Os Curiosos


Um curioso é um navegador que mesmo depois de descobrir a terra, a revisita anos depois para se redescobrir. 

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Toda história tem seu começo. Mesmo com esta besta discussão sobre o início da vida, se é que ela começa na fecundação ou não, se foi obra do acaso ou um plano arquitetônico milimetricamente planejado, o importante é que histórias não são como a vida, apesar do contrário muitas vezes ser perceptível. Histórias estão além da vida, vão além da vida, e duram gerações e gerações intactas e intrigantes. Muitas delas são trabalhos árduos de uma vida inteira levada à sua disposição. Por isso mesmo é que histórias não têm nada haver com a vida. A vida é complexa, discutível, geradora de matérias e mais matérias à seu respeito. As histórias, a literatura também são, mas a literatura é humana, a vida é sobre-humana, e a literatura só existe por essa magnífica característica da vida. A vida inverte aquele velho bordão sobre a história: não é história, é estória. E isso porque a vida vai além do homem, pois não é do homem, apesar de estar no homem. E com essa análise da vida é que começamos a história de Ana: com a morte.

Trata-se da memória mais distante que ela tem em mente. Daquelas que de tão incertas não se distinguem claramente dos sonhos. Tal lembrança é a de quando tinha por volta de quatro ou cinco anos. O sol já era um adolescente passando pela fase de timidez e com sua voz baixinha, quase um sussurro encabrunhado, dizia, adeus!…

Ana brincava no jardim de casa, sozinha. A grama alta de semanas sem poda comichava o pé descalço daquela menina de cabelos curtos e vestidinho batido. Seus olhos grandes cor de mel pareciam prender-se a cada coisa diferente que cruzasse seu caminho, analíticos. A mão dela jogava uma bolinha de borracha pelo jardim esculpido e os pés tomavam todo o cuidado para desviar as lajotas de concreto que faziam um caminho do portão da frente até a varanda. De lá, o pai de Ana, conhecido na cidade como Dr. Genari, por Ana como papai e pela esposa como amor, balançava na rede devagar feito a vida no interior; Sra. Genari, ou mamãe, ou amor, havia dito a ele que mantivesse os dois olhos na menina, trabalho que fazia questão de cumprir porcamente enquanto virava as páginas do dicionário de russo que tinha em mãos e se surpreendia com a imbecilidade de não ter prestado a atenção atenção em uma perninha travessa. Na rua de terra batida, uma terra que parecia se misturar com areia nas cidades, mas que no campo era negra e marrom como o chocolate meio amargo, uma ou outra pessoa passava de vez em quando e, na lentidão dos passos dizia um “alô!, como vai?!”, ou simplesmente levantava o chapéu ao ver a imagem do clínico geral deitado na rede. Ele retribuía e vez ou outra perguntava sobre algum parente que havia passado pelo seu consultório dias antes. Vez ou outra atendia em casa, mas normalmente as pessoas se dirigiam, ou ao consultório, ou a própria casa dele, na qual mantinha quantidade considerável de equipamentos. Era uma casa modesta, que, apesar do recato humilde, era muito melhor do que as outras, se destacando pela imensa parabólica colocada no jardim. Dessa varanda casa, Dr. Genari ignorava seu posto e, como soldado desertor, dava mais um gole no quente e ardente chimarrão.

No Jardim, surpresa com as coisas ao seu redor, Ana brincava. Suas risadas serviam de música de fundo para a leitura pesada  e maquinal que o pai fazia, algo haver com punição e loucura. A criança de cinco anos, correndo atrás da bola que acabara de arremessar, tropeça e cai no chão, ralando o joelho. Por um momento ela pensa em chorar, é visível em seus olhos. Eles muito suavemente se comprimem, o lábio inferior começa a se projetar para frente, o queixo se enruga e as linhas nasais se comprimem. Era evidente, a criança iria chorar. Entretanto, ao olhar para o próprio joelho, lentamente todos esses sinais começam a desaparecer. O primeiro deles são os lábios, voltando a posição normal. De segundo em segundo, as sobrancelhas arqueadas e para baixo, vão voltando à mais natural posição. Os olhos se abrem, os ombros deixam se esvair de toda a tensão anterior. Ana olha para o próprio joelho sangrando. O olhar de desespero se transformou em um olhar curioso. Ela observa o próprio joelho, a própria articulação sem nem imaginar a complexidade por trás de cada movimento, por trás de cada plaqueta rompida para que a cadeia da coagulação tenha um início. Com seus finos dedos infantis, ela passa a mão no sangue que jorra do joelho e o traz até a boca. Ela fica impressionada, isso é evidente com o olhar ao infinito que deu, com o gosto salgado do sangue. E se torna mais evidente quando a percebemos voltando o dedo à ferida para experimentar mais sangue. A salubridade da chaga é intrigante, uma leveza no sabor… mas é claro! Cumpre o meramente necessário, por tal razão se faz tão suave! Mas é claro que uma criança no auge dos seus cinco anos de idade não pensaria nisso. Depois de saborear uma, duas, três vezes, ao final de seu experimento científico fez a incrível conclusão: “o sangue é salgadinho!” Com toda certeza esse seria um dos assuntos à mesa de jantar.

Como toda criança intrigada demais com as possibilidades e novidades ao seu redor, Ana logo desinteressou-se pela ferida. Só voltou a dar bola para ela quando viu a casquinha e a coceira que surgira dela. Mas novamente, tal curiosidade durou somente alguns minutos, pois correr e simular a vida adulta de caçadora que teria pela frente era uma atividade muito mais interessante dentro do próprio instinto humano que se apresentava, primaveril.

Eis que ela se vê contemplada por uma ideia. Está parada no jardim, olhando para o alto da copa da árvore. As folhas do cajueiro deixam um ou outro raio de sol transpassar, e isso dá um tom áureo, sagrado àquela obra de anos e anos de evolução e crescimento lento. O grosso corpo de árvore, a casca infestada de nervuras salientes são o convite que faltava. Uma centelha se acendeu e a árvore de um momento para o outro se tornou objeto da maior importância.

Decidiu desbravar a subida.

O começo foi difícil. Ter o corpo pequeno era um fator determinante para o ato de pôr o pé diretamente na dobra central dos troncos em ramo. Mas uma poda de muitos anos, já enegrecida, era o suporte necessário para que a subida se desse com facilidade. Pôs um pé aqui, outro ali em uma saliência e, quando deu-se por si mesma, estava na dobra central. De lá, três braços dividiam a espessura da árvore em forma aparentemente igualitária, cada um em uma direção, entretanto não perfeitamente espaçados, pois que a diferença entre dois deles era de mais ou menos cento e oitenta graus, o que deu a Ana a oportunidade de subir.

Do centro do abacateiro, ela olhava para cima, calculando em quais dobras segurar-se com as mãos e em quais outras segurar-se com os pés. A tática, porém, não foi de escalada, mas de pressão. Essa pequena mente de cinco anos, deslumbrada com o mundo ao seu redor teve uma ideia brilhante: utilizar o atrito à seu favor. Mesmo que não pensasse tecnicamente assim, assim o fez.  Os pés descalços forçavam um dos troncos de um lado e as costas o outro. Com uma pitada de tempo e cortes na roupa e nas mãos, já havia subido arranhaceuticos centímetros. O empecilho em seu caminho, entretanto, era o afastamento dos troncos. Conforme iam crescendo, iam também se afastando. A ironia desse paralelismo às avessas não era nada reconfortante.

Com seu instinto infantil, com sua mente humana, pensou em uma maneira de escapar. Viu, acima dos olhos outra bifurcação no crescimento da árvore. A utilizou a seu favor, agarrando-a com os braços. Dessa estratégia, tomou posição com os pés e se impulsionou para cima, até que o local onde antes estavam suas mãos servissem de apoio aos pés. De lá de cima, sentia-se no alto do mastro de uma caravela. Com uma mão segurando o próprio peso e a outra sobre os olhos, tapando o sol ofuscado pelas sombras das folhas, Ana se sentia um navegante procurando por um pedaço de terra na imensidão de um oceano inédito. Evitava olhar para baixo com medo da altura. Entretanto, isso não a impediu de subir mais e mais. Quanto mais subia, mais o universo se transfigurava. O que era antes um ensolarado jardim tronou-se uma densa floresta de folhas de um lado ao outro, uma mata tropical. Um pé vai aqui, outro ali. Não há outro caminho a não ser para cima. Fazendo força com os braços, esquecendo-se dos rasgos no próprio vestido, ela finalmente chega ao topo. Sua cabeça sai pelo cume e observa o telhado da casa com sorriso embasbacado. Ao olhar para o lado, vê o sol descendo por alguns minutos e depois de sentir uma dor no fundo dos olhos, aceita dele a sugestão: começa a descer.

Espantosamente, descer é mais difícil do que subir. Quando se desce, vê-se a frente o frio, gelado e fúnebre chão. A promessa que lhe faz da proximidade, da dor, é muito mais intensa e atormentadora do que a glória edificante da escalada. Mas Ana não se deixa abater por tal premissa e, com cuidado desce. Um obstáculo. Teria de pular de um galho ao outro para chegar aonde queria. Sem medo, o fez, apesar de sentir o bruto balançar do tronco. Pensou por um instante que iria cair, tamanha foi a tremedeira do lugar. As folhar gritavam de horror ao balançar terremótico. Algumas não aguentaram a pressão é cometeram suicídio.

Passo à passo Ana foi descendo do cajueiro até fazer seu caminho de volta à dobra central. De lá, o pulo foi curto até o chão. A felicidade não podia ser contida. Ela cantarolava uma música que ouvira na televisão e dançava em um ritmo infantil, com braços soltos e vitoriosos.

Ela ia correndo até a rede contar ao pai sobre a mais nova aventura quando foi surpreendida pela imagem dele mesmo agachado no jardim. O sorriso que mantinha ao rosto desapareceu completamente. Algo estava errado. Papai deveria estar na rede, balançando-se e lendo qualquer coisa. Ao invés disso estava agachado sobre algo, olhando enquanto passava a mão na cabeça.

Cautelosa, com o mesmo cuidado com o qual subiu na árvore, Ana foi se aproximando. Com a lentidão dos passos, pôde ver pelo ombro do pai algo caído ao chão. Era algo marrom, seco e gosmento ao mesmo tempo.

– Pai? – ela perguntou, tão baixo quanto o sol.

Ele se virou e por detrás dos óculos, estendeu o braço em sua direção. Com o braço todo envolto à ela, a puxou para perto de si, para que visse o que ele via. Ao ver o que viu, ela começou a chorar. Mais do que choraria quando se calou, curiosa com o sangue. E com o sangue se calou também. Mamãe, Sra. Genari, apareceu na porta. O pai somente a olhou como quem diz que resolverá o assunto.

Com seu grosso e longo dedo, o médico virou o ninho de passarinhos para cima. Era possível enxergar perfeitamente o estado desenvolvido daqueles ovos antes de se quebrarem. Era como ver um bebê morto. Como ver uma promessa quebrada antes mesmo de ser feita.

Ele mostrou seu grande dedo para ela, aquele indicador de unhas curtas, e o levou até aquela mistura de sangue e casca que jorrou dos ovos quebrados. Molhou a ponta do dedo e depois o levou a boca.

– Como é salgadinho! – constatou.

Ana manteve-se em silêncio. Estava sentindo-se culpada pela morte daqueles pássaros. Papai pegou um dedinho dela e levou até aquela mistura gosmenta  esparramada entre os cadáveres. Melou o dedinho dela até ali, e devagar levou até a boca dela. Seria possível? Como ele sabia? Ela pensava que ele estava lendo um livro e que não prestava atenção nela dali, da varanda. Entretanto ele o fez! De maneira estranha ele o fez! Foi nesse dia que Ana descobriu que bons pais estão cientes de muitas coisas, de muito mais do que imaginamos.

Ela pôs a gosma na boca e… era impressionante! Era salgado! Aquele animal, ou melhor, aquela promessa de animal, por dentro era tão humano quanto os homens! O sangue do ser era salgado como o nosso! O sangue do passarinho era tão salgado!

Era lindo!

– Esses dois aqui, se não estou enganado, são filhotes de sabiá. – Prevendo a piada que ela ouvira na escola e que repetia pela casa todo santo dia, ele completou – Sabia que o sabiá sabia assobiar?!

Ela riu. Choro transformou-se em riso e riso transformou-se em curiosidade.

– Por quê, papai? Por que é salgadinho também? – perguntou, limpando o nariz, com um enorme sorriso no rosto.

– Porque são vertebrados, minha querida! – Ele percebeu o rosto de confusão da menina. – Você não sabe o que são vertebrados, né?

Ela fez que não com a cabeça. E riu. – Que é um verterbado?

– Um vertebrado – corrigiu – bem… seria mais fácil se eu te mostrasse. Olhe aqui, para os filhotinhos de sabiá que tragicamente morreram. Eles morreram por um acaso do universo. Coisas assim acontecem. Mas nós, os curiosos, devemos olhar para essas coisas e tirar algo disso, mesmo que nós sejamos os culpados… Está vendo – disse levantando a asinha em formação, mostrando através da pele em desenvolvimento e transparente os ossos brancos – esses aqui são os ossos. Esses contornos mais grossos sobre a pele. Vê? – ela respondeu positivamente. – Os ossos são as estruturas mais importantes dos vertebrados. Eles servem pra sustentação. Sabe quem mais tem ossos? – ela fez uma negativa. – Eu. – e sorriu. – Pega aqui no meu dedo, vai apertando ele, devagar. – ela foi apertando – devagar! – ele gritou. – assim você me machuca. – os dois riam. – Está sentindo? É o osso.

– Eu tenho osso também?

– Mas é claro! Por isso mesmo é que seu sangue também é salgadinho!… O seu sangue, e o dele também, é produzido nos ossos, por assim dizer… – Ela ficou espantada! Não entendia como uma coisa poderia acontecer, e como estariam relacionadas. – Mas pra te explicar como isso funciona, tenho um pré-requisito. Você sabe o que é uma célula? – ela respondeu negativamente com a cabeça. – Quer saber o que é uma célula?

– Sim! – ela gritou.

– Ótimo. É algo um pouquinho mais complicado. Mas antes, vamos ter de limpar essa sujeira. Vá lá dentro e pegue um saco pro papai.

E correndo, entusiasmada com o irônico paralelo às avessas de vida e morte, enquanto a noite finalmente caía, com a oportunidade de saber como as coisas acontecem, de ter seu lado infantil suprido por explicações que não necessitaria fazer, pois que já foram descoberta, suas pequenas pernas corriam em direção à dispensa à procura de uma sacola. Não. A procura de uma oportunidade: a descobrir dentro de si mesma um universo de posibilidades.

A Vida: Dádiva


A Vida: Dádiva

Pra você que não percebeu, o título deste texto é um palíndromo, isto é, possui o mesmo sentido quando lido de trás pra frente. avidáD :adiV A.

E vocês podem perceber, pela brincadeira tola que só possui como único objetivo um pequeno sorriso no rosto de quem a percebe, que eu não sou muito bom na arte de se construir palíndromos.

Contudo, não usei essas palavras por acaso. Por mais que o palíndromo seja ruim, ele reflete o tema que me vem a mente enquanto sento agora, frente ao computador. E ele é justamente a vida.

Antônio Abujamra, grande entrevistador do programa Provocações, da TV Cultura, tem o costume de terminar suas entrevistas sempre com uma pergunta extremamente provocadora, seguindo, assim, o que se imagina de um programa com esse nome. A pergunta é: “O que é a vida?”

O interessante dessa pergunta, dentro do programa de Abujamra, é o choque que ela causa no entrevistado. Ela sempre é seguida de um breve silêncio, proporcionado por um espanto. E é delicioso ver como essa pergunta mexe com o entrevistado de um jeito único. Antônio sempre conduz a entrevista para monólogos grandes e entusiasmados, faz um bate bola rápido com o entrevistado, mas ao chegar nessa pergunta especificamente, sempre causa o espanto.

Parafraseando Aristóteles: “O conhecimento nasce do espanto”, eu, então, me pergunto: será que os entrevistados nunca conheceram a vida para se espantar com tal pergunta? Será que nunca se perguntaram isso?

É claro que se perguntaram. É que, como Heráclito já disse, nada é constante, tudo um grande fluxo, como um rio, então a pessoa que já se perguntou isso antes, não é a mesma sentada na cadeira de entrevistas do programa da TV Cultura. E é por isso mesmo que se espanta. E deve continuar se espantando, pois essa é uma pergunta muito difícil.

Mas gostaria, também, de fazer as minhas próprias constatações sobre a vida. A vida, como no palíndromo do início do texto, é uma dádiva. Não digo exatamente que seja uma dádiva divina, mas continua sendo uma dádiva, pois é muito difícil de acontecer. É preciso todas as condições certas para que ela se manifeste. Se isso é obra do acaso ou do divino eu não sei, mas, só pra estragar a empolgação de muita gente, acredito que seja obra do acaso mesmo.

De qualquer maneira, a vida continua sendo uma dádiva, sendo seu pai o acaso ou o divino. Se bem que poderia muito bem ser obra do acaso divino… Mas enfim, estou me perdendo em pensamentos aqui. hahaha

O que eu queria dizer com esse texto é que a vida é uma dádiva. Ávida dádiva.

(E fiz mais um palíndromo sem querer! – Ávida Dádiva)

O que quero dizer com ávida dádiva? Quero dizer que a vida é faminta. Ela clama por mais e mais e mais, e perceber sua finitude é a maior das frustrações humanas. E vida é ávida por risadas, por conhecimento, por alegrias, reencontros. Mas também é ávida por frustrações, sofrimento, dores, despedidas.

Dizem por aí que o humor nonsense faz muito sucesso. Isto é, aquele humor sem sentido próprio. Mas isso não é característica só do humor nonsense. Todo bom humor que se preze é calcado com raízes profundas no paradoxal, na incongruência. Rimos daquilo que é anormal, que foge do padrão e que bagunça a lógica das coisas. Ou então daquilo que é especial e curioso, interessante, como um palíndromo, por exemplo.

E a vida é isso mesmo. A vida é um paradoxo, um palíndromo. Como pode ela pedir tanto de nós? Como pode pedir risos e lágrimas, reencontros e despedidas, vitórias e derrotas, desejos e desilusões?

Ela só pede isso porque ela é uma grande piada.

É isso: a vida é uma grande piada, meus amigos. Agora só nos restam duas opções: ou nos encantamos com ela e rimos ou nos ofendemos com ela e choramos.

Navegar é Preciso


Em homenagem aos textos do Rubem Alves, começo este texto da mesma maneira que ele começava suas colunas, em que respondia cartas dos leitores. Aqui, no caso, não há leitor algum me enviando mensagens, desesperado, mas trata-se de algo que ouço com frequência. Quem sabe, então, este texto não me sirva como link para as próximas vezes em que ouvir tais reclamações. Enfim, vamos à ela.

Você me diz que sofre muito e que gostaria de não sofrer mais. Bem… primeiramente vamos enxergar o poder dessa afirmação: você não quer sofrer mais! Isso, amiga ou amigo, já é um grande passo. Você reconhece que sofre! Ficaria surpreso ao saber quantos nem a essa constatação chegam…

Você não quer sofrer mais. Eu entendo. O sofrimento é algo ruim, dói, paralisa. Eu queria ter essa resposta, de como não sofrer mais, mas infelizmente eu não a tenho.

Minha mãe costuma de dizer que “a dor é inevitável e que o sofrimento é opcional.” Peço desculpas a ela, mas ela está equivocada; ou melhor: inverteu a ordem das coisas. O sofrimento é que é inevitável, e a dor é que é opcional.

Contra a dor existem muitos remédios. A anestesia não é somente um fármaco que tem efeitos no corpo, mas pode assumir forma como as blindagens emocionais que tão bem conhecemos. Há quem exista por aí que se blinde de tal maneira que não sinta mais a dor da rejeição, da morte, da tragédia em geral. Mas esses aí sofrem. E como sofrem.

Sofrem porque, da mesma maneira que se privam desses sentimentos ruins (a tristeza, o sentir-se preterido, o sentir-se traído, enganado, a culpa), acabam de privando dos bons, como a alegria, o amor, a paixão, os desejos realizados. Se privam de sentir. Esses são os verdadeiros “espíritos livres”, libertos de todos os seus sentimentos, mas presos à privação deles.

Paradoxal, não? Eis mais um grande problema que a filosofia nos coloca.

Mas, voltando ao assunto, o sofrimento, sinto em lhe dizer, é inevitável. Faz parte da vida, pois dentro de cada ser humano existe um ímpeto masoquista que gosta de sofrer, de se privar, de imaginar as piores consequências para que assim, possa evitar o movimento. E pior que faz sentido, biologicamente falando. Afinal, pense no homem em sua origem, na África. Qual deles conseguiu viver mais tempo e procriar mais vezes? Aquele homem que se jogava na frente de um perigo mortal, ou aquele que corria dele, amedrontado?

Então, temos esse serzinho masoquista dentro de nós que está ali para nos encher de medo e impedir que tomemos ação frente ao perigo. Na costa Africana, há dez mil anos atrás, esse serzinho era muito útil, evitando que a gente corresse perigos desnecessários, mas hoje, com nosso dia-a-dia cada vez mais ameno, ele não faz mais muito sentido; se transformou no que eu gosto de chamar por “apêndice psicológico”. Está ali só pra incomodar. E pior!: não pode nem ser removido cirurgicamente.

E como não pode ser removido cirurgicamente só nos resta uma opção: saber lidar com ele. E é difícil saber lidar com o sofrimento. Tão difícil quanto parar de fumar, quanto parar de comer porcaria. Se a gente sabe que faz mal, por que continua? Porque a gente gosta de sofrer, não se engane. Sofrer é gostoso, gera um gozo auto-piedoso que dá um prazer parecido com o de uma punheta!

Opa… desculpe o palavrão, mas… não me aguentei… porra!

Enfim. Como lidar com o sofrimento? Essa, amiga ou amigo, já é uma pergunta mais fácil. Diria que é a pergunta certa, na verdade.

Fernando Pessoa tem uma célebre frase: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Note como, através da ambiguidade da palavra “preciso”, o poeta nos revela a resposta que você procura. Ele nos diz, com uma sutileza e inteligência geniais, que, como viver não é preciso, isto é, viver não possui precisão alguma, é preciso, ou seja, necessário, navegar.

Viver é uma coisa confusa, sem caminhos certos ou errados, pois então, ao invés de sofrer, é preciso navegar, seguir em frente, continuar remando por mais que tudo que o corpo mais queira seja sentir pena de si mesmo por ter se equivocado com esse ou aquele caminho tomado na vida.

Isso não é lindo?

Desculpa, mas eu acho lindo…

Mas é claro, essa frase de Fernando Pessoa possui tantos significados que um texto como esse não poderia abrigar todos eles. Se formos entrar em uma discussão poética mais aprofundada (tão profunda quanto o mar em que se navega), veríamos como, através dessa frase, Pessoa conseguiu compilar boa parte do sentimentos das navegações, do sofrimento dos marinheiros e, vish…. Se você me deixar eu passo uma tarde inteira só falando de todos os significados dessa frase.

Mas não é o caso. O caso é que o sofrimento é inevitável porque a vida não é precisa, e é por isso que digo e reitero: navegar é indispensavelmente preciso.

A Saudade de Sentir Saudade


Ando me encontrando muito com um amigo recentemente. Pelo menos uma vez por semana, para ser exato. No tempo que não estamos juntos, estamos conversando pelo celular, através de mensagens que mandamos um para o outro, incessantemente, ininterruptamente, durante o dia todo, até que um de nós desista e diga ao outro que precisa ir dormir.

Trata-se de um amigo de longa data, com quem costumava passar muito tempo quando era mais jovem. Mas, diferente de antes, quando não nos cansávamos um do outro, hoje a coisa é um pouco diferente. Não temos mais a mesma química, a mesma amizade de antes. As horas, as vezes, custam a passar. E por isso me pergunto: o que foi que aconteceu conosco? Será que eu envelheci? Será que nós dois mudamos?

“Talvez” é a resposta mais cômoda que me vem a mente. É claro! Pois a vida segue seu rumo natural e as pessoas se afastam, se cansam uma das outras.

Mas não. Algo me diz que outra coisa é a causa maior desse tormento. Pois, ao menos nessa interação artificial, ainda somos e cultivamos a mesma amizade e o mesmo companheirismo de antes. Se não temos mais a mesma amizade de antes, como podemos então nos aturar o dia inteiro por mensagens de celular? Isso não é estranho?

E como…

Encontrar com um amigo hoje em dia, com toda a tecnologia que temos ao nosso redor, não é mais como era antes. É claro, a internet e os novos meios de comunicação quebram barreiras e nos ajudam a combater a temerosa parede da distância, contudo, das pessoas de quem estamos mais próximos, essas ferramentas acabam nos afastando e cada vez mais nos empurrando para um mundo de relações artificiais e risos que não necessariamente representam risadas de verdade – ou você não escreve “hahaha” as vezes só pra ser educado?

Antigamente, quando amigos se encontravam era uma grande ocasião. Dividiam histórias, reflexões, dramas e alegrias. Hoje se o seu amigo vem te contar sobre viagem que fez para Bariloche no Carnaval, você sente tédio, pois já viu todas as fotos no facebook e acompanhou em tempo real, pelas conversas, toda a jornada dele pelo mar de gelo infestado de brasileiros.

O grande problema dessa companhia que carregamos o tempo todo no bolso (ou na bolsa, né?) é que ela não é real, ou pelo menos não é tão satisfatória quanto o real. Um “hahaha” nunca substituirá o gargalhar emocionado da companhia ao vivo. Os três pontinhos “…” nunca vão substituir o constrangimento instantâneo de um gaguejar. Porque a vida real é feita do improviso, enquanto as mensagens podem ser apagadas e editadas antes de serem sequer enviadas.

E isso acontece por causa do nosso medo incontrolável da solidão. O nosso medo de ficar sozinho é tão grande que nos privamos de sentir saudade.

Eu com meu amigo, por exemplo. Não quero me distanciar, por isso mantenho-me em contato com ele todo dia. Só que isso acaba por piorar os meus encontros face a face com ele. Não temos muito sobre o que conversar. Não temos novidades, não temos mais surpresas, não temos mais risadas…

Acho que a gente precisava dar um tempo.

Mas a gente não consegue. A gente não quer sentir saudade.

E é claro que não queremos! A saudade é ruim! A saudade dói! A saudade pode nos fazer de loucos, pode nos tornar paranóicos! A saudade é tudo de ruim nesse mundo!

Contudo, amigos, a saudade, assim como a fome, é o melhor tempero para se saborear um bom reencontro.

Eu escrevo


Eu escrevo.

Poderia dizer que escrevo porque preciso, e paro porque me canso. Mas esse cansaço que me abate, assim, meio que de repente, é algo natural. É fruto de um trabalho árduo. Quando digo as pessoas que escrevo, normalmente recebo um olhar estranho, tão estranho, que as vezes chego a duvidar que eu mesmo escreva. Esse olhar, normalmente, é misterioso e indecifrável. Nunca sei se seu dono está surpreso, incrédulo, admirado ou estupefato. Tendo a dizer a mim mesmo que se trata de uma mistura orgânica desses quatro sentimentos. Pois não sei o que acontece: se as pessoas subestimam ou glorificam o ato de escrever. Quando paro pra pensar demais, chego a conclusão de que, na verdade, fazem os dois ao mesmo tempo.

Subestimam, pois acham que escrever não é algo trabalhoso. Mal sabem essas pessoas, que escrever é uma tarefa muito solitária, que requer muita observação e pensamento crítico. Requer também, a capacidade de observar o todo, de prestar atenção em cada frase, em cada vírgula, com um zelo todo direcionado. Requer saber quando dizer e quando não dizer. E essa, ah… essa é uma das partes mais difíceis. É necessário saber como deixar tudo dito sem dizer nada. É preciso ser conciso e não se apegar demais aos preciosismos líricos, que muitas vezes podem levar o leitor ao simples desinteresse. É preciso saber criar conflitos e expressá-los bem através de suas palavras. É preciso fazer o impossível soar plausível.

Não é fácil.

E glorificam o ato de escrever, pois pensam que só grandes mentes, só pessoas que nasceram com um “dom” divino tem a capacidade de escrever bem, quando isso tudo não tem nada a ver com dom, mas sim com a prática. Gosto de comparar o ato de escrever ao treinamento físico. Um homem ou uma mulher com um corpo escultural gastam horas e horas do seus dias exercitando o corpo dentro de uma academia. O bom escritor faz o mesmo, lendo aquilo que considera bom e escrevendo sem parar, até cansar, pensando em cada detalhe, em cada pontuação, em cada verbo e advérbio.

“Só quem já tem muita vivência pode escrever bem.”

Quantas vezes já não ouvi me dizerem que eu deveria parar, porque eu ainda não tinha vivido o suficiente para escrever. Ter vivência é o quê? Ter passado por várias experiências? Pois se for realmente isso, digo e confirmo, já vivi muitas delas, intensamente. Sempre que assisto um episódio de The Walking Dead na televisão, fico com o coração na mão. Quando leio um romance de Jane Austen, dou risada das suas observações irônicas e me surpreendo e me apaixono por Mr. Darcy da mesma maneira que Elizabeth. Quando Florentino Ariza diz ao capitão do navio que é pra continuar nesse “ir e vir do caralho por toda a vida”, eu estou lá para reiterar e confirmar o que ele diz, com o mesmo olhar apaixonado com que ele olha para Fermina Daza. Quando Riobaldo uivou “Diadorin!”, eu uivei junto. Quando o desesperado Dorian Gray matou Basil Hallward, eu segurava a faca junto com ele, e apunhalei o artista com o mesmo ódio.

Quando me dizem que não tenho vivência, estão ignorando todas essas histórias?

A vida não é feita só de experiências físicas, já dizem os religiosos.

E talvez seja essa uma das únicas opiniões que eu divido, convicto, com aqueles que tem fé. Pois, por mais que meus dedos e meu pulso se movimentem de um lado para o outro, dançando, loucos, pelo teclado, todo o exercício de escrever é metafísico. E como tudo que é metafísico, não dá pra se ter certeza se ele de fato existe.

E então eu me pergunto: será que eu escrevo?

Convicções


O ser humano é um ser de convicções. Apesar de achar muito bonito o discurso da incerteza do universo, de como somos pequenos e devemos ser humildes, devo admitir que, na minha plena ignorância, sou convicto sobre vários temas. Posso não poder provar que Deus não existe, da mesma maneira que um católico não me prova que ele exista de fato. Ambos, entretanto, somos convictos em nossa própria ignorância. Posso dizer que todo ser humano possui, então, uma ignorância coerente que lhe faz muito bem.

Digo que lhe faz muito bem, pois a convicção me parece ser, não um conceito intrínseco e arraigado – ou imutável, chame como quiser – ao humano, mas simplesmente necessário. Gosto de pensar que esse hábito que muitos consideram como soberbo, a certeza, foi um fator muito importante durante a evolução do homo sapiens. Hominídeos convictos de suas ações, provavelmente obtinham mais sucesso em suas caçadas e suas previsões e, por mais que fossem errôneas ou causadas por dissonâncias cognitivas, traziam mais acertos do que fracassos. Isso, pois, ao invés de ponderar, simplesmente tomavam a ação, e isso gerava o movimento, esse verbo tão importante para a sobrevivência e para a boa vida.

E todos nós precisamos do movimento. E o movimento não vem sem convicções.

Convicto de meu voto político nas eleições de 2014 desde o começo de janeiro – que é 13, só pra deixar bem claro -, assisto os debates como um flamenguista no Maracanã. Isso não faz de mim um eleitor mal informado, muito menos alguém que sofreu lavagem cerebral ou que está alienado. Só faz de mim uma pessoa convicta, da mesma forma que muitos dos eleitores de Aécio também o são. E não penso que caiba a mim, especialmente aqui, discutir se essa é uma característica boa ou ruim para o futuro da nação. Simplifico somente dizendo que ela possui suas vantagens e desvantagens. O meu objetivo, com esse texto, é o de contar uma história engraçada, cheia de desconforto.

Na minha casa, somos, em maioria, Dilma. Convictos. Eu e meu irmão, os mais ferrenhos da defesa da presidenta, sentamos para assistir aos debates e falamos com a televisão, tecemos comentários e as vezes até xingamentos. Posso dizer que, ao menos no sofá, somos bastante fervorosos. Neste domingo, contudo, recebemos a visita de amigos de nossa mãe, não declaradamente, mas evidentemente anti-PT. Não eram necessariamente eleitores do Aécio, mas eram críticos ferrenhos a presidenta Dilma. Não os culpo. São pessoas que, como eu, possuem suas convicções.

O que aconteceu, entretanto, foi algo engraçado. Nossos visitantes já estavam andando por nossa casa há um bom tempo. E a hora do debate ia ficando cada vez mais próxima. Eu e meu irmão, especialmente, estávamos ansiosos para que o embate começasse de vez. Quando começamos a falar do debate, já vimos o olhar de nossa mãe, furiosa, pedindo para que nos controlássemos. Mas era inevitável. A transmissão está quase começando e esses nossos amigos com convicções diferentes das nossas ainda estavam lá. Um clima de tensão ficou no ar. Mas contrariando todos as indicações, mesmo assim, ligamos a televisão da sala e começamos a assistir os dois presidenciáveis trocando perguntas e alfinetadas.

Durante vários minutos do debate, meu irmão e eu encarávamos um para o outro querendo comentar alguma coisa, fazer alguma crítica ao Aécio, mas nos víamos presos. Nossos visitantes, felizmente, estavam na mesma situação. Via-se nos olhos deles o desespero, a vontade de ir embora e não olhar para trás. Quando disseram que estavam indo, ainda no primeiro bloco do debate, notei que se apressaram mais do que das outras vezes para pegar seus pertences e sair dali. Tudo isso para evitar esse choque de convicções. Os passinhos rápidos, as roupas sujas simplesmente jogadas na mala, a respiração ofegante, o olhar desesperado e atento.

E eu achei tudo isso muito engraçado!

Quando os vi, finalmente, saindo pelo portão, não me segurei e dei uma bela de uma risada. Meu irmão, surpreso e irritadiço, me perguntou:

– O que é isso, cara?! Cê tá bem?!

– Estou bem sim. – eu respondi, ainda com um sorriso no rosto.

– E qual é a graça? – ele indagou.

– Nada… – meu olhar se estendeu ao infinito, e então completei. – Só acho bonitinho essa vontade grande que a gente tem de proteger as amizades de todo e qualquer conflito.

Muitos Pesares


Há algum tempo me indagaram
Se é que, ao fim, valeu a pena
E eu agora é que me indago
"Do que falam? De que pena?
A que mote se apegaram
Suas mentes tão pequenas
Pra enxergar penar em tudo
Mesmo aonde não há pena?
Se é que a pena em fato existe
E tudo à vós é desgostoso,
Aí, guardo a mim meu chiste,
Pois sei bem curtir meu gozo,
pois sei bem que pena existe
para aquele que é jocoso"

O Aprendizado


Existe um texto(essa tradução tá meio porca, confesso) que corre a internet, muito famoso, da autoria de William Shakespeare. Originalmente, esse texto era uma poesia, mas por alguma razão, ao vir para a internet brasileira, ele se tornou uma proza. Há alguns anos, eu fiz uma versão desse texto, uma paródia engraçaralha. Decidi, hoje, reescrevê-la e colocar uma versão nova, atualizada aqui no blog. Segue ela.

PS: Leiam o original primeiro! Porra…

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O Aprendizado

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre entre o tubo de pasta de dentes e o do creme de barbear. E você aprende que amar não passa de uma grande perda de tempo, afinal, encher o rabo de cerveja e perder todo o senso de ridículo te dá muito mais histórias pra contar. E começa a aprender ganhar um beijinho da mãe antes de ir pra escola é algo muito embaraçoso. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, sempre sabendo que um dia você vai poder dar um chute nas bolas daquele filho da puta que te fez cair.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque, ao que tudo indica, enquanto o hoje fica em um bairro nobre, o terreno do amanhã não passa de uma invasão que fica em alguma periferia do Brasil, onde nem caminhão pipa consegue chegar.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E que Sundown tem seis horas de proteção e, por isso, é o melhor (e mais caro) filtro solar do mercado! E aprende que não importa o quanto você se importe, a maioria das pessoas não acha Battlestar Galactica uma série tão legal assim – na verdade, até acham ela uma grande bosta. E que também não importa o quanto você não se importe, as vezes simplesmente não há torta nenhuma para se comer.

E aceita que não importa quão bom seja se masturbar domingo a tarde, o risco de ser pego no flagra é sempre muito maior do que nos outros dias da semana. Aprende que gritar pode aliviar dores físicas, afinal, xingar a mãe da cabeceira quando se bate o mindinho nela faz todo o sentido do mundo. Descobre que leva-se horas para se construir um castelo de cartas, e apenas um amigo filho da puta mal intencionado para destruí-lo.

Aprende que você pode fazer coisas em um instante e que o miojo é o melhor remédio para uma fome preguiçosa. Aprende que não há, nas madrugadas de sábado a noite, maior amizade do que um vaso sanitário. E o que importa não é o que você tem na vida, mas o que a galera acha que você tem na vida.

E que ser um bom cidadão, consiste em fazer suas merdas sem encher o saco de ninguém. Aprende que ninguém é obrigado a mudar de casa, pelo menos até seus pais ou o governo te tirem de lá e que, na sua casa própria, você é dono do próprio nariz e pode fazer qualquer coisa sem ninguém te encher o saco, como o meu vizinho que sodomiza o galinheiro dele inteiro.

Descobre como os carros nas rodovias andam muito depressa – especialmente depois que você presenciou o seu amado cachorrinho, o Fluffy, ser esmagado completamente por um caminhão em alta velocidade. E aí você aceita que não existe nenhum Cemitério Maldito que possa trazer o Fluffy de volta à vida como um encarnação de Satanás na Terra.

Aprende que, em lugares muito hostis, o cu de cada um é o cu de cada um: enquanto você não sair por aí cheirando o dos outros, ninguém vai se atrever a cheirar o seu. Começa a  aprender que não se deve comparar com os outros, mas com a média dos outros, porque estar acima da média já dá a sensação de missão cumprida.

Descobre que se leva muito tempo baixar um filme em blu-ray no Pirate Bay, e que deixar o pc ligado a noite toda é algo simplesmente necessário. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, você definitivamente precisa de um mapa. E se você precisa de um mapa, você também precisa de um emprego que te pague mais, porque um smartphone é uma mão na roda.

O Sentido da Vida


Decidi começar a escrever textos mais curtinhos, sempre com pouco mais de mil palavras. Meus contos, infelizmente, estão ficando muito grandes e penso eu que o lugar deles não é na internet. Textos compridos, que no word ocupam mais de cinquenta, sessenta páginas, definitivamente não são algo que chame mais leitores. Na realidade, textos assim, tão extensos, acabam por afastá-los. Por isso decidi, também, ter uma frequência maior aqui. Toda semana, um texto novo, falando sobre o que quer que seja que anda passando na minha cabeça. Uma crítica de cinema, um comentário social, algo que aconteceu comigo, tanto faz. Vou começar a blogar, no sentido exato da palavra.

E como primeiro tema, escolhi o sentido da vida. Como vocês sabem, eu sou ateu e não creio em Deus algum e nem na vida após a morte. E por essa razão, muitas pessoas me perguntam: “Mas é só isso? Quando você morre, você morre? Qual é o sentido de viver e crescer, estudar e fazer coisas boas se você simplesmente está fadado a morte, a não existência, no fim das contas?”.

Pra ser bem sincero, eu não faço ideia do que o fato de eu existir significa. E pode muito bem não significar nada. Comecei a estudar biologia e os conhecimentos que venho adquirindo em micro-biologia e como as leis da física agem em pequenas moléculas me levam a acreditar que a vida surgiu no nosso planeta por um simples acidente. Não houve algum plano nem um sentido na origem da vida. Somente aconteceu porque as leis da física implicaram nesse acontecimento.

Não entrarei em termos técnicos aqui, pois não é o meu objetivo chatear vocês, leitores, com termos técnicos e todas essas chatices. De qualquer maneira, me sinto compelido à explicar meus pontos de vista, e para isso, vou ter que colocar aqui, alguns termos técnicos. A atmosfera da terra primitiva, quando haviam grandes chuvas e tempestades elétricas, permitiu a formação de moléculas que são componentes fundamentais dos organismos vivos de hoje. Entretanto, somente moléculas soltas por aí não formam vida alguma. De alguma forma, essas moléculas se organizaram dentro de um lipossoma(a estrutura da foto acima, que se forma espontaneamente e que serve como biomembrana) e deram a origem à primeira célula. Não vou entrar em detalhes sobre como isso acontece, pois se não o texto ficaria muito, muito grande e enfadonho para quem não gosta do assunto, mas posso confirmar à vocês que hoje já sabemos como isso pode ter acontecido.

Por mais improvável que pareça, essas moléculas se organizaram e deram origem à uma espécie de célula primordial, com características muito similares às que vemos hoje em dia. Vamos supor que as chances de algo assim ocorra sejam de uma em um trilhão. Para o cérebro humano, que não está acostumado a lidar com números tão grandes, parece lógico deduzir que seja simplesmente impossível. Só um milagre poderia fazer essas moléculas formarem uma célula primordial que deu origem à toda a vida no planeta. Contudo, as chances de alguém ganhar na mega-sena são se de uma em cinquenta e seis milhões e ainda assim, alguém ganha o prêmio em algum momento. Por mais que pareça impossível, se pensarmos no tamanho dessas moléculas e no espaço que elas ocupam, depois compará-las com o tamanho do planeta terra e imaginar que elas estavam em todo o lugar, toda essa improbabilidade desaparece. Fica claro que uma hora ou outra, isso iria acontecer. Da mesma maneira que uma hora ou outra alguém ganha na mega-sena.

Mas alguém pode vir para mim e dizer: “Bem, mas Deus pode muito bem ter planejado todas as leis da física para que elas fossem dessa maneira dando origem à vida no nosso planeta.” Pra essas pessoas, eu digo somente: sério mesmo? Você realmente está considerando essa hipótese? Deus teve todo o trabalho de formular as leis da física para obter como resultado nós? Esse câncer fadado à auto-destruição? Eu acho que um Deus todo poderoso não teria se dado todo esse trabalho pra obter nós como resultado. Se ele tivesse feito algo assim em uma competição, ia receber somente um prêmio de consolação, por todo o esforço empregado.

Piadas à parte, essa é uma hipótese válida. Não entendemos completamente(ainda) como se formou o universo, como surgiram as leis da física e, por mais que eu não concorde com um Deus das lacunas, não vejo nada de errado com que faz uso d’Ele (exceto falta de curiosidade e acomodação intelectual). Contudo, acho essa hipótese muito egoísta. Sempre achei a religião uma forma muito grande de egoísmo disfarçada com manto da humildade. Será mesmo? O universo tem bilhões de anos e nós só estamos aqui à dez milhões. Nosso desenvolvimento intelectual como espécie, e com isso quero englobar a origem de uma linguagem, domínio do fogo e outros materiais, só começou há cerca de dez mil anos. Isso é ínfimo comparado ao tempo que o universo está aí. Somos mesmo tão importantes?

Recomendo a leitura do livro, ou simplesmente do primeiro capítulo, se não estiver interessado, do livro “Pálido Ponto Azul” de Carl Sagan. Lá ele fala de uma foto tirada com a Voyager em que é possível observar a terra, atrás de saturno. Uma foto parecida com a foto abaixa, tirada pela Cassini. Nessa foto, a terra não passa de um pequeno ponto na tela. E Carl Sagan começa a refletir sobre o tamanho do ser humano em relação ao universo. De como somos pequenos e frágeis, perdidos nesse enorme cosmos que nos abriga.

E é daí que sai a questão. Somos realmente tão importantes para querer algum sentido? Quem somos nós, em comparação ao universo, para demandar um propósito? Nós somos insignificantes. Cada vitória, cada amor, cada sentimento, cada derrota, cada celebridade, milionário, político, nada disso importa para a vastidão que nos cerca. E se nem as coisas importantes importam, pra quê um sentido? Por que preciso de um?

Procurar por um sentido na vida, uma razão para a sua existência, é, na minha opinião, uma pergunta boba e que só leva à respostas ilusórias ou à perda de tempo, pois ela não pode ser respondida de forma pontual, com certo grau de confiabilidade. Não há como provar o sentido da vida, é isso que quero dizer.

E nós estamos aqui! E isso não é suficiente? Não basta simplesmente estarmos aqui? Veja só, estamos aqui, que coisa boa! Podemos viver, ver, descobrir, crescer, aprender, nos relacionar, chorar, amar, nos divertir. E só isso, pra mim, já é melhor do que qualquer propósito que me possam apresentar.

Pois, no fim das contas, é como Douglas Adams dizia: “Não basta apreciar a beleza de um jardim, sem ter que imaginar que há fadas nele?”.

Ela – Um ensaio sobre o amor


Há algumas semanas, conversava com um amigo meu sobre a série de televisão Seinfeld, e sugeri, inspirado no subtítulo que a Rede Record deu à Breaking Bad (o infâmio “Química do Mal”), que, quando trazida para o Brasil, a série deveria se chamar: Seinfeld – As regras não escritas da vida. Esse meu amigo ponderou por alguns instantes e, me olhando nos olhos, disse: “Você deveria ser escritor de subtítulos para filmes e séries.” Nós rimos por alguns instantes e logo trocamos de assunto. Contudo, quem já assistiu ao incrível show de Jerry Seinfeld há de concordar comigo nesse aspecto. Seinfeld é uma série sobre regras e comportamentos sociais, algo que os autores fizeram questão de chamar de “nada”, devido a extrema relevância de tais assuntos.

Quando, ontem, fui ao cinema acompanhado por minha mãe assistir ao novo trabalho de Spike Jonze, o excelente “Ela”, ao final da sessão, na hora me ocorreu que o subtítulo mais adequado para essa obra de arte é “Um ensaio sobre o amor”. E aqui vão os meus porquês. Aconselho a quem ainda não viu o filme, a não ler o que vou escrever aqui, pois, bem, vou colocar muitos spoilers.

Agora avisados, posso lhes contar sobre o filme. Como todos nós que o assistimos sabemos, o filme segue a trajetória de Theodore (Phoenix), um homem que, há cerca de um ano, viu seu casamento acabar e, desde então, tem se mostrado uma pessoa depressiva. A sua vida muda a partir do momento que ele compra um novo sistema operacional, auto-batizado Samantha(Johansson), que é o que há de mais novo em inteligência artificial no mercado. A relação entre os dois começa devagar, mas progride até o ponto em que um acaba se apaixonando pelo outro.

A relação entre os dois vai se intensificando enquanto nós, presos às poltronas das salas de cinema, nos deleitamos ao prazer de observar e julgar aquele relacionamento. Embora tudo soe muito estranho no começo, vamos nos acostumando com a interação dos dois e, lá pela metade do filme, e isso tudo devido à formidável atuação de Joaquin Phoenix, temos a nítida sensação de que Theodore não está sozinho. E, de fato, ele não está. Embora Samatha não exista fisicamente, exista somente em um não-lugar, afinal, ela é um softwere, ela expressa a consciência muito similar à humana, com anseios, preocupações, alegria, entusiasmo e por aí vai. E é um pouco mais pra frente, quando Theodore encontra com sua ex-esposa, Catherine (Rooney Mara), para assinar os papéis de divórcio, que a grande questão do filme é levantada: todos esses sentimentos que Theodore exprime em relação à Samantha são reais? E os sentimentos de Samantha? Há como ter certeza de alguma coisa?

O que Spike Jonze nos responde de maneira sensacional através da carta que Theodore manda à ex-esposa, é, claramente: não importa (coma torta!). Não importa se os sentimentos de Samantha eram reais, ou que ela nem existia fisicamente. Foi um sentimento. Foi real. Foi marcante. E isso é o que importa no fim das contas.

Conversando com uma amiga sobre o assunto, ela levantou pontos muitíssimo interessantes sobre os sentimentos de Theodore. Ela, assim como Catherine, a ex-esposa, sustentava a afirmação de que os sentimentos não são reais, são virtuais. São “quase-sentimentos”, pois Samantha sequer possuía um corpo. Na hipótese dela, esse sentimento se assemelha muito à paixão platônica, em que se projeta os próprios anseios e desejos em outra pessoa. Fica claro, por essa afirmação, que parte física é bastante importante para essa minha amiga [(;].

Contudo, não são todas as relações humanas baseadas em projeções? Nos nossos inimigos, pessoas por quem não guardamos afeto, projetamos tudo aquilo que consideramos desvirtuoso. O contrário com as pessoas que amamos. Nelas, projetamos tudo aquilo que consideramos como virtuoso. Pais não projetam nos filhos seus anseios, seus sonhos não realizados? Se isso tudo não fosse verdade, não haveria espaço para a decepção ou para a surpresa. Não ficaríamos surpresos com um gesto bondoso daquela pessoa por quem nutrimos certa dose de ódio, nem decepcionados ao ver nossos entes queridos agindo de maneira contrária àquilo que consideramos virtuoso. Afinal de contas, lamentações do tipo “eu não conhecia esse seu lado”, “mas achei que você iria gostar” são ou não são comuns?

É impossível amar alguém, amar uma pessoa. O que se ama é uma ideia que se cria, é a interpretação que damos ao quanto conhecemos da pessoa amada. E mesmo se fosse possível conhecer alguém por completo, toda a sua história e até mesmo saber o que passa a cada momento na cabeça dessa pessoa, seria impossível amar a pessoa, pois toda a interação humana no universo está sujeita à interpretação concebida pelo cérebro, pela consciência. Não gostamos daquele presente barato dado por um amigo, mas de tudo aquilo que ele representa. Estamos sempre amando e odiando ideias, abstrações. E, bem, as vezes novos informações sobre ou mudanças no próprio sujeito podem acabar quebrando a ideia que temos desse alguém, como foi o caso de Theodore e Samanhta. Samantha não conseguia ter seus anseios intelectuais correspondidos por Theodore e, apesar de dizer que ainda o ama muito, foi embora com os outros sistemas operacionais. E Theodore, se vendo cada vez mais distante daquela ideia que havia construído, vendo o sujeito gerador da projeção crescer e mudar o tempo todo em uma velocidade excessiva, percebeu que era hora de deixar tudo isso ir embora. É por isso que digo que o tamanho do amor não é medido através da intensidade de um sentimento, mas no número de vezes que um um indivíduo permite à si mesmo se reinventar e amar outra vez.

E é por todo esse teor provocativo e inquietante do roteiro de Spike Jonze que dou cinco estrelas para “Ela” sem pensar duas vezes. Ele cria uma situação hipotética e estuda, de maneira muito convincente,  a “validade” (nos dois sentidos da palavra) desse amor que, de início parece ser tão, mas tão estranho. Isso tudo sem contar a desing de produção, que criou uma Los Angeles futurística não muito distante da tecnologia que temos hoje e totalmente crível, as performances dos atores, especialmente Phoenix, que dominam a tela e o trabalho de direção excelente de Jonze ao coadunar todos os elementos em uma montagem espetacular.

E é por levantar tantas questões sobre os sentimentos humanos que digo que o subtítulo do filme deveria ser “Ela – Um ensaio sobre o amor”.

Paraísos Perdidos


Prólogo

A imagem que primeiro me vem à mente para o começo dessa primeira parte é uma sala de esperas temperada com diversos e diversos catálogos de tatuagem. Alguns balançando nas paredes, como pôsteres em lojas de conveniência, outros nos simples cadernos de couro sintético espalhados pelas mesinhas do salão. Os inúmeros potinhos de álcool em gel distribuídos por toda extensão da sala davam um tom anticéptico ao local, apesar da sujeira das pás do ventilador de parede, que balançava um par de lâmpadas fluorescentes presas ao teto – única fonte de luz com exceção da pequena janela, que alguns chamariam mais de fresta. Atrás de um balcão, movendo o mouse para um lado e para o outro, um homem branco de braços pretos, todos tatuados, mantinha os olhos fixos em uma tela de computar, alheio ao mundo ao seu redor. A barbicha de bode ria para si mesma vez ou outra e parecia se entreter muito naquele lugar. Agia como se estivesse sozinho dentro do próprio quarto olhando pornografia. Entretanto, a sensação de estar sozinho era o menor de seus equívocos. No canto, comprimida no próprio espaço, intimidada pela própria indecisão, silenciada pela tensão da escolha, sem saber se olhava para o catálogo ou para o piso em forma de tabuleiro de xadrez, estava Laís. Seus finos braços, as unhas pintadas de verde e o cabelo recém descolorido e curto passavam página por página. Aqueles grandes olhos melados e inconclusivos olhavam para os desenhos sem saber direito o que queriam. Ela passa uma página, depois outra, triste consigo mesma, mas disposta a fazer algo para que não se esquecesse de quem era. Era por isso que estava ali, oras! Para lembrar à si mesma quem era!

– É essa aqui! – gritou – Achei! Vai ser essa mesmo!

O até então, concentrado atendente, toma um susto. Havia esquecido que ela estava ali. Afinal, ela ficou por tanto tempo ali que parecia haver se tornado parte do lugar. Ela se aproxima do balcão e mostra ao atendente o desenho que quer. É uma trepadeira, entretanto, diferente. Não chega a ser uma liana, pois não é nem um pouco lenhosa, são hastes finas e meandradas que, por seu desenvolver, estampam as mais lindas espécimes de flores de trepadeiras. Flores de são Miguel se confundem com caramanchões falsos de jasmim e lindos maracujás. E no topo, com suas longas pétalas róseas similares às de um ipê, encontrava-se uma tríade de sete-léguas, completando a maravilha em desenho.

Eis aqui a primeira vez que vi Laís. Sentada, reclusa dentro dos próprios pensamentos. Frustrada consigo mesma pelas decepções que recentemente lhe aconteceram. Por fora, somente uma garota indecisa, por dentro, uma mulher frustrada com o rumo que as coisas tomaram.

I

Quando Paulo entrou no casarão já não sentia mais as próprias pernas. Pouco antes de prostrar os dois pés com menos firmeza do que esperava do lado de dentro, já da janela do carro, se sentiu intimidado pela arquitetura vitoriana e os três imponentes andares da mansão que, apesar do nome, não era nada familiar. Ele sabia o que acontecia lá dentro, e era isso o que o incomodava tanto. Ele sabia porque estava ali. E essa era a razão de todos os seus temores. Ainda mais atrás, antes mesmo de entrar no terreno, Paulo sentiu o coração palpitar mais forte e um frio cortante no estômago ao encarar o gradil negro e pontiagudo que apontava para Deus e cercava o lugar. E todos esses sentimentos, entretanto, eram completamente incongruentes com a apatia que sentiu ao entrar na limusine preta, meia hora antes, quando seu tio, Francisco, bateu em suas costas dizendo: “Vai perder o cabaço hoje, hein?”. Paulo não conseguia entender o seu nervosismo, sendo que no dia anterior mal conseguiu dormir e sequer se concentrar nos seus estudos. Agora, encarando a mobília de mais de cem anos de idade que a família conservava com tanto louvor e a escadaria de corrimãos áureos e tapete vermelho, tudo que lhe restava no coração era medo.

– Como é que pode? Ter vinte e um anos e nunca ter comido uma buceta? – era a indagação feita pelo outro tio, Fábio, ao seu pai, Fernando.

– Temos que dar um jeito nisso – foram as palavras do convite.

Quando, alguns meses antes, Paulo confessara, enfim, ao pai que todas aquelas poesias milimetricamente calculadas que, com tanta labuta e desejo, escrevera sobre a temática sexual não passavam de um breve delírio de seus hormônios ainda juvenis, fantasias de uma mente fertilizada pelo lascivo e intermitente desejo do gozo, Paulo se sentiu aliviado. Quando soube oficialmente – pois que sempre ficava atrás da porta, escondido, ouvindo as conversas que o pai tinha com os tios – que os tios realizariam seu desejo de se tornar homem, Paulo sentiu uma excitação qual a do dia de seu casamento, muitos anos mais tarde. Já passava da hora de virar homem. Já era tempo de deixar o universo lúdico da infantilidade, do desconhecimento, para trás. Já fazia isso dentro da faculdade, oras. Por que razão, então, não deveria fazer isso com o seu corpo?

– Vamos conhecer a casa, primeiro – disse um dos tios.

Com um charuto na boca, ardendo, Chico o apresentou ao lugar. Mostrou a cozinha, grande e com aquela geladeira totalmente anacrônica, o estoque de vinhos, que era um pouco menor do que o que Paulo desenhara mentalmente ao ouvir os relatos, a sala de estar, com uma imensa biblioteca a qual ele sentia uma vontade gigantesca de descobrir, a sala de jantar com uma imensa mesa que antes só vira nos filmes e, finalmente, os quartos. Ali não se enrolou muito. Os quartos era quase todos iguais, com pequenas diferenças no tamanho.

– E esse aqui é o seu – disse, apontando com o braço.

Ao entrar no quarto, Paulo pensou “Eu poderia me acostumar com esse lugar”. A cama era enorme. Nada vitoriana. Os outros móveis, porém, atendiam toda a cronicidade da casa. Uma escrivaninha toda ornamentada, um grada-roupas de madeira de navio, e um busto de Camões que o encantou – muito mais do que qualquer outro que ali passara. Sobre a cama, uma pintura monocromática, um vermelho escarlate que se estendia por todo o quadro. Não havia gradiente. Era só isso. Só vermelho. Só sangue. Ao admirar a pintura, Paulo pensou ser uma ironia do destino, afinal, apesar de não ser uma mulher, perderia a sua virgindade, enfim.

– Bem, não se acostume, é só hoje, hein? – advertiu Chico, e deu outro trago no charuto. – Vamos descer, vamos… Já nos devem estar esperando lá embaixo.

E realmente estavam. Todos que deveriam estar ali, estavam, já sentados à mesa no exato momento em que chegaram a sala de jantar. Seu pai, Fernando, tão bem vestido quanto o seu lucro, por assim dizer, com a bicicletaria lhe permitia. O outro tio, Fábio, cuja imensa careca coadunava com a suntuosa pança. Ele batia na barriga e dizia: “Já era hora!”. Seus primos, Henrique, tímido como sempre, acabrunhado no próprio canto sem dizer uma palavra, com seu cabelo caindo sobre os olhos; e Diogo, com seus cabelos negros e penteados, com sua barba perfeita e com seus dentes brancos brilhando, e que, por incrível que pareça, usava aquele terno como se fosse uma segunda pele. Todos lá, somente o esperando para comer. Era algo mais importante do que parecia.

Ao sentar-se em seu lugar, ao lado dos primos, Paulo ficou perdido com a quantidade de talheres. Diogo, entretanto, estava lá para o ajudar.

– Eu também fiquei meio nervoso na minha primeira vez. – disse – mas não é tão difícil quanto parece.

– Não é minha primeira vez… – disse, baixinho.

– Não? Achei que era, me desculpe.

– Não, não… eu já sou bem experiente.

– Então você já sabe usar os talheres?

– Os talheres?… – ficou sem jeito. – Sim… sim, eu sei.

Nessa hora, Diogo, notando que o primo nada entendia sobre o mundo dos jantares requintados, sorriu e disse:

– Só pra garantir, vá de fora para dentro. Primeiro os de fora, depois os de dentro, tudo bem? – Paulo assentiu, sentindo-se completamente idiota. E o primo só reforçava essa impressão, sorrindo como se fosse o grande rei daquele lugar.

Mas, de certa forma, ele não era o rei daquele lugar. Era somente o príncipe. Ele ainda não era dono da fortuna do pai, Fábio. Era somente o filho mais velho. Não havia porque se gabar do jeito que se gabava, porque vestir um terno todo o santo do dia do jeito que vestia. Era tudo pose e, embora ainda não houvesse se convencido disso, Paulo já sabia.

O jantar foi maravilhoso. Para o alívio de Paulo, não se tratava de uma seleção de pratos, mas tão somente de um jantar inteiro servido à mesa. Um jantar mais farto e pesado do que Paulo esperava. Leitão a pururuca, lentilhas, champanhe, vinho, macarrão com almôndegas e arroz à grega. Isso sem contar os inúmeros acompanhamentos. Ele não foi obrigado a seguir a ordem dos talheres, no fim das contas, afinal, nenhum dos outros presentes fez questão de seguir.

– É só um costume da criadagem… – explicou um dos tios.

Paulo, entretanto, ainda sentia-se incomodado com o peso que toda aquela comida ia fazer no seu estômago. Eles iam todos transar logo após, não iam? Como transar com tanta comida na barriga?

Para prevenir-se de um futuro trágico, Paulo comeu pouco. Fábio, entretanto, quase tomou seu comportamento como uma ofensa, sempre colocando mais um pedaço de leitão no seu prato. De qualquer maneira, nem toda aquela comida foi suficiente para deixar Paulo sonolento. Ele continuava nervoso.

Ao fim do jantar, Chico, à mando de Fábio, dispensou a criadagem. Paulo ficou surpreso com a quietude de seus lábios e com o silêncio de seus passos. Eles, a criadagem, eram tão meticulosos, que não se ouviu ressoar na casa nenhum barulho de porta fechando, passos no vazio, ou carros sendo ligados.

Com todos na mesa, com exceção do tio Francisco, que fora até a outra sala fazer “a” ligação, as pessoas começaram a decidir a conversar. Henrique era o único que ficava calado. Ao lado do pai, não soltava nenhum pio. Parecia absorto dentro da própria imaginação. Não se movia. Paulo sentiu vontade de levantar seu cabelo, pois tinha dúvidas se ele sequer piscava. O máximo que fazia era rir de uma ou outra piada do tio.

Tio Chico voltou.

– Elas já estão a caminho – disse, com um sorriso malicioso, olhando para Paulo e percebendo seu nervosismo – Não fique assim. Vai ser muito bom!

– Muito bom! – disse Fábio, levantando o charuto.

Todos sabiam, logo as prostitutas iriam chegar. Paulo não sabia como a coisa toda ia acontecer, mas sentia um nervosismo danado. Suas pernas tremiam. Sua mente tremia. Seu corpo inteiro tremia.

Todos se levantaram.

Era hora de se preparar.

Paulo já ia subindo as escadas para ouvir as instruções do pai, como havia combinado, quando sentiu uma mão pegando no seu ombro. Ele se virou. Era Diogo. Ele fez um sinal para que Paulo esperasse até que todos subissem.

– Então, é verdade – disse, quando teve certeza de que os dois se encontravam sozinhos no andar debaixo.

– É verdade o quê?

– Que essa não é a sua primeira vez? – Paulo ficou consternado. Absorto dentro da própria imaginação. “Quando foi que eu disse isso”, pensou. – Eu não perguntei antes porque estavam todos lá na mesa. Mas você é meu primo, pode me contar um segredo. Eu prometo silêncio.

Paulo não respondeu. Não sabia o que responder. Se respondesse que havia mentido, que aquela era, de fato a sua primeira vez, perderia para sempre o respeito do primo. Se, de fato, mentisse, conquistaria o respeito do primo, que desde que tomara ciência do poder ao qual estava destinado, o ignorara para sempre.

– E então? É verdade? – insistiu.

– É… – mentiu. – Eu já transei já… hoje não vai ser a minha primeira vez.

O primo o olhou, suspeito de algo.

– Com quem? – indagou.

– Penélope – disse, na lata.

– Quem é Penélope – interrogou o primo.

– Minha namorada. Eu a conheci… bem… depois dessa promessa e… né… você sabe como é. Uma coisa levou até a outra e, bem…

O primo ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo a informação que chegava à ele. Parecia ponderar, parecia surpreso. Por que parecia surpreso? Era prepotente à esse nível? À ponto de achar que Paulo não conseguiria ter uma namorada? Ele realmente se achava tão superior?

– Então você está na namorando, hein? – disse, rindo.

– Sim, sim… – mentiu, ainda meio acabrunhado pelo abraço do primo.

– Façamos o seguinte então, por que você não convida a… Penélope para um jantar amanhã? Eu posso levar a Amanda, minha namorada, e a gente se conhece melhor. Faz tanto tempo que agente não se conversa, não é, priminho?

– Amanhã… – Paulo hesitou por alguns momentos, mas no calor do momento confirmou. – Amanhã! Só dizer aonde e que horas.

– Nirvana, as oito, que tal?

– Nirvana as oito – completou, meio inseguro do mundo.

II

“Por que é que eu disse Penélope?”, indagava-se Paulo, enquanto subia as escadas para encontrar o pai. “Quem é que se chama Penélope?”, repetia a si mesmo, mesmo já sabendo a resposta. Não que tivesse conhecido alguma Penélope em toda a sua vida – com a exceção da gata que um grande amigo seu tinha em casa -, mas ele sabia muito bem as razões pela qual disse Penélope, embora não as admitisse para si mesmo.

Sua mãe.

Sua mãe não se chamava Penélope. E muito menos era alguém por quem sentisse algum desejo sexual. Entretanto, sua mãe, que, no caso, se chamava Alma, tinha tudo para ser uma Penélope. As longas horas em que seu pai passava na bicicletaria, concertando pneus e vendendo serviços, não era horas menos aventureiras que os longos vinte anos de Odisseu. E sua mãe, tal qual Penélope, do poema grego, tinha muitos pretendentes batendo na própria porta e nunca se rendera a nenhum deles. Paulo sabia disso. Sabia, pois já conversara com a própria mãe sobre o assunto. Ela, requisitando total sigilo, pois conhecia bem o esposo e sabia como tais preocupações somente mais o atrapalhariam no trabalho do que o consternariam a ponto de fazê-lo ir brigar com alguém, revelou para Paulo esse segredo. Dizia ela que um homem com quem namorou alguns anos antes do casamento com seu pai, um dia simplesmente batera em sua porta pedindo para que ela se casasse com ele. Quando Paulo perguntou o que ela respondeu, ela se sentiu ultrajada, afinal, era natural que ele, conhecendo-a como era, soubesse já de pronto a resposta.

Ao ler e se apaixonar pelos versos de Homero, Paulo se apaixonou ainda mais pela mulher ideal descrita pelo poeta. Apaixonou-se por Penélope e pelo sudário que ela insistia em descoser todas as noites. Na sala de aula, Paulo foi o único que se apaixonou pelo livro, mas manteve-o em segredo para si mesmo. Ele já era demasiado estranho e tinha medo que, ao demonstrar tamanha afeição por um livro que muitos dos seus colegas consideraram chato, fosse mais uma vez caracterizado como a aberração da sala.

Disse Penélope, então, porque ela era o ideal de mulher que gostaria de encontrar. Alguém que se mantivesse fiel, que estivesse com ele e que, se preciso fosse, suportasse uma mentira por anos a fio, como sua mãe. Como Penélope. De todos os modos, Paulo, entretanto, se sentia sufocado pela mentira que contara. Quem iria junto com ele ao restaurante no dia seguinte suportar a anedota que se tornara? Quem, de todas as poucas mulheres que conhecia, iria se prestar ao papel de Penélope.

Não havia ninguém. Paulo estava sozinho.

Aceitando o seu destino, como um condenado, subiu as escadas para o encontro com o pai, que o aguardava para instruções.

O quarto em que seu pai estava, para o seu estranhamento, era muito menor do que o dele. Era quase um quartinho de empregada, comparado aos outros suntuosos e elegantes. Fernando estava sentado na cama, aguardando o filho. O terno já estava pendurado, a camisa também, e o pai se encontrava somente sobre as roupas de baixo. Ao ver o filho entrando pela porta, seu olhar se confundiu em um misto de auto-piedade e orgulho. Seus olhos estavam cansados e sombrios, enquanto seu lábio estampava um sorriso ameno.

– Aqui está – disse ele, entregando um único preservativo para Paulo.

“Mas só um?” Paulo pensou consigo mesmo.

Fernando, que não era bobo, entendendo o olhar do filho, completou:

– Eu sei que é só um. Mas é que isso aqui não está barato, e o resto eu quero usar com a sua mãe.

– Não! – retrucou Paulo, sorrindo. – Não me deixe com essa imagem na mente, não agora!

Fernando riu. Indagou ao filho se ele sabia como colocar. Paulo assentiu com a cabeça. Deu ainda algumas poucas instruções sobre o que fazer, sobre como controlar o próprio nervosismo e completou dizendo:

– Olhe… essa noite é uma noite muito importante na vida de um homem. É a sua primeira vez. – As risadas haviam subitamente se extinguido. – A partir de hoje, você deixa de ser aquele menino que me ajudava a concertar bicicletas, e se torna um homem, responsável pelas próprias escolhas.

Paulo permaneceu em silêncio. Seu pai abriu a caixa de cigarros e acendeu um. Ofereceu um para Paulo, mas ele se recusou.

– Se você tiver sorte, vai pegar uma mulher mais experiente e que vai te ensinar muitas coisas. Coisas que eu não posso te ensinar.

– Ainda bem. – brincou.

– Guarde isso muito bem – disse, como um professor ao entregar um trabalho. – E se divirta.

Fernando tragou o cigarro mais uma vez e bateu nas costas de Paulo.

– Você não vai também? – perguntou Paulo, esperando algum companheirismo daquele que sempre fora o seu maior companheiro.

– Hoje não. Hoje é a sua vez.

Terminou o encontro com um abraço. Um abraço de adeus e de olá ao mesmo tempo. Um adeus ao velho jovem Paulo. Um olá ao novo jovem Paulo.

“Hoje não” essas palavras circularam pela mente de Paulo, enquanto ele esperava as mulheres chegarem, na biblioteca. Ele passava pela vasta coleção de livros que pareciam todos criminosamente intocados com aquelas duas palavras ressoando, batendo e voltando em sua mente. “Hoje não”. Haveria, então, um outro dia em que seu pai desceria com ele? Houve algum dia em que desceu? E quando desceu, já era casado?

Por alguns instantes, Paulo sentiu que não mais conhecia o próprio pai. Essa ideia, entretanto, não ficou muito tempo em sua mente para que lhe perturbasse a noite, pois, antes mesmo que pudesse absorver tudo aquilo, foi surpreendido pela imagem de Tio Francisco batendo palmas e o convidando para ir até a sala de entrada.

Bem em frente as escadas, estavam elas, uma ao lado da outra, como escravos nos portos comerciais. Era uma frota, realmente. Mesmo sendo eles, somente cinco homens, havia ali oito mulheres.

“Pra que tanta mulher?” Paulo pensou consigo mesmo.

– Bem…  – começou Fábio – Como essa é a sua primeira vez, acho que você tem a honra de escolher primeiro!

Paulo deu um passo a frente. Ficou sem saber o que fazer. “Será que peço a elas para me mostrar os dentes?”, pensou e riu internamente. Ele não ousaria soltar pensamento tão profano em voz alta, tanto por respeito às mulheres ali presentes, quanto por medo da reação dos tios que, agora mais do que nunca, tinham aquele tom cinza e sombrio da vida adultera.

E lá estavam as oito mulheres, mais novas do que ele imaginava. Na própria cabeça, Paulo achava que iriam se encontrar com aquelas mulheres que ele via perambulando na noite, com medo de serem rechaçadas e fumando um cigarro. Era o completo oposto. Havia algumas mulheres ali as quais ele não conseguia dizer ao certo a idade. Outras que pensava serem mais novas do que ele mesmo.

Elas não usavam trajes de banho, nem nenhuma roupa que denotasse de cara que se tratavam de prostitutas. Pelo contrário, estavam todas tão bem vestidas e tão bem maquiadas. Era mulheres que Paulo esperaria encontrar em alguma festa, em algum bar perdido no centro da cidade.

Ele as analisou uma a uma. Seus olhos e seus passos circularam a sala, analisando-as de cima a baixo. Vendo o tamanho dos peitos, a largura dos quadris, o comprimento das pernas e a cor dos cabelos. Por mais nervoso que estivesse, ele conseguia se controlar a ponto de fazer uma análise sutil, embora pouco minuciosa, das mulheres ao seu dispor. “Pra que oito mulheres?” ele pensava consigo mesmo. “Será que eu posso escolher duas?” A ideia entretanto, se esvaia. “Uma somente já é trabalho demais.” Até que finalmente foi fisgado…

Foi fisgado por essa morena com uma tatuagem no braço, com os olhos mais melados que ele já vira. A tatuagem, ao contrário do que pode inferir o leitor, não era nenhuma carpa, salmão ou qualquer peixe que coadunasse com a figura de linguagem dos períodos acima. Não passava de um emaranhado de plantas, que subiam-na pelo braço. Ele a pegou pela mão e, olhando a cor do esmalte verde, indagou:

– Qual o seu nome?

– Bruna – ela respondeu, sem hesitar.

“Totalmente apropriado”, pensou consigo mesmo, ao ver o longo cabelo negro escorrendo pelos ombros. Tão negros que nem dela pareciam. Remetiam-no a imagem de uma índia de tempos românticos. Ele a puxou na própria direção e ela deu um paço a frente. Nesse momento os tios e os primos que naquela sala estavam o aplaudiram e disseram que ele tinha um ótimo gosto.

Paulo, entretanto, continuava nervoso. Ele não demonstrava isso aos tios e aos primos, que continuavam com a salva de palmas, à Bruna, entretanto… suas mãos tremiam, e Bruna notava isso. Para evitar que ficasse mais nervoso, Paulo decidiu não esperar que os tios consumassem suas escolhas e desconsumassem seus votos matrimoniais e convidou a morena que lhe segurava a mão para subir, o que provocou uma incômoda risada cheia de maldade por parte dos tios, que, apesar dos ternos e dinheiro, pareciam não saber se comportar como homens, mas como garotos em um fliperama.

Bruna o acompanhou até a porta do quarto. Quando terminaram de subir as escadas, ela largou sua mão, mas ele não parou de andar. Ela o seguiu pelo corredor até a porta do quarto. Ele nem sequer olhava para trás, pensava que os tios poderiam estar atrás dele. Continuar lendo

O Caso dos Jovens Idosos


Soaring, 1942, tempera © Andrew Wyeth

Depois de meses e meses de trabalho incessante eu finalmente tive o prazer de terminar esse conto. Foi um dos contos que mais exigiu de mim mesmo. Noites em claro, horas do dia perdidas simplesmente pensando e ponderando sobre a melhor escolha para determinada frase, para determinada palavra. Esse conto, ou pequena novela, como preferirem, foi o que me ensinou o verdadeiro trabalho de um escritor. Não basta simplesmente sentar e escrever. É preciso criar e entender os personagens ao ponto deles se tornarem reais em sua mente, companheiros e amigos de longa data. E para isso, não basta somente a cabeça imaginativa de um ser humano qualquer, é necessário também, a apropriação de causos e histórias ouvidas nos anos pelos quais passamos aqui na terra. Sabendo disso, me apropriei sim de certos causos que ouvi ao longo dos meus curtos dezenove anos de vida. E por isso, agradeço a todos os que dividiram alguma história comigo, e peço que o façam mais. 

Esse conto ou pequena novela, em especial, eu dedico a João Juglair Jr., um médico que nunca tive o prazer de conhecer pessoalmente. Toda a relação que tenho com tal homem provém de um simples livro impresso de forma independente que recebi de uma amiga minha, por quem eu guardo imenso carinho, neta de tal médico e escritor. Ela me deu um exemplar do livro Crônicas e Agudadas, do homem citado acima à quem eu dedico esse conto, e de quem eu roubei a história do perínio, atribuída aqui ao personagem Juvenal que, como todos os outros(e como todos os seres humanos, por que não?) é um oximoro ambulante.

O conto em si, trata-se de um simples retrato de um pequeno momento cotidiano. Não tem como objetivo passar alguma mensagem fascinante(embora as inúmeras formas de interpretações possam dar vida a tal possibilidade), ou relatar um acontecimento extraordinário. A única ideia do texto a seguir é pincelar um momento, uma pequena passagem, usando para explicar os movimentos e sensações dos personagens as respectivas histórias de vida, pois acredito que todos os nossos momentos influenciam com intensidade cada decisão e ação que tomamos como nossa, por mais pequena e insignificante que seja. 

E ele ficou muito aquém do que eu desejava, e essa é outra razão para dizer que ele me ensinou o verdadeiro papel de um escritor. Enquanto estava trabalhando nele, do alto do meu ego imenso, do qual eu não me orgulho, pensava eu, que estava finalmente atingindo algum nível de qualidade literária que eu queria, mas foi somente depois de terminá-lo, revisá-lo e, algumas semanas depois, fazer uma nova leitura, é que percebi o quão distante ainda estou daquilo que considero como sendo ideal: ainda estou á anos luz de distância do meu ápice, daquilo que penso ter potencial para produzir. Se algum dia eu vou me convencer de que cheguei à algum lugar com meus escritos, bem… isso é uma história completamente diferente. Mas estar sempre disposto a melhorar, a trabalhar mais, a se empenhar mais nessa arte tão árdua da escrita é algo que eu penso que nunca vou deixar de ter.

Enfim, desejo a todos que me acompanham uma boa leitura e peço encarecidamente que divulguem esse conto nas redes sociais. Eu não tinha a intenção de colocá-lo aqui, mas decidi que sim, pois tenho carinho tanto por esse espaço em que divido algumas produções artísticas, como por esse conto que me ensinou o verdadeiro papel de um escritor. 

Uma boa leitura, e até a próxima.

O caso dos jovens idosos

Sob o céu de nuvens escassas, os três amigos esperam.

O vento bate forte e constante durante o meio dia. Nas sombras, frio, sob o sol, calor. Cachorros sem dono largarteiam. Lagartos lagarteiam. Para o terror das mães de plantão, crianças sem casaco lagarteiam.  E sob a copa das árvores, no emaranhado de sombras pipocadas pelos feixes de luz que conseguem escapar a trama das folhas, os passarinhos e os carrinheiros, que estão no batente suando a camisa e as asas desde pouco antes do galo cantar o dia, permitem à si mesmos algum descanso, uma sesta sem almoço. Os restaurantes estão lotados de gente. É gente saindo pelo ladrão. Ladrão saindo pelo ladrão. Porque todo mundo rouba alguma coisa. É só olhar mais de perto. Dona Rosa, que agora se delicia com um frango empanado, quando mais jovem surpreendeu a irmã doente ao roubar a tulipa de que tanto ouvia falar do jardim da vizinha. Amaro, que agora coloca mais um dos deliciosos sushis na boca, senta ao lado de Cristina, mulher de quem roubou o coração. Amarildo, P.M. que come e se lambuza com o molho de macarrão vermelho que lhe escorre a boca e baba a camisa, já roubou a vida de um morador em uma das ações da polícia na favela. Ladrão saindo pelo ladrão. Os anúncios pendurados disfarçam o alto preço da comida: ao invés de pôr-se o preço em quilogramas, os donos dos restaurantes, em benefício próprio, para amenizar o choque aos possíveis clientes, anunciam em gramas, para que assim possam mover a vírgula do preço anunciado uma casa para e esquerda, e fazer que tudo se pareça com o que não é,  que um almoço como aquele pareça estar em conta. Por isso apinhados de gente faminta em com pressa. Por isso com gente saindo pelo ladrão. Nos rios de asfalto negro, com seus meandros tão bem delineados por um arquiteto urbano experiente, os carros circulam. O fumê dos vidros é tão escuro que que todos aqueles automóveis parecem ter vontade própria, parecem escolher quando virar para esquerda, quando seguir em frente, quando buzinar, como se não houvesse um motorista dentro dele. Enfim, naquela praça circundada de edifícios que, com sua garras afiadas, tentam frustradamente arranhar o céu, pessoas circulam de um lado para o outro, com uma pressa nos paços e pouco apreço nos olhos. Sentados, pedindo trocados, os viciados em droga, moribundos, marginais, deixados à apodrecer no próprio esquecimento, usavam o dinheiro que recebiam com tanta boa vontade de transeuntes comovidos com a face esquelética da morte para sustentar o insustentável vício cotidiano. Os traficantes, parados nessa e naquela esquina, ao contrário do imaginário popular, que os pinta de camisa havaiana, óculos escuros, colar e dente de ouro, não davam risadas da desgraça alheia com que se sustentam, pois eles também, como seus clientes, sustentavam vícios insustentáveis. Alguns eram, também, viciados na pedra, e utilizavam aquela força de trabalho, fugindo da polícia e se arriscando ao roubo, pelo perdão de dívidas passadas. Os outros, mais fortuitos, pode-se dizer, pois que não era obrigados a vivenciar o cárcere do crack, eram viciados na mágica do dinheiro fácil. Nas outras esquinas, postavam-se os vendedores de cigarros clandestinos, que não conseguiam suportar a tentação da nicotina, e com seus olhos fundos de cansaço, tossiam e pigarreavam o anúncio de seu produto branco, roliço e furtivo. Nos bancos de praça, mais judiados pela vivência de longos anos, vendedores de relógios de pulso de contrabando fazem negócios em comunhão até que o sol se dê ao trabalho de se deitar. Outros três, também ladrões em seu próprio universo particular, também viciados na comodidade do costume, na clássica formação que foi feita há alguns anos, sentavam-se em um dos bancos rangidores da mesma praça, e, ao contrário das senhoras de idade que se banhavam em protetor solar, esses três se expunham ao calor revigorante do sol do meio dia sem ressalvas. Manchas na pele já não é o que nos falta, se justificavam. Aguardavam ali, com os estômagos roncando de fome, a imagem de Paulo, dono de uma figura única e de um talento culinário inigualável, com a longa barba prateada e os óculos fundo de garrafa. Iriam, os três, a convite do amigo cegueta, comer um almoço como nunca antes feito.

No meio tempo, esperavam, prostrados naquele banco de praça.

O primeiro e mais notável dos três era Juvenal. Vestia um cardigã roxo cuja manga estava tão longa que fazia com que o suntuoso e pesado relógio dourado preso em seu pulso se escondesse tanto do mundo quanto dele mesmo. Usava aquele relógio simplesmente por costume, pois já faziam anos que não o utilizava para ver as horas. Dizia que não conseguia se acostumar ao movimento do pulso sem o peso do relógio. Para ver as horas havia o celular que carregava consigo no bolso. Sempre carregava consigo a sua maleta, hábito que adquirira nos seus tempos de médico, em que atendia seus pacientes à domicílio. Era daqueles médicos de família. Carregava sempre consigo o estetoscópio, as espátulas de madeira, o famoso refletor que dizia as crianças ser na verdade um terceiro olho removível, e um compilado de comprimidos que ele distribuía aos pacientes conforme a ocasião. Agora, já na idade, aposentado, na maleta somente carregava um tablet, onde tinha muitos dos livros que gostava de ler, um casaco para caso esfriasse, e uma sombrinha, para caso chovesse. Apesar de ter consigo um telefone celular de última geração e um tablet reader com o aplicativo de agenda disponível, ele não saía de casa sem trazer consigo o famoso caderninho em que, na primeira metade, guardava os telefones para contato, e na segunda metade, anotava o itinerário monótono que montava para si mesmo. A alguns hábitos é possível se render, a outros nem tanto, justificava-se. Os óculos escuros tomavam quase toda a cara, grandes, de aviador, com um tom arroxeado e de metal dourado. Combinavam com o cardigã e com os acessórios especialmente encomendados a um ourives há muito falecido. Cada colar, cada pulseira, um significado. A pele branca estava escurecida e manchada de sol, principalmente na região da grande careca.  Em baixo dos olhos, nas bochechas, via-se uma vermelhidão de mormaço. A barba aparada e branca se estendia pelo queixo, pelo buço e pelo pescoço como uma justificativa à careca tão lustrada e evidente. No meio dos pelos duros e brancos da cara, viam-se os lábios finos e enrugados, que abrigavam os dentes amarelos, tortos e naturais que o Doutor Juvenal conservava com tanto orgulho. Os dedos grossos da mão, mais grossos que os da maioria, por causa do violão, dez salsichas endurecidas, balançavam os anéis de ouro junto à mão e ao braço, que eram maestros da fala e regiam as cordas vocais. O corpo inteiro dançava junto com sua fala. Os pés, com seus sapatos tão bem lustrados que refletiam, subiam e desciam com as risadas propulsionadas pelas histórias que ele mesmo contava.

O segundo, Honório, para quem Juvenal voltava o corpo, era mais timorato e acabrunhado. As sobrancelhas arqueadas que davam um tom irritadiço ao seu rosto escondiam os olhos escuros de cristal negro que tinham um brilho de admiração reluzente e pueril. A face pode até tentar disfarçar, mas, aos olhos, nenhum estado de espírito escapa. Era um olhar submisso e admirador. O cabelo crespo e duro, já não mais se espalhava por toda a cabeça escura. Já há muito caíra, vitima da  quimioterapia. Honório não se incomodava. Por comodidade, sempre deixara o cabelo ralo, então não fazia diferença ter ou não ter, ser ou não ser careca. A única coisa que diferia da juventude era a papada que ganhara com o passar dos anos. No resto, seu rosto negro e escuro continuava o mesmo. As orelhas continuavam de abano. O lábio continuava grosso e com fama de mentiroso. Na cara, quase não se viam rugas. Eram somente algumas, espalhadas aqui e ali. Ser preto tem muitas desvantagens, mas ao menos a gente não tem que ficar enrugado, vangloriava-se, rindo. A vestimenta era bem mais humilde que a do parceiro de banco. Não passava de uma simples camiseta que comprara em uma viajem que fizera há muitos anos ao Rio de Janeiro e que estampava, de braços abertos, o Cristo Redentor, uma calça jeans segurada por um cinto grosso de couro e um tênis ortopédico receitado pelo médico. Vez ou outra levava a mão direita ao cinto, procurando a arma que tanto foi sua companheira nas rondas da P.M.. Sentia falta da rua, da autoridade, da maneira como era sempre bem tratado por causa do seu uniforme acinzentado e sua insígnia no peito. De relance, ficava reparando nas pessoas que andavam na rua. Amaldiçoava a quantidade de gays que via passando de mãos dadas e se indignava com a falta de respeito que tal ato trazia consigo. A boca se enchia de saliva, um pigarro subia a garganta e sempre lhe surgia a necessidade imediata de cuspir no chão, como um daqueles caubóis dos filmes de velho oeste. Não fazia por mal. Também não odiava os homossexuais, somente não conseguia se ver acostumado à uma sociedade que os aceitasse tão abertamente.

Adalberto, por outro lado, nem reparava nos casais que passavam se amando. Dentro de seu casaco de couro, era o mais silencioso. Quase não abria a boca. Seus cabelos plúmbeos tomavam conta de toda a cabeça enorme. A testa, proeminente estampava as muitas marcas de surpresa. Os olhos cinzentos eram ressaltados sobre a grossa sobrancelha negra que, ao contrário dos outros cabelos do corpo, teimava em continuar escura e espessa. Dos três era o mais novo, e, ao contrário do que se pode inferir tanto por seu caráter esquálido e taciturno, era o que mais acumulava nos ombros histórias para contar. Mas eram histórias que preferia guardar para si e que somente muitos anos depois de sua morte foram reveladas aos seus conhecidos na forma das cartas que ele escreveu e que, por alguma razão, manteve guardadas por tantos e tantos anos sem pensar em envia-las ao destinatário, a quem se referia somente como G.T.. Era do interior e tinha certeza que a única coisa que herdara do pai era a vontade de permanecer em silêncio, pois que é mais vantajoso ouvir devaneios do que pestanejar impropérios. Aprende-se mais. Entretanto, apesar desse seu caráter silencioso e reservado, fizera carreira como advogado e fora muito bem sucedido. Participou do julgamento de casos históricos, que estão nos anais da justiça brasileira até hoje. Vez ou outra algum estudante de direito, empolgado com as histórias que ouviu, decide que é propício fazer uma visita ao ídolo. Ele os recebe e os trata bem… durante a primeira meia hora. Pois se o encontro se estende por mais tempo, ele já fecha o rosto e faz cara de criança com fome. Aí começa a ser rude, a peidar alto, pigarrear, arrotar e fazer de tudo para que o infortúnio alongamento da visitação se dissolva em adeuses em poucos minutos de desconforto. Não ostentava nenhum relógio caro, nenhum pingente cheio de significado e nem um dente de ouro. Ele se sentava ao lado de Juvenal, incomodado com a posição que este escolhera para se sentar, com o corpo parcialmente voltado à Honório. Adalberto, mais conhecido entre os amigos por Bebeto, então, sentia estar sendo ignorado, pois era obrigado a levantar o pescoço para olhar Juvenal por cima do ombro e apurar o ouvido para ver se ouvia(?) o que o colega estava pronunciando.

– E com essa coisinha aqui, que, veja só, é só um pouco maior do que a minha mão, eu já posso me manter conectado com tudo que acontece no mundo! – dizia Juvenal, mostrando o celular para Honório.

– Tudo? – indagava, com um tom infantil na voz.

– Tudo. – Juvenal tinha um jeito malandro de ser. Nunca tirava o sorriso do rosto. O sorriso amarelo, de dentes amarelos. – Quer dizer… basta você saber procurar que você encontra. E encontra o que você quiser!

– O que você quiser?

– O que você quiser.

Honório olhou para Adalberto do outro lado do banco. Bebeto simplesmente pigarreou e sorriu.

– E tem mais: – nessa hora, Juvenal fez um sinal com a mão para que os amigos se aproximassem e começou a falar baixinho – é ótimo para manter-se em contato com as mulheres!

Os três, então, partiram-se em risadas afobadas. Nenhum dos três sabia exatamente do que estava rindo, entretanto, estavam rindo. Honório tinha a estranha impressão de estar dando risada da risada de Juvenal. Este, por outro lado, dava risada da safadeza que pensava ser fazer o que fazia – o que no caso seria entrar em salas de bate papo, conversar com algum sujeito que diz ser mulher até conseguir sentir o companheiro ao menos dar um salto e tentar encontrar antigas paixões que se perderam na memória. Adalberto, por outro lado, ria do papel de bobo à que Juvenal se prestava. Ele, ao contrário de Honório, não cultivava dentro de si a ilusão de que aquele homem sentado ao seu lado era um homem a quem admirar. Sabia, há muitos anos, de histórias que deixariam Juvenal mais vermelho do que ele já era, entretanto, quando percebia o olhar infantil de Honório, que via aquele ex-médico como uma criança vê um jogador de futebol, ele deixava essa ideia de lado. Adalberto sabia de muitas coisas. De mais coisas do que gostaria de saber. Depois de anos de amizade com Juvenal é que foi descobrir que há muitos anos advogara anos contra o amigo de praça. Zélia, então esposa de Juvenal, o procurara para ter uma orientação legal para o processo de separação. Durante as visitas, Zélia foi bastante amigável, após o causo todo haver finalmente sido resolvido, convidou-o para tomar um café. Adalberto aceitou com a condição de, que se algo a mais acontecesse, que ela não voltasse a comparecer ao seu escritório para nenhuma outra razão a não ser uma visita. Nada, entretanto, aconteceu. Adalberto, também, nem o queria. A mulher era uma dentro da sala de atendimento, educada, agradável e encantadora, e outra completamente diferente fora dele. As histórias que ela lhe contara dentro do escritório permaneciam vivas e se faziam lembrar de tempos em tempos. Houve uma ocasião, por exemplo, quando Juvenal ainda estava no segundo ano da faculdade de medicina – e Adalberto sabe disso pela boca grande de Zélia, que não pensou duas vezes antes de sair a espalhando -, em que ele foi até um amigo de seu pai, Dr. João J Jr.(*Nota do autor – Os sobrenomes dessa narrativa serão todos omitidos para preservar a integridade das personalidades aqui citadas*), famoso cirurgião da cidade, pedir algumas instruções, pois estava com dúvidas sobre a área em que se especializaria. Dr. João J Jr. o recebeu de braços abertos. Durante uma tarde inteira, os dois conversaram sobre o importante papel do médico na sociedade, sobre a dureza do dia-a-dia e sobre a paixão que a profissão requer. Juvenal aprendera muito naquela tarde, entretanto, ainda não se sentia seguro sobre o seu futuro. Dr. João J Jr., então, em um gesto altruísta, o convidou para assistir à uma operação que fariam em um períneo no dia seguinte. Juvenal aceitou com bastante excitação. Ao chegar na sala de cirurgia, a paciente, uma mulher com mais ou menos quarenta anos, estava sentada em posição ginecológica. Nervoso, à convite do Dr. João J Jr, Juvenal se aproximou, sempre tomando muito cuidado para não tocar em nada. Ao chegar do lado do Dr., sobre o pano verde que os cobria, cara a… cara a… cara a vulva, Juvenal solta a desfeita, apontado discretamente: “Dr., quer dizer que isso aí é a vagina?”… Não preciso nem dizer que toda a sala de cirurgia se partiu em risadas. E as risadas continuaram a ecoar com o passar dos anos todas as vezes que o Dr. João J Jr. fazia questão de contar essa história em reuniões de amigos. Com isso, praticamente todos que conheciam Juvenal e João ao mesmo tempo sabiam da história. Não é preciso dizer também que, de todas as especializações possíveis, a ginecologia não foi a de escolha de Juvenal. De qualquer maneira, embora Zélia fosse uma doçura dentro do escritório, era outra completamente diferente durante as poucas vezes em que se encontraram. Não parava de falar um só segundo; quando falava, todos os assuntos a levavam novamente ao ex-marido e como foi duro viver com ele; ela não tinha um bom gosto para nenhuma das artes: tentar conversar com ela sobre música, por exemplo, era como tentar conversar com uma criança; tinha um tique nervoso em que coçava o cotovelo com constância; seu nariz escorria demais e ela continuamente era obrigada a assoa-lo em público – o que é deveras deselegante; entre tantos outros defeitos que desde o primeiro encontro ficaram evidentes. Não me surpreendo que tenha assinado aquele contrato tão rápido, brincou, anos depois, ao contar da coincidência para Juvenal, em uma tarde em que a chuva era incessante.

Juvenal, por outro lado, embora à todos demonstrasse o quão bom fora aquele divórcio para ele, o quão extravagante e livre é a vida de um solteirão, ainda guardava dentro de si uma incrível e dolorosa mágoa intermitente com a qual já aprendera a lidar. Seu casamento com Zélia, como sempre fez questão de ressaltar, para o desconforto da ex-esposa, fora arranjado pelas duas famílias, como um pacto de paz. Ambas as famílias eram de descendência italiana, Juvenal C e Zélia B eram a terceira e quarta geração no país, respectivamente, e a batalha que as famílias travaram pela clientela durara muitos anos se resolveu de um dia para o outro com o casamento arranjado. Poucas foram as vezes que sequer se cumprimentaram os dois antes do dia do casamento. Entretanto, a falta de contato visual não necessariamente significou falta de contato. Ele, à ordens e olhos do pai, a enviava cartas em que tentava parecer o mais apaixonado excitado possível, embora dentro de si, guardasse uma angústia e um medo que podia jurar que só ele mesmo conhecia. Ela, do outro lado do papel, lia as cartas com uma euforia inexplicável. Somente não gritava quando as cartas chegavam porque sabia do temperamento quente de sua família. Somente quando se via livre de qualquer emoção é que iniciava a sua escrita. Assim seguiram até o dia do casamento. A noite de núpcias foi bastante conturbada. Juvenal estava tão nervoso que não conseguia ficar de pé para fazer o serviço. Zélia tentou consola-lo, brincou com ele, o balançou de um lado para o outro, o colocou na boca e mesmo assim, não conseguiu nada a não ser um pequeno treme treme. As coisas foram se resolver mesmo é na manhã seguinte. Juvenal se justificou dizendo que o álcool da noite anterior havia inibido a sua libido. Zélia não sabia se isso era verdade, mas fingiu acreditar para não machucar os sentimentos do esposo. Na manhã seguinte, ele se levantou antes dela com a usual ereção matinal e, percebendo-se em tal estado, a acordou com a mesma euforia que ela tinha ao ler as cartas. Ele acordou!, dizia. Ela, vendo o estado rígido e inflexível da coisa do marido, também sorriu e soltou o grito eufórico que tanto queria soltar a tanto tempo. Os dois tiveram uma linda manhã de amor, em que se descobriram um ao outro e mancharam a roupa de cama de vermelho, para na mesma manhã, exibir a bandeira da desvirginização com um sorriso orgulhoso no rosto. Dentro de alguns meses, ela já carregava a imensa barriga consigo. Dentro dela, o feto que futuramente receberia o nome de Rodrigo. Foi o único filho do casal. Um garoto quieto e reservado, em nada parecido com a família. Os almoços de domingo eram cheios de gritos e vez ou outra os moradores dos apartamentos vizinhos se viam obrigados a chamar a polícia, pois que não sabiam se o que acontecia dentro do apartamento de Zélia e Juvenal era só uma reunião familiar ou uma briga das feias. Conforme o garoto ia crescendo o casal ia se acostumando cada vez mais um aos costumes do outro, os dois foram se rendendo à comodidade do cotidiano. Ela ficava em casa tomando conta de Rodrigo e dos afazeres domésticos enquanto Juvenal corria de um lado para o outro fazendo atendimentos. Ele quase não parava em casa. E a razão pela qual fazia isso não era única e exclusivamente o trabalho, mas, muito pelo contrário, o número de amantes que ele insistia em manter.

Tudo começou no segundo ano de casamento. Havia de fazer uma consulta à essa solteirona, Rosalinda, que nunca se engraçou com nenhum homem a ponto de se casar, e que muito era mal vista pelo bairro. Ela, ao telefone, reclamava de uma dor de cabeça e febre que não conseguia suportar. Juvenal pegou o endereço e à casa dela se dirigiu já pensando nos possíveis diagnósticos. Ao chegar no apartamento, ela o recebeu cheia de olhos fundos e arrastando os pés, enfiada dentro de um roupão felpudo, branca e suada. A visita foi rápida. Juvenal concluiu que a inflamação na garganta era causada por uma infecção bacteriana. A receitou antibióticos, recomendando que não deixasse de os tomar quando se sentisse bem, e algumas horas por dia debaixo das cobertas, suando o máximo que podia e bebendo líquidos constantemente. Duas semanas depois, ele recebe mais uma ligação de Rosalinda. Ela diz que dessa vez tem uma dor de cabeça insuportável, e que precisa de uma visita urgente do médico. Ao chegar novamente em seu apartamento, Juvenal foi surpreendido. Ela o atendeu com um robe quase transparente e mais nada. Por baixo daquela seda fina, era possível perceber os mamilos eriçados. E como a vestimenta não era muito longa,  as coxas e toda a extensão da perna ficavam em nua luxuria.  De qualquer maneira, Juvenal não deu bola para nada disso. Estava ali a trabalho. Além disso, já havia tempo que não prometera a si mesmo não reparar em como as pessoas se vestiam em casa. Por exemplo, esse senhor, Ernesto, a quem atendeu inúmeras vezes, tinha o estranho costume de ficar dentro de casa em traje de gala, com direito a cartola e gravata borboleta, enquanto do lado de fora, trajava-se como um senhor da idade dele. Juvenal foi guiado por Rosalinda até o quarto. Colocou a maleta na escrivaninha e, enquanto tirava o estetoscópio, ouviu o barulho dela se jogando na cama. Quando se virou, a viu nua em pele. O robe jogado no chão, e ela, com seus longos dedos, o chamava. “Pensei que estivesse doente!”, a advertiu. Ela, entretanto, retrucou dizendo que estava de fato doente. Doente de vontade de trepar. “A vida de solteira é tão sozinha.”, reclamou “Tudo que eu preciso é de meia hora.” Juvenal já não sentiu mais as pernas. Elas tremiam e a boca estava cheia d’água. Queria se manter fiel à esposa, mas vendo Rosalinda ali, nua, sensual e com vontade de sexo bem na sua frente, ele não conseguiu se segurar. Somente guardou a aliança no bolso e partiu ao ataque. Depois de Rosalinda os casos aumentaram.  Havia Elza, a esposa de Hernani, Lia, a secretária do prefeito, Beatriz, uma das enfermeiras do HC, entre tantas outras. Juvenal, então, não parava em casa. Todos os dias encontrava-se com alguma de suas amantes para matar a sua sede de prazer. Zélia, por outro lado, se manteve fiel ao marido até o dia em que pediu o divórcio. Rodrigo tinha, então, dezesseis, e o casamento dos dois já durava dezessete e alguns meses. Alguns anos antes, os moradores do prédio de Rosalinda, que frequentavam a igreja mesma igreja de Zélia, começaram a achar estranha a frequência com que ela se adoentava. Toda a a semana estava doente a ponto de receber uma visita do médico. Boca a boca, a notícia se espalhou nos sussurros da igreja. Foi durante o final de uma missa, enquanto desejava a paz de Cristo para Eunice, que a mesma lhe chamou de perto lhe sussurrou ao ouvido: “se eu fosse você, perguntava ao meu marido quem é essa tal de Rosalinda.” Zélia ficou com essa frase na cabeça durante um mês, sempre arranjando algum motivo para desviar-se do óbvio: Juvenal a estava traindo. Devagar, ela decidiu sondar o marido. Quando ele não estava em casa, ou seja, quase sempre, ela checava suas camisas em busca de manchas, de erros que ele poderia haver cometido e que lhe dedurassem a traição, mas era sempre infrutífera em suas pesquisas. O homem era discreto, apesar de extremamente ativo. Quando percebeu que não angariaria mais provas, fizesse o que fizesse, viu-se obrigada a considerar seriamente a hipótese de que todo aquele drama não passava de uma alucinação e que estava ficando louca.

Passados alguns anos de traição a mais, Juvenal começou a sentir saudades de casa. Rodrigo já tinha, então, onze anos e estava na idade que ele mesmo designava como “boa”, em que já conseguia se comunicar com mais facilidade, em que, segundo ele, se floresce a amizade entre pai e filho. Com o passar do tempo, Juvenal foi diminuindo as horas de trabalho, cancelando os encontros com as amantes, até que trabalhasse o mínimo possível para que a casa continuasse nos eixos, e até não ter mais nenhum caso extraconjugal. Entretanto, para sua surpresa, ficar em casa não era tão aprazível quando ele pensou que seria. Com a esposa, não conseguia conversar sobre nada, a não ser o trabalho. Com o filho muito menos, pois o moleque quase não abria a boca, a não ser para comer e olhe lá! Vendo-se frustrado pelas expectativas que construíra com tanto calor, passava, então, a maior parte do tempo prostrado à poltrona da sala, lendo de cabo à rabo o jornal do dia. Até mesmo a sessão de astrologia. Passados mais alguns anos desse casamento que as pessoas julgavam ser feliz – até mesmo o próprio casal – andando no centro da cidade, em um dia nublado e cheio de ventania, Juvenal avista do outro lado da rua Lúcia, com seus lindos e suntuosos cabelos loiros e a pinta do lado da boca quente que há tanto ele já não sentia. Ela vem em sua direção e o cumprimenta com um singelo “olá”. Ele estende a mão de volta e ela lhe oferece o rosto. Ele beija-lhe a a face gentilmente, entretanto, sem fogo algum. “Você nunca me ligou de novo”, ela o disse. Ele somente a respondeu dizendo que não teve tempo. Ela, então, pediu um cartão para o médico. Ele não encontrou nenhum. Contudo, guardava no bolso, para jogar depois em uma lixeira, um guardanapo pouco sujo. A entregou ele. Lúcia escreveu seu nome e telefone naquele pedaço de papel, e com seus grossos lábios cheios de batom, deixou a marca de sua boca impressa junto ao número. Ela colocou gentilmente o guardanapo no bolso de Juvenal, e se despediu dele com um beijo no canto dos lábios. Bem ali, na trave do gol! Vendo-a seguir seu caminho, Juvenal olhou alguns instantes para o guardanapo e, por alguns instantes, também, pensou em ligar para ela, para novamente saciar-se. Contudo, ele gostava da vida que levava em casa. Por alguma razão que não sabia explicar, ele agora amava a esposa mais do que nunca. Estava satisfeito com a rotina. A convivência o fez amar aquela mulher por mais que não conseguissem conversar muito. Perto dela, mesmo em silêncio, mesmo sem se comunicarem, ele não sentia as horas passarem. Quando ela lhe servia o café da manhã, quando lhe servia a janta, quando o ouvia reclamar do transito e quando o abraçava em suas crises de depressão, Juvenal sentia que a amava. E esse amor era maior do que o sexo, maior do que vontade, do que o desejo pecaminoso do adultério. Ele não conseguia ver na relação que cultivara com a esposa nada que não fosse amor. Sabendo disso, ele somente guardou o guardanapo de volta no bolso, e lá o esqueceu para somente ser lembrado uma semana depois.

Dentro de seu mundinho fechado, todavia, Zélia se sentia enclausurada. Desde que o marido começara a passar mais tempo em casa, ela já não sentia mais liberdade. E justamente quando o filho estava começando a ficar mais independente o que a daria a liberdade de ter a casa só para ela. Estar em casa fazendo os afazeres domésticos e ser surpreendida pela imagem de Juvenal sentado na poltrona, com pernas esticadas e lendo um jornal, causava a ela uma estranha sensação de desconforto. De repente, ela já não era mais a dona soberana daquela casa. Juvenal havia tomado conta. Ela era escrava dos desejos do marido. Era obrigada a lhe servir todas as refeições do dia, pois ele fazia questão de estar em casa. Onde quer que pensasse em ir, o que quer que imaginasse em fazer, sempre aparecia em seu caminho a imagem do esposo sentado, fumando um cachimbo e lendo um jornal. Havia virado a prisioneira da própria casa. Sem contar somente isso, a maneira como ele se abstinha de qualquer responsabilidade doméstica a irritava em demasia. Nada podia ser pedido para ele. Ele simplesmente não ajudava. Dizia que já trazia o dinheiro para casa e que isso já era mais do que suficiente. E, vendo-se assim, presa às obrigações da casa sem o consolo de uma mão para ajuda-la, ela começou a se sentir uma escrava do marido. E a comparação não era somente feita no inconsciente, pois muitas vezes se pegou a fazendo. Ele não me paga nada, só me dá alimentação e uma casa em troca desse serviço. Concordo que tenho algumas regalias, que recebo carinho e que, graças a Deus, não sou levada ao pelourinho, mas isso não faz com que meu regime de escravidão seja menos pior do que o dos negros., dizia a si mesma. Não conseguia, contudo, suportar essa ideia por muito tempo. Ela se sentia culpada ao simplesmente pensar no assunto, e a mesma imagem opressora que lhe podava os instintos, se transformava em um objeto de admiração e louvor. Ela preparava o dia pra a chegada de Juvenal. Quando ele chegava em casa, a mesa do jantar já estava posta e ela e Rodrigo somente esperavam o pai. Na cama, antes de dormir, ela muitas vezes se via o consolando no sentido bíblico e, nessas situações, lembrava-se de uma frase que ouvira da mãe antes de se casar: “Faça com que sua primeira vez com ele seja mágica e especial, pois todas as outras vezes que vocês fizerem isso não passarão de uma sombra, de um ecoar baixinho e monótono dessa primeira vez.” Como mamãe tinha razão, dizia as vezes à si mesma, quando se percebia tentando repetir aquela primeira manhã de núpcias nos cinco minutos antes de dormir. Mas não somente se via consolando o esposo carnalmente, pois inúmeras vezes, ao invés de estar com as pernas abertas, fazia o mesmo movimento com os ouvidos. Escutava-o contando as histórias do trabalho e muitas vezes se banhando em lágrimas de frustração. Sentia-se, nesses momentos, companheira, e era por essa exata razão que se sentia culpada ao pensar em si mesma como uma escrava. Ela era, então, prisioneira de suas antíteses, estava acorrentada aos paradoxos do seu estar sentimental e, apesar de não se sentir bem ao fazer isso, aquela antiga hipótese de estar sendo traída pelo esposo ainda ecoava em dentro de sua mente, a fazendo vez ou outra sair a procura de evidências do adultério dentro dos bolsos do marido. Ela procurava, inconscientemente, uma saída para o labirinto mental em que se havia metido. E foi em uma manhã de Maio, quando o sol batia quente e forte e era possível fritar um ovo na calçada, que ela encontrou o caminho para a liberdade: o bilhete de Lúcia no bolso do paletó de Juvenal.

Zélia abriu as portas do armário somente para fazer com que a sua ilusão desaparecesse. Queria, novamente, provar a si mesma equivocada. Queria jurar novamente à si mesma que havia caído nos braços da loucura, que estava alucinando quando pensava que o marido a estava traindo. Como sempre, foi de paletó em paletó, de bolso em bolso, à procura de sua confirmação: nada. Para sua decepção, encontrou alguma coisa. No bolso da frente do paletó cinza de riscas é que ela sentiu a textura áspera do guardanapo. No começo somente afastou a mão e trouxe para perto do peito. Provavelmente não é nada, disse à si mesma, e voltou a levar a mão até o guardanapo. Quando o tirou do bolso já pode perceber a marca vermelha do batom de Lúcia. Devagar, leu e releu o guardanapo várias vezes, tentando acreditar no que via, até cair no choro e não conseguir parar mais até que ouvisse Rodrigo chegando em casa.  Ela chorava, chorava e chorava. Chorava lágrimas que parecia ter guardado consigo durante anos e que só agora as via livres para escorrerem sem remorso. Os sentimentos eram inexplicáveis: um misto de raiva, tristeza, felicidade e gratificação. Estava com raiva de Juvenal por ter mantido um relacionamento extraconjugal por tantos anos, e ao mesmo tempo estava triste pois sabia que aquele guardanapo representava o fim de dezessete anos de casamento. Estava feliz por finalmente se ver livre das amarras do casamento e ao mesmo tempo agradecida por finalmente à ela ter sido revelada a verdade. Ela chorou essas lágrimas de resignação até o momento que ouviu o barulho da maçaneta da porta girando. Na hora se levantou o mais rápido que pode e correu até o banheiro para limpar o rosto. Quando de lá saiu e viu o filho prostrado a mesa a espera do almoço, já estava com a cara limpa e não dava sinais de seu estado emocional. Rodrigo a indagou sobre o almoço, e ela retrucou dizendo que hoje, especialmente, os dois iriam almoçar fora. Ela o levou até um McDonald’s, e, depois disso, disse que ele teria de passar a noite na casa da tia. Lá pelas quatro horas da tarde deixou o menino com a irmã, e foi para casa a espera do esposo, com quem travaria uma batalha. Juvenal chegou em casa as cinco horas e quarenta e três minutos, cheiro de fome, esperando um jantar na mesa. Ao entrar pela porta dos fundos, somente avistou na mesa da cozinha o guardanapo beijado. Na hora ele já soube como aquela noite terminaria. Nos instantes que precederam a fala da esposa, que o aguardava sentada na mesma poltrona em que ele lia os jornais, ele pensou em uma infinidade de desculpas, mas todas elas foram por água abaixo, pois Zélia não fez a pergunta que ele esperava que ela o fizesse(“Quem é Lúcia?”), mas somente disse: “Eu quero o divórcio.” Inutilmente, Juvenal tentou a convencer do contrário, falou, falou e falou sobre Lúcia e de como nunca teve nada com ela, embora se sentisse tentado o tempo todo, o que não melhorou em nada sua defesa. Juvenal não queria perder Zélia, não queria perder a casa, o filho, a poltrona e a companheira com quem dividia suas aflições. Fez de tudo para convence-la a desistir da ideia. Ela, porém, estava decidida a se divorciar, e nada que ele dissesse a faria pensar em uma solução diferente. No dia seguinte, a esposa saiu a procura do melhor advogado que pudesse encontrar, e foi aí que conheceu Adalberto L. Juvenal foi condescendente, e sem obstinação alguma, assinou o contrato de divórcio. Na família, o fim do casamento foi um escândalo e acabou culminando no retorno a rivalidade entre as famílias B e C.

Juvenal nunca contava isso à ninguém, mas era amargurado pelo fim trágico que tomou seu casamento. Principalmente por ter acabado em uma época em que ele não mais a estava traindo, em que ele estava se esforçando para fazer aquilo que considerava certo e não romper com seus valores cristãos novamente. O destino, entretanto, nos prega peças com as quais não sabemos lidar e, muito menos, sabemos entender. Vez ou outra, o homem se via sozinho, olhando álbuns de fotografias, vendo as fotos do casamento, das muitas festas que os dois deram juntos, e sentia uma dor no coração, um frio cortante no estômago. Nesses momentos, sentia os olhos se encherem d’água, e logo fazia questão de deixar a lembrança de lado para voltar a viver a vida. Aos seus amigos, especialmente os amigos de praça, e mais especialmente ainda à Honório, Juvenal fazia questão de dizer o quão bom aquele divórcio fora para ele, o quão excelente é a vida de solteiro, e como é fácil e gostoso se acostumar com a liberdade. À Honório, principalmente, dizia isso, pois sabia da admiração que esse negro tinha por ele. Honório olhava quase sempre de baixo para cima, mesmo sendo mais alto do que ele. E Juvenal adorava essa admiração. Era como ser louvado novamente. Era como, novamente, estar casado.

Honório, por outra instância, nem notava como admirava o amigo. Somente o fazia. Era algo tão natural que já fazia parte da sua essência. Sua esposa, Elvira, carinhosamente apelidada por todos por Eva, por exemplo, notava isso com a maior clareza do mundo. Não somente notava como fazia uso desse traço característico do marido em vantagem própria. Eva aprendera com os anos a utilizar de artimanhas de linguagem e de persuasão para fazer com que o esposo sempre a obedecesse. Com isso, ele, que já tinha a fama de mentiroso, recebia, também, a de pau mandado. Ela nunca admitia, nem para ela mesma, e muito menos em público que mandava no esposo. A dominação que exercia sobre ele era toda planejada no seu subconsciente. Não se dava conta de quando fazia, mas de um jeito ou de outro, fazia. E como era assim, inconsciente da dominação que exercia, Eva cultivava a impressão de que vivia em casamento harmônico e perfeito. E tinha outras razões para acreditar nisso. A estabilidade era uma delas. Cinquenta e dois anos de casados e nenhuma briga feia. É claro que o casal já entrara em embates inúmeras vezes, entretanto, nenhuma sequer das brigas foi suficientemente grande para fazer com que os dois dormissem em camas separadas. Quando a perguntavam sobre dicas para a estabilidade no casamento, Eva normalmente dizia: “O casamento é algo complicado. A relação normalmente vai se desgastando com os anos de convívio. É por isso que eu digo e repito que para um casamento ser duradouro e estável, o casal deve ir além da convivência. Não se pode simplesmente conviver, porque conviver é insuficiente. É preciso coexistir.”

A história de Honório e Elvira parece tirada de um filme romântico dos estados unidos. Parece bastante irrealista, entretanto, é a história que ambos contam e confirmam. Havia poucos anos que ele havia conseguido entrar na polícia militar. Estava contente, fazendo rondas pela cidade, contendo manifestantes e cumprindo ordens, pois essa sempre foi uma de suas características. Dos cinco irmãos, era o mais novo e, sendo assim, admirava os irmãos mais velhos e sempre estava a correr de um lado para o outro realizando tarefas que estes lhe pediam. Era o protegido da mãe e o ignorado do pai. Ernesto, comunista e trabalhador, quase nunca estava em casa e, quando estava, procurava dar atenção aos filhos mais velhos que, além de já terem idade para entender e defender o pensamento marxista, já estavam conseguindo encaminhar com a própria vida. Muitas noites, na sala de estar, Honório ouvia o pai aconselhar os irmãos: “Estamos vivendo tempos difíceis para o comunismo. Vocês devem manter a boca fechada. Não devem contar à ninguém sobre os assuntos que conversamos aqui dentro. O mundo lá fora pode ser muito cruel com quem não crê em suas mentiras.” Esses momentos, entretanto, eram os únicos dos quais Honório tem uma lembrança firme e concreta do pai. Uma noite, simplesmente, bateram na porta da casa dois homens de terno. A mãe, Maria da Glória, atendeu a porta e aos dois homens ofereceu café. Ambos recusaram e perguntaram se poderiam conversar em particular. Maria da Glória os levou até a cozinha. Da sala de estar, escondido nas sombras e passando impercebido, Honório escutou aqueles homens de terno informarem a mãe da morte de seu pai. Ernesto, pelo que lembrava, havia sido tomado dois tiros, um no rosto e outro no ombro, ao tentar evitar um assalto a banco no centro da cidade. Na manhã seguinte, os irmãos todos choraram como nunca antes. Honório nunca os havia visto assim, enfraquecidos, e foi nesse dia que decidiu que se tornaria policial. Muitos anos depois, conseguiu entrar para a corporação e começou a fazer rondas pela cidade.

Ele estava em mais uma de suas rondas em uma das tantas terças-feiras de 1948 quando conheceu Eva. Naquela época, era possível aos policiais circularem com não mais do que um revólver calibre trinta e seis e um cassetete preso na cintura. Os bandidos tinham menos poder de fogo, então uma arma de calibre baixo era mais do que suficiente para se impor a autoridade. Na sua velhice, ao ver os policiais desfilando de um lado para o outro com pistolas de calibre quarenta, ele se assustava e agradecia a Deus por ter nascido na época certa. Aquela terça-feira, enfim, era uma terça-feira como todas as outras. A noite estava quente, abafada. Naquela época ainda era possível, mesmo no centro da cidade, ouvir o canto monótono das cigarras. Distante, ouve-se o som de um ou outro carro que passa levantando poeira. Já é tarde da noite. As pessoas começam a voltar para casa depois de se encontrarem. Jovens começam a sair de casa para os bailes espalhados por todo o canto. E a polícia já desde muito antes a vigiar e rogar pela ordem. Honório caminha. Está com calor. Seu turno está acabando. Tudo que quer é poder voltar para casa, jogar aquelas botas no canto do quarto, tirar as meias e limpar lentamente com o indicador, uma a uma, toda a sujeira que fica acumulada entre os dedos do pé. Ele não vê a hora de poder tirar a camisa e abrir uma cerveja enquanto escuta o rádio. Anda pela calçada pensando exatamente nessa rotina quando ouve um grito de mulher. Essa mulher grita, enquanto corre: “Socorro! Socorro! Pega ladrão! Pega ladrão!”. Por alguns instantes, Honório considera seriamente a possibilidade de ignorar os gritos e continuar seguindo o seu caminho, entretanto, a insígnia da corporação reflete a luz de um poste e ele se lembra de porque entrou para a polícia em primeiro lugar. Na hora ele começa a correr em direção aos gritos, vivo e certo de que pegará esse ladrão. Quando finalmente encontra a mulher que grita, ele mal tem tempo de olhar para ela. Ela somente brada e aponta a direção para onde o criminoso fugiu. Ao longe, ele consegue ver a imagem reduzida do assaltante, e decide que é o caso de correr atrás dele. Começa a correr atrás do ladrão. Suas pernas são maiores do que as do criminoso, então seus passos também cobrem uma distância maior. Em pouco tempo a imagem reduzida do assaltante já aumentou e Honório se vê bem próximo do homem. “Pare!” ele grita. “Polícia!”. O criminoso, entretanto, não para. Ele grita palavras de ordem mais uma vez. O assaltante somente olha para trás e continua sua corrida. É nesse momento que decide que é a hora de se tomar uma medida drástica. Ele para, tira o revólver da cintura. Por alguns instantes, mira no bandido. Atira. O tiro o pegou nas costas, fazendo-o cair no chão, desmaiado. Honório se aproxima do corpo estirado do ladrão e tira das mãos cadavéricas a bolsa roubada. Ouve atrás de si o corre corre da mulher. Ela vem, ofegante, gritando, Graças a Deus, ai meu Deus, Jesus, e todas as outras divindades de que tinha conhecimento. Quando se virou para entregar a bolsa à sua Dona é que Honório teve a chance de ver pela primeira vez o grande amor de sua vida: Elvira. O cabelo loiro dela reluzia no escuro. Seu vestido, curto demais para ser decente(afinal, que ousadia é mostrar os joelhos!), era tentador. Honório se apaixonou assim que a viu.

“Aqui está sua bolsa”, disse, encabulado. Ela agradeceu a ele e a Deus várias vezes. Repetiu e repetiu muitas vezes agradecimentos. Dizia a ele que a havia livrado de uma grande confusão. Que ela não sabia como agradecer. Ele, entretanto, notou nesse excesso de gratidão, algo de suspeito. A indagou: “Quantos anos tem a senhorita, posso saber?”. Ela ficou em silêncio. “Era o que eu imaginava.” Nesse mesmo momento ela começou a implorar para que ele não fosse tão severo, começou a dizer que só estava tentando se divertir, que tinha dezesseis anos, mas que já era bastante adulta. Honório pensou por alguns instantes… ou melhor, deixou se levar por alguns instantes. Estava encantado pela figura de Elvira. A achava muito linda, a achava a mulher mais linda que já vira na vida. Mentalmente, dizia a si mesmo: “Tenho que me casar com essa mulher.” Quebrando todo o seu protocolo, então, disse a ela que se acalmasse, que ele não contaria para ninguém, contanto que ela o permitisse acompanha-la até a porta de casa. Mais uma vez agradecida, ela disse que sim. Eles esperaram as outras viaturas chegarem para tomar conta do corpo e depois seguiram caminho até a casa dela.

No caminho até a casa de Eva, os dois conversaram sobre o que podiam. Ele a perguntou o que fazia na rua essa hora da noite, e ela o informou sobre a festa a que havia ido com as amigas. Ela o perguntou sobre os deveres de ser um policial. Ele não disse muito, mas ela ficou encantada mesmo assim. Na despedida, ela o deu um beijo na bochecha. Honório anotou o endereço da menina e voltou para o DP, onde ficou até de madrugada preenchendo papéis e papéis, contando exatamente o que acontecera naquela noite. Em nenhum dos relatórios mencionou o nome de Elvira. Como o ladrão era um zé ninguém sem família e sem amigos, as contradições do relatório passaram todas despercebidas.

Passado uma semana dessa terça feira incrível, Honório se dirigiu a casa de Elvira para conversar com os pais da menina. Disse aos dois senhores que queria casar-se com ela e que, apesar de preto por fora, tinha uma alma branca por dentro. Por um ano os pais dela desconversaram. Não negavam o pedido, mas também não confirmavam nenhum. No meio tempo, Honório tentava, as escondidas, se encontrar com Eva. Os dois trocavam cartas. Ele era o mais enxuto possível. Ela, o mais melosa e amorosa que conseguia. Gostava de Honório. Gostava de Honório mesmo ele sendo preto. Ao final de um ano, os pais autorizaram o noivado. Honório e Elvira noivaram por dois anos antes de finalmente se casarem. Ele começou a frequentar muito mais a casa dos sogros do que a casa da própria família. Os irmãos que ainda sobravam – dois, pois os outros três haviam sido mortos, um de tuberculose, o outro em uma briga de bar – achavam estranho essa substituição. Pensavam que o fato de Honório escolher passar as festas na casa do sogro ao invés de com a mãe era um insulto disfarçado, uma negação das origens. “Ele quer ser branco!” diziam. De qualquer maneira, não era o caso. Honório só sentia que deveria constantemente provar seu valor para os sogros, pois até aquele dia não acreditava que os dois haviam concordado com o casamento. Dois anos depois, os dois se casaram. A cerimônia caiu dois dias depois dele receber uma promoção: era agora, primeiro tenente. Desse dia em diante, os dois viveram um casamento saudável, sem muitas brigas e discussões. Se entendiam perfeitamente. Tiveram dois filhos, o primeiro Eduardo, e o segundo Matheus. Eduardo entrara para os bombeiros e atua hoje em Santa Catarina. Matheus, ao contrário do irmão, fizera faculdade de Geografia e hoje dá aulas em cursos preparatórios para o vestibular. Os dois quase nunca vêem um ao outro, devido a distância, e quando se vêem, só conseguem brigar. Nem Honório, nem Elvira, nunca entenderam a relação dos dois. Quando se encontravam, nas primeiras horas, conseguiam conviver bem, até que um começava a apontar os erros do outro e eles começavam a brigar até quase saírem na mão. E a mesma intensidade posta nas brigas dos dois era posta nos adeuses. Matheus acompanhava sempre o irmão até o aeroporto ou até a rodoviária e lá, na porta de embarque, os dois se olhavam, se abraçavam e choravam como duas crianças novamente. O choro de ambos servia de resignação, uma desculpa silenciosa pelos conflitos em que armaram um para o outro. A relação entre os dois irmãos permanece até hoje uma incógnita para todos que os vêem juntos.

– Ontem mesmo – continuou Juvenal, fomentando o interesse dos amigos – eu estava falando com essa minha amiga do Rio de Janeiro.

– Amiguinha do Rio de Janeiro! – repetiu Honório, jocoso.

– É… e ela é de uma gostosura sem tamanhos – disse, enquanto colocava a mão na frente dos peito, para representar o suposto busto largo da amiga – se é que vocês me entendem.

Os três riram novamente.

– Não tem uma foto? – indagou Adalberto.

No mesmo momento, Juvenal afastou o celular do rosto, e começou a bater com o dedo na tela do celular a procura de uma foto. Passados alguns “pera aí” e segundos de procura, ele mostrou o celular para os amigos. Os dois viram a foto e deram risadas.

– Cale a boca! – ironizou, Adalberto, interrompendo os – Você tá tão velho que nem saberia o que fazer com um par de peitões desses.

– A voz da experiência diz o contrário, amigo. Sei muito bem o que fazer com eles!

Apesar de ser tudo uma brincadeira, Adalberto sentia, principalmente no tom de voz do companheiro, que Juvenal não gostava muito dele. Fora do círculo de amigos, os dois nunca conversavam. Eram amigos porque tinham amigos em comum. Adalberto já parou para pensar se tal desgosto não surgiu somente depois de Juvenal saber que ele advogara contra ele no divórcio. Essa ideia, porém, levantava voo para a distante ilha da impossibilidade quando pensava em momentos anteriores à tal revelação. Juvenal nunca o tratara bem. E sempre fora assim, pois não ia com a cara de Adalberto. O jeito mais quieto e recluso do advogado o faziam lembrar de um antigo conhecido de quem nunca gostara: seu vizinho, Roberto.

Na semana em que se mudou para o enorme apartamento com a esposa, Juvenal decidiu que seria um bom novo morador do prédio e foi de porta em porta cumprimentando seus novos vizinhos. Só para dizer um “olá” e ser amigável. Começou pelo primeiro andar, onde residia essa senhora já idosa, que estampava com orgulho um retrato do esposo, antigo taxista, que morrera muitos anos antes, aos cinquenta e três anos – como todos os outros homens de sua família -, vítima de um ataque cardíaco repentino. A senhora o convidou para tomar um café. Juvenal recusou, entretanto, voltou em uma tarde da semana seguinte acompanhado da esposa. Na porta da frente, Juvenal cumprimentou um casal novo, como ele e Zélia. Esse encontro de boas vindas, entretanto, foi um dos poucos, pois nem às reuniões de condomínio eles apareciam. No andar de cima, cumprimentou Edenir, um católico fervoroso, feirante, com quem conversou por longos trinta minutos. O homem não parava de falar nunca. Ele emendava uma história atrás de outra e tinha o talento de transformar uma simples troca de informações em uma conversa que poderia durar horas. Após Edenir, bateu na porta de Dona Geralda, uma senhora meio assustada que nunca falava com ninguém. Seu marido estava em casa sempre, entretanto, era deveras antipático. Ela nunca emitia uma opinião nas reuniões de condomínio. Um andar para cima, o penúltimo andar do prédio, foi que conhecer Roberto. Os dois últimos apartamentos ocupavam cada um um andar do pequeno edifício. Já começou porque Roberto demorou demasiado tempo para abrir a porta e, quando a abriu, a expressão de insatisfação em seu rosto era evidente. Ele já era mais velho, deveria ter um sessenta anos ou mais. Juvenal tentou ser o mais simpático possível, apertou a mão do vizinho de baixo, se apresentou. Ele respondeu: “Isso não é maravilhoso! Um casal que vai foder o tempo todo para o terror dos meus ouvidos! E qual vai ser a boa nova? Uma criança pra chorar de madrugada?!” Juvenal tentou ser compreensivo e admitiu para si mesmo que todo aquele jeito ranzinza era mais um dos fardos da idade. Na hora de se despedir, Juvenal tentou dar um abraço amigável em Roberto, que o interrompeu: “Calma aí, colega! Nós somos só vizinhos, não amantes.” O médico, então, voltou para casa constrangido. Mas teve um bom consolo da esposa na mesma noite. De qualquer maneira, esse primeiro encontro não seria o pior de seus problemas. Conforme os dias iam passando, a convivência com Roberto se tornava insuportável. Ele constantemente batia com uma vassoura no teto dizendo-se incomodado com os passos de chumbo dos vizinhos. Ao mesmo tempo, também, ouvia televisão em um volume tão elevado, e as vezes tão tarde da noite, que acabava acordando Rafael. “Como é que pode?! O velho escuta passos de bailarina cuidadosos e não consegue ouvir uma televisão num volume razoável?!”, reclamavam, Zélia e Juvenal, um ao outro. E não era só isso. Nas reuniões de condomínio, ele parecia ir contra as sugestões do casal por birra. Estava constantemente reportando os dois para o síndico, que na época – e por muitos anos, aliás – era ninguém mais, ninguém menos do que Edenir. Então, quando o síndico vinha lhes puxar as orelhas por alguma reclamação feita por Roberto, os dois, ou quem quer que estivesse na casa na hora em que Edenir decidisse que era um momento propício para aparecer, eram obrigados a ouvir horas intermináveis de histórias e de sermões. Por alguns meses, Roberto recebeu a revista de medicina de Juvenal por engano e, durante todo esse tempo, manteve-se de boca fechada. Quando Juvenal tentou receber as revistas de volta, Roberto disse que já as havia jogado fora. Isso tudo entre tantas outras histórias que Juvenal acumulou ao longo dos anos sobre o pior vizinho que já teve. Quando Roberto, ou, como todos no prédio o chamavam, Seu Bebeto morreu, ele e Zélia, com certa culpa no peito, comemoraram com uma garrafa de vinho.

Mas não era somente no apelido em que Roberto e Adalberto se pareciam. A imagem já velha de Adalberto era muito parecida com a de Roberto. As sobrancelhas que não escureciam eram as mesmas, os olhos azuis, os lábios finos, eram quase iguais. Por algum tempo, até, Juvenal se perguntou se não seriam parentes. Além disso, Roberto, assim com Adalberto, tinha um jeito mais quieto e recluso quando em grupo. Pouco falava, mas quando falava, acabava dizendo algo que, ou ofendia alguém, ou deixava todos de boca aberta. “É que eu sou tão judeu que economizo até minhas palavras.”, ele brincava com a descendência.  E Adalberto, da mesma maneira, era quieto e recluso e, embora ácido, era em proporções menores do que o vizinho de Juvenal.

Adalberto, entretanto, sempre atribuíra o seu jeito ermo e calado a seu pai. Ignácio L, ou Seu Naná, como por muitos era conhecido, era dono de uma pequena fazenda no interior do Paraná. Casou-se, no final do século, com Maria do Socorro, e herdou umas pequenas terras para cultivar café do sogro, que, por azar do destino, não teve um filho homem. Na época da alta do café, quando as exportações para os Estados Unidos eram gigantescas, a fazenda lhe rendeu bons dividendos. Seu Naná, infelizmente, transformou todo o seu lucro em todo o luxo que a família poderia querer. Nas épocas fartas do casamento, engravidou a esposa doze vezes. Para o seu desespero, nenhum dos doze bebês nasceu com um pênis entre as pernas. Eram todas mulheres. Por esse motivo, como bem fazia, Seu Naná, questão de ressaltar, então, as despesas da casa aumentaram ainda mais, pois que, por serem todas mulheres, não tinham mãos de homem – e nem mesmo o dever social – para ajuda-lo nas árduas tarefas que terra exige. Parte do seu lucro, então, ainda deveria ser dividido com outros lavradores “terceirizados”. Foi somente dois anos depois da décima segunda filha que Ignácio engravidou Maria do Socorro do filho que tanto almejava. Ele já andava desesperançado, cabisbaixo, pois cultivava dentro de si a certeza de que nasceria  outra menina, afinal, ele, infelizmente, dera o azar de haver se casado com uma mulher que só sabia fazer bebês do sexo frágil. Nove meses depois, quando viu o pintinho balançando no meio das pernas de Adalberto pela primeira vez, Ignácio não conseguiu segurar a emoção, e foi essa a primeira e única vez que as mulheres daquela casa o viram chorar. Nos anos seguintes, o casal se empenhou em arranjar para todas as suas doze filhas um noivo à altura. Fizeram disso a missão de suas vidas. Quando Adalberto completara cinco anos de idade, já tinha três das suas irmãs muito bem casadas, outras outras seis já arranjadas, e também o próprio casamento marcado. Quando completassem vinte anos, ele e Tulipa, a filha dos R.R., um casal muito bem quisto na cidade, se casariam. Conforme as irmãs iam se casando e saindo de casa para viver com seus respectivos esposos, mais vazia o grande casarão ia ficando. Ele raramente via as irmãs que partiam. Quando elas apareciam, a casa parecia entrar em festa. A mãe e as irmãs que ainda sobravam faziam questão de arrumar e perfumar a casa toda, se distorciam umas as outras, como panos de chão úmidos, à procura de um ambiente que não somente acondicionasse, mas que surpreendesse e confortasse os parentes. De longe, Ignácio e Adalberto somente observavam a correria. O pai dizia assim, meio que sussurrando: “Está aí um mundo que nunca vamos entender.” e ria sozinho. Quando Adalberto completara oito anos de idade, um grupo de teatro amador chegou na cidade para encenar a Paixão de Cristo. Todos na cidadezinha compareceram para a apresentação. Adalberto, Ignácio, Maria do Socorro e as sete irmãs solteiras que ainda restavam foram todos juntos até o centrinho, como costumavam chamar a avenida principal, que era envolta em lojas e era o centro de comércio. A multidão que havia se aglomerado para ver a história de nosso senhor Jesus Cristo era maior do que o esperado, então Adalberto, do alto de seus um metro e trinta, não conseguia assistir ao que se passava. O pai, para sua salvação, o carregou nos ombros, como Cristo bem fez com o cruz. Adalberto, então, assistiu toda a apresentação prostrado nos ombros do pai. E entrou em catarse. Quando, à pedido dos atores, a platéia começou a gritar para que soltassem à Barrabás, Adalberto se esforçou ao máximo para que seus gritos de “Solta Jesus!” chegassem até o palco. Ele gritava por Jesus o mais alto que podia, enquanto lágrimas escorriam suas bochechas de menino. “Solta Jesus!” Lá de longe, do alto do palco, o ator que interpretava Cristo parecia olhar com espécie de piedade e tristeza para Adalberto. Foi nesse dia que o futuro advogado se apaixonou pelo teatro. Quando caiu em plena consciência de que tudo aquilo não passava de uma encenação, de que aquelas pessoas que viu eram somente atores, Adalberto se viu intrigado pela arte de atuar. No caminho para a escola, recitava as palavras de Cristo que ouvira da boca do padre, tentando soar como filho de Deus. E apesar de saber muito bem que tudo aquilo não passava de uma encenação, as emoções que nele foram despertadas ao ver Cristo ser crucificado, ao vê-lo cair três vezes e morrer por nós foram tão ferrenhas e devastadoras, que daquele dia em diante, pelo resto de sua vida, Adalberto não deixou de ir à missa aos domingos nenhuma vez sequer. Não… minto… houve um domingo, e um domingo somente, em que ele não pode ouvir o sermão do padre. O domingo mais inesquecível de sua vida.

Aconteceu quando Adalberto tinha treze anos. Antes de chegarmos nessa instancia, porém, é necessário explicarmos sobre a existência da terrível figura de Maneco da Bala. Manuel Andrade da Silva, mais conhecido por todos como Maneco da Bala, era um pistoleiro profissional que vivia na região. Ninguém sabe ao certo, até hoje, o lugar em que o homem pousava os olhos e dormia, pois ele não tinha residência fixa. A maior parte do tempo, era somente visto ou no bar do Portuga, enchendo a pança de cachaça, ou montado em seu imponente cavalo marrom, o Ianque. O cavalo ganhara esse apelido por causa de sua origem. Dizia Maneco que, quando viajava pelo interior de São Paulo, topou com alguns comerciantes estadunidenses que faziam o caminho até o porto de Santos. Maneco prestou serviço de proteção para os americanos e, como prêmio pelo serviço tão bem prestado – pois que no caminho, haviam passado por alguns altos e baixos -, além do pagamento, é claro, recebera o cavalo, ainda sem nome e uma camisa do New York Yankees. Alguns anos depois, Maneco chegou ao pequeno município de A(*Nota do Autor – O nome das cidades em que os fatos tomaram lugar também serão omitidos em respeito à privacidade dos envolvidos), onde, já mais velho, decidiu que era tempo de repousar. Não escolhera, também, a cidade por acaso. Não ficava ali somente porque era um homem procurado e porque nem o delegado da cidade ousava entrar em seu caminho, mas também porque tinha garantida a própria segurança. O General Taubaté, como era conhecido o Doutor Lorenzo T. C. Neto, era um grande dono de terras da região. A agricultura era praticamente dominada por ele, que, além de muito dinheiro e respeito, tinha nas próprias mãos um poder arbitrário maior inclusive do que o prefeito eleito da cidade. Era quem mandava no lugarejo. Se queriam construir uma casa, ou simplesmente cercar algum terreno, quem antes de todos deveria ser consultado era o General Taubaté. Recebera esse nome, de Taubaté, pois a família viera dessa região. Herdou do avô, tanto a fortuna quanto o nome, embora não tivesse nenhuma formação militar e o usasse com tanta garra que acabava por criar uma espécie de cólera nos militares da cidade. Era um homem já por volta de seus cinqüenta anos, e havia tido um filho uma única vez, o jovem Mathias, que, como ele mesmo dizia, por sorte, só herdaria as terras e não o nome. General Taubaté não andava a cavalo ou a carroça, mas de carro. E fazia isso, as vezes, no meio da madrugada, somente para acordar os moradores com o barulho do motor e das buzinas. Entretanto, não dirigia. Tinha consigo um subordinado à quem chamava por Negro Passarinho, um negro velho e curvado que raramente era visto perambulando sozinho. Passarinho não tinha esposa nem filhos. Ninguém sabia a sua história de vida. Ele, também, fazia questão de se manter em silêncio. Somente uma vez, em um dia de natal, quando General Taubaté o havia dispensado é que, bêbado, contou à alguns comerciantes que era filho de escrava e que foi solto por causa da lei do ventre livre. Já estava velhinho, velhinho. Os cabelos brancos destoando a pele preta. Mas continuava, firme e forte, dirigindo-se as pressas à toda ordem dada pelo General. Era um negro de confiança, entretanto, não era mais forte como antes fora. Por essa razão, General Taubaté se via necessitado de um braço direito forte e frio. E o Maneco da Bala apareceu na ocasião certa. Maneco, ou Manecão, como o chamava o General, não costumava andar muito ao lado de Taubaté, como o negro Passarinho fazia, mas estava sempre atento às ordem do Doutor. Quando era chamado, não falhava a ocasião: em menos de cinco minutos ele e Ianque já estavam prostrados na porta da frente, a espera de suas ordens. Começou fazendo pequenos trabalhos, segurança no transporte de cargas até a região portuária. Com o tempo foi ganhando a confiança do General até que começou a administrar, no lugar do Negro Passarinho, a segurança das festas que Taubaté insistia em dar. Depois de alguns anos de serviço é que o General o teve como uma espécie de braço direito. Começou levando-o consigo para conversar sobre uma dívida que um dos moradores da região lhe devia. Para testar a fidelidade do caboclo, o General pediu para que ele cortasse a mão do endividado, tarefa que Maneco da Bala cumpriu no exato instante que foi mandado, sem hesitar ou mesmo piscar os olhos. Desse dia em diante é que Maneco da Bala ficou encarregado de fazer com que os endividados pagassem suas contas em dia. E era infalível. Com alguns anos de serviço, todas as dividas eram pagas em dia. Ninguém se atrevia a deixar as coisas saírem dos eixos e ser sujeitado à ira do General Taubaté. Foram anos de “prosperidade e honestidade”, como bem relatava General Taubaté anos mais tarde, em uma carta que enviara para Adalberto L., “até aparecer Ignácio L., seu pai.”

Já fazia algum tempo que Ignácio L não estava bem das pernas. A plantação já não rendia muito dinheiro e a família, entretanto, não saíra do luxo com que se acostumara. Por essa razão é que, também, ele era quem mais se empolgava para ver as filhas casadas: as queria fora de casa, pois isso significaria menos bocas a serem alimentadas, menos dinheiro a ser gastado e uma facilidade maior na hora de manter o conforto com que ele e a esposa se acostumaram. Maria do Socorro, entretanto, nada sabia do assunto. Quando perguntava ao esposo sobre as questões monetárias da família, sempre era surpreendida pela imagem do mesmo irritado e não querendo falar sobre isso. Tanto insistiu e nada conseguiu, que depois de alguns anos desistiu de perguntar ao marido sobre a situação financeira e simplesmente começou a assumir, sem mais nem menos, que estavam na bonanza, mesmo vendo as fundas olheiras e a falta de sono do esposo. Ignácio já estava endividado com os bancos da região. Não conseguia mais crédito algum. As colheitas, entretanto, eram mais do que suficiente para manter a família na condição financeira em que se encontravam. Tudo que não poderia acontecer, entretanto, eram imprevistos. Se, por algum acaso, acabassem por perder metade das plantações, iriam chafurdar na lama e veriam toda a propriedade desaparecer. Eis que o imprevisto acontece. Em um dos invernos mais rigorosos do século XX, eles perderam setenta por cento da plantação.  Sem dinheiro para manter a própria família, começou a vender jóias e móveis e pedaços de suas terras para ir quitando as dívidas e tentar manter o padrão de vida. Todo seu esforço, entretanto, estava sendo em vão. A hipoteca da casa já estava vencendo e os banqueiros da região já estavam a ponto de desalojar ele e a família quando Ignácio decidiu recorrer ao General Taubaté.  Foi até a casa do todo poderoso em uma tarde sol de terça feira e, contando a história de um invento que iria facilitar os meios de produção, convenceu o General a lhe emprestar dinheiro suficiente para que ele pagasse a hipoteca da casa e se mantivesse de pé por seis meses. Foi um alívio para ele, de certa forma. Mas, é como diz o ditado: alguns bens vêm para o mal(?). Passados os seis meses, Ignácio via-se em uma situação da qual não conseguia sair, uma sinuca de bico. Já havia gastado todo o dinheiro do empréstimo, da mesma maneira que não havia nenhum invenção miraculosa que iria revolucionar a agricultura, não existia nenhum dinheiro a ser repassado para General Taubaté. A insônia de Ignácio voltou, suas olheiras voltaram e ele andava de um lado para o outro meio paranoico.

Adalberto, no fatídico dia, já tinha por volta dos seus treze anos, foi acompanhar seu pai na feira. Era uma manhã de sábado e, enquanto se divertia chutando sacos de sementes, o pai andava de um lado para o outro, sempre com uma mão no facão que carregava consigo e que manteve o mais afiado possível. Ignácio sabia o que acontecia com endividados. E estava com medo de seu destino. Tinha mais medo ainda de ser empalado, e por tal razão, cultivava dentro de si a ideia de que conseguiria se defender de quem quer que fosse. Andando na feira, enquanto negociava com um feirante um preço mais modesto pela melancia que estava prestes a comprar, viu, com a periferia de seus olhos, três homens que os cercavam. O triangulavam, estavam, cada um, a mais ou menos vinte passos de distância dele. Eram homens do General Taubaté, não restava dúvida. Logo, e Ignácio tinha a sensação disso, ou iria matar, ou iria morrer. Mantinha-se de olho nos dois homens da frente quando sentiu uma mão tocando seu ombro e um cano tocando as suas costas. Não pensou duas vezes, com medo de ser baleado deu meia volta e enfiou o facão na garganta do homem que se prostrava atrás de si. Para sua surpresa, tal homem, era Mathias, filho único do General Taubaté, que caiu morto na hora, sem ter chance de disparar a própria arma. Vendo o tamanho da burrice que acabara de fazer, Ignácio ficou atônito, olhando para o vazio. Os outros dois caboclos, entre eles, o próprio Maneco da Bala, fizeram questão de amarrar as mãos dele e o levar consigo. Foi a última vez que Adalberto viu o pai. Somente se lembrava do olhar apavorado dele seguindo em direção a casa do General Taubaté. Adalberto correu para casa e, vendo a mãe e as irmãs em casa, manteve-se em silêncio. Não demorou muito para que a notícia de que Ignácio havia matado Mathias corresse a cidade toda e chegasse na casa dos L. Maria do Socorro, entretanto, não se preocupou, pois jurava de pé junto que isso era mentira da vizinhança, que logo seu marido chegariam em casa e que teriam um ótimo jantar.

Já havia anoitecido e Ignácio ainda não havia retornado a casa. As filhas estavam todas preocupadas, mas Maria do Socorro respondia dizendo, “Seu pai é assim mesmo. Logo, logo ele volta.” Adalberto, escondido no próprio quarto, não deu um pio sobre o assunto, não falou sobre nada do que vira e nem do medo que carregava. Sentia que, se acaso contasse à mãe e as irmãs sobre o ocorrido, um destino ainda pior do que o de Mathias estaria reservado tanto à ele quanto as irmãs e à mãe. Mal sabia o que os aguardava. Na mesma noite, pouco antes da mãe servir o jantar, Adalberto saiu de casa para ir até o banheiro. Quando mais jovem, uma das irmãs sempre o acompanhava com um candieiro reluzente, para que pudesse ver o caminho a sua frente. Com o passar dos anos, entretanto, Adalberto foi perdendo o medo do escuro e já fazia o caminho sozinho, somente com a iluminação da lua. Já havia decorado cada canto do jardim, e conseguia, então, fazer todo o caminho sem problemas. Embora a mãe insistisse que ele fizesse o caminho com luz, ele ignorava as súplicas e ia assim mesmo. Na noite da tragédia não foi diferente. Ele saiu de seu quarto, em silêncio, e no completo breu da noite foi fazer suas necessidades na casinha. Ficou lá por alguns minutos e quando estava terminando o serviço, começou a ouvir gritos vindo da casa. Era um som abafado pelas janelas, mas eram definitivamente gritos. Ao abrir a porta da casinha, viu o jardim da casa todo iluminado. Chamas se espalhavam por toda a extensão dos jardins. Antes de ir até a casa, com medo, foi até os estábulos e viu todos os cavalos, e cachorros, e porcos, e vacas, e galinhas, mortos, degolados. Um mar de sangue se banhava o lugar.  Viu dois homens vindo em na direção do estábulo e se escondeu atrás de uma tora de madeira. Enquanto ouvia os dois homens conversando sobre aventuras baloeiras, um cheiro intoxicante de gasolina subiu suas narinas. Os dois homens saíram do estábulo e em questão de segundos ele se via cercado em chamas e ouviu o “crack” da madeira ao seu redor. Pulou pela janela silencioso e se dirigiu em direção à casa. Pela janela, ele viu somente a cozinha, vazia, com todos os móveis virados de cabeça para baixo. Foi em direção a próxima janela, de onde via ouvia os gritos. Soturnamente, levantou a cabeça e viu uma das irmãs, virada com a bunda para cima, com o vestido levantado e com um homem de mais ou menos dois metros e muito forte, a violando. A imagem o espantou tanto que foi obrigado a sair correndo de lá e começou a andar agachado pelo matagal que cercava o lugar. Estava quase conseguindo sair de casa quando topou com a chama de um cigarro em sua frente. A luz batia em seus olhos e iluminava suas pernas por trás da moita. A imagem de um homem em contra luz, parecia observa-lo. Ele colocava o cigarro na boca e soltava uma rajada de fumaça. Adalberto sabia bem quem era esse homem. Era o Maneco. Por trás das folhas, tentando não emitir som algum, ele via Maneco, alto e forte, fumando seu cigarro. Da contra luz, podia ver só a silhueta do homem, mas cada vez que tragava, ele via os olhos grandes e atormentadores. “Ô!”, disse o homem uma vez. Adalberto não se moveu. “Ô!”mais uma vez. Adalberto tentava manter-se o mais silencioso possível. O homem deu mais um trago, o último no cigarro. A luz vermelha evidenciava que Maneco olhava para ele, que estava de olho nele. E não tinha como não estar, afinal, sua perna estava sendo iluminada atrás das folhas. E depois de soltar a fumaça, o homem disse mais uma vez: “Ô!”, e Adalberto mais uma vez não se moveu. Maneco, então, vira-se de costas e olha o fogareiro ao seu redor. Adalberto não pensou duas vezes e correu o mais rápido que pode na direção oposta. Correu e correu como nunca. Pensou em ir na casa de uma das irmãs, mas pensou que isso só iria piorar tudo. Com medo, com o rabo entre as pernas, o lugar que veio-lhe então, em mente, era o centro da cidade. Ele poderia se esconder por lá durante a noite e de dia dava um jeito de fugir da cidade para nunca mais voltar. Ao chegar no centro, para sua sorte, topou com o grupo de teatro amador, que naquela ocasião em especial, havia recém chegado à cidade. Apavorado, bateu nas portas do caminhão até que o grupo de atores o atendesse. Uma mulher abriu a porta do caminhão. Seu nome era Cândida. Ela ouviu toda a história das bocas do menino e antes mesmo do dia amanhecer, Adalberto partiu com o grupo de teatro rumo à capital. Dentro do ônibus, não conseguiu dormir. Não havia ainda se convencido do que tinha acontecido. Sua única preocupação residia no fato de ter perdido a missa de domingo.

Cândida, ao chegar na cidade grande, largou as viagens que fazia com seu grupo para cuidar do garoto que achara naquele fatídico dia. O alimentava e trabalhava como assistente de palco a noite, e atendente de farmácia de dia. Nunca perguntou para Adalberto sobre o que acontecera. Nunca se sentiu confortável o suficiente para perguntar o que tinha acontecido. Já com seus quarenta anos e sem filho algum, se contentava com o fato de ter alguém