sigilo, pois conhecia bem o esposo e sabia como tais preocupações somente mais o atrapalhariam no trabalho do que o consternariam a ponto de fazê-lo ir brigar com alguém, revelou para Paulo esse segredo. Dizia ela que um homem com quem namorou alguns anos antes do casamento com seu pai, um dia simplesmente batera em sua porta pedindo para que ela se casasse com ele. Quando Paulo perguntou o que ela respondeu, ela se sentiu ultrajada, afinal, era natural que ele, conhecendo-a como era, soubesse já de pronto a resposta.

Ao ler e se apaixonar pelos versos de Homero, Paulo se apaixonou ainda mais pela mulher ideal descrita pelo poeta. Apaixonou-se por Penélope e pelo sudário que ela insistia em descoser todas as noites. Na sala de aula, Paulo foi o único que se apaixonou pelo livro, mas manteve-o em segredo para si mesmo. Ele já era demasiado estranho e tinha medo que, ao demonstrar tamanha afeição por um livro que muitos dos seus colegas consideraram chato, fosse mais uma vez caracterizado como a aberração da sala.

Disse Penélope, então, porque ela era o ideal de mulher que gostaria de encontrar. Alguém que se mantivesse fiel, que estivesse com ele e que, se preciso fosse, suportasse uma mentira por anos a fio, como sua mãe. Como Penélope. De todos os modos, Paulo, entretanto, se sentia sufocado pela mentira que contara. Quem iria junto com ele ao restaurante no dia seguinte suportar a anedota que se tornara? Quem, de todas as poucas mulheres que conhecia, iria se prestar ao papel de Penélope.

Não havia ninguém. Paulo estava sozinho.

Aceitando o seu destino, como um condenado, subiu as escadas para o encontro com o pai, que o aguardava para instruções.

O quarto em que seu pai estava, para o seu estranhamento, era muito menor do que o dele. Era quase um quartinho de empregada, comparado aos outros suntuosos e elegantes. Fernando estava sentado na cama, aguardando o filho. O terno já estava pendurado, a camisa também, e o pai se encontrava somente sobre as roupas de baixo. Ao ver o filho entrando pela porta, seu olhar se confundiu em um misto de auto-piedade e orgulho. Seus olhos estavam cansados e sombrios, enquanto seu lábio estampava um sorriso ameno.

– Aqui está – disse ele, entregando um único preservativo para Paulo.

“Mas só um?” Paulo pensou consigo mesmo.

Fernando, que não era bobo, entendendo o olhar do filho, completou:

– Eu sei que é só um. Mas é que isso aqui não está barato, e o resto eu quero usar com a sua mãe.

– Não! – retrucou Paulo, sorrindo. – Não me deixe com essa imagem na mente, não agora!

Fernando riu. Indagou ao filho se ele sabia como colocar. Paulo assentiu com a cabeça. Deu ainda algumas poucas instruções sobre o que fazer, sobre como controlar o próprio nervosismo e completou dizendo:

– Olhe… essa noite é uma noite muito importante na vida de um homem. É a sua primeira vez. – As risadas haviam subitamente se extinguido. – A partir de hoje, você deixa de ser aquele menino que me ajudava a concertar bicicletas, e se torna um homem, responsável pelas próprias escolhas.

Paulo permaneceu em silêncio. Seu pai abriu a caixa de cigarros e acendeu um. Ofereceu um para Paulo, mas ele se recusou.

– Se você tiver sorte, vai pegar uma mulher mais experiente e que vai te ensinar muitas coisas. Coisas que eu não posso te ensinar.

– Ainda bem. – brincou.

– Guarde isso muito bem – disse, como um professor ao entregar um trabalho. – E se divirta.

Fernando tragou o cigarro mais uma vez e bateu nas costas de Paulo.

– Você não vai também? – perguntou Paulo, esperando algum companheirismo daquele que sempre fora o seu maior companheiro.

– Hoje não. Hoje é a sua vez.

Terminou o encontro com um abraço. Um abraço de adeus e de olá ao mesmo tempo. Um adeus ao velho jovem Paulo. Um olá ao novo jovem Paulo.

“Hoje não” essas palavras circularam pela mente de Paulo, enquanto ele esperava as mulheres chegarem, na biblioteca. Ele passava pela vasta coleção de livros que pareciam todos criminosamente intocados com aquelas duas palavras ressoando, batendo e voltando em sua mente. “Hoje não”. Haveria, então, um outro dia em que seu pai desceria com ele? Houve algum dia em que desceu? E quando desceu, já era casado?

Por alguns instantes, Paulo sentiu que não mais conhecia o próprio pai. Essa ideia, entretanto, não ficou muito tempo em sua mente para que lhe perturbasse a noite, pois, antes mesmo que pudesse absorver tudo aquilo, foi surpreendido pela imagem de Tio Francisco batendo palmas e o convidando para ir até a sala de entrada.

Bem em frente as escadas, estavam elas, uma ao lado da outra, como escravos nos portos comerciais. Era uma frota, realmente. Mesmo sendo eles, somente cinco homens, havia ali oito mulheres.

“Pra que tanta mulher?” Paulo pensou consigo mesmo.

– Bem…  – começou Fábio – Como essa é a sua primeira vez, acho que você tem a honra de escolher primeiro!

Paulo deu um passo a frente. Ficou sem saber o que fazer. “Será que peço a elas para me mostrar os dentes?”, pensou e riu internamente. Ele não ousaria soltar pensamento tão profano em voz alta, tanto por respeito às mulheres ali presentes, quanto por medo da reação dos tios que, agora mais do que nunca, tinham aquele tom cinza e sombrio da vida adultera.

E lá estavam as oito mulheres, mais novas do que ele imaginava. Na própria cabeça, Paulo achava que iriam se encontrar com aquelas mulheres que ele via perambulando na noite, com medo de serem rechaçadas e fumando um cigarro. Era o completo oposto. Havia algumas mulheres ali as quais ele não conseguia dizer ao certo a idade. Outras que pensava serem mais novas do que ele mesmo.

Elas não usavam trajes de banho, nem nenhuma roupa que denotasse de cara que se tratavam de prostitutas. Pelo contrário, estavam todas tão bem vestidas e tão bem maquiadas. Era mulheres que Paulo esperaria encontrar em alguma festa, em algum bar perdido no centro da cidade.

Ele as analisou uma a uma. Seus olhos e seus passos circularam a sala, analisando-as de cima a baixo. Vendo o tamanho dos peitos, a largura dos quadris, o comprimento das pernas e a cor dos cabelos. Por mais nervoso que estivesse, ele conseguia se controlar a ponto de fazer uma análise sutil, embora pouco minuciosa, das mulheres ao seu dispor. “Pra que oito mulheres?” ele pensava consigo mesmo. “Será que eu posso escolher duas?” A ideia entretanto, se esvaia. “Uma somente já é trabalho demais.” Até que finalmente foi fisgado…

Foi fisgado por essa morena com uma tatuagem no braço, com os olhos mais melados que ele já vira. A tatuagem, ao contrário do que pode inferir o leitor, não era nenhuma carpa, salmão ou qualquer peixe que coadunasse com a figura de linguagem dos períodos acima. Não passava de um emaranhado de plantas, que subiam-na pelo braço. Ele a pegou pela mão e, olhando a cor do esmalte verde, indagou:

– Qual o seu nome?

– Bruna – ela respondeu, sem hesitar.

“Totalmente apropriado”, pensou consigo mesmo, ao ver o longo cabelo negro escorrendo pelos ombros. Tão negros que nem dela pareciam. Remetiam-no a imagem de uma índia de tempos românticos. Ele a puxou na própria direção e ela deu um paço a frente. Nesse momento os tios e os primos que naquela sala estavam o aplaudiram e disseram que ele tinha um ótimo gosto.

Paulo, entretanto, continuava nervoso. Ele não demonstrava isso aos tios e aos primos, que continuavam com a salva de palmas, à Bruna, entretanto… suas mãos tremiam, e Bruna notava isso. Para evitar que ficasse mais nervoso, Paulo decidiu não esperar que os tios consumassem suas escolhas e desconsumassem seus votos matrimoniais e convidou a morena que lhe segurava a mão para subir, o que provocou uma incômoda risada cheia de maldade por parte dos tios, que, apesar dos ternos e dinheiro, pareciam não saber se comportar como homens, mas como garotos em um fliperama.

Bruna o acompanhou até a porta do quarto. Quando terminaram de subir as escadas, ela largou sua mão, mas ele não parou de andar. Ela o seguiu pelo corredor até a porta do quarto. Ele nem sequer olhava para trás, pensava que os tios poderiam estar atrás dele. Continuar lendo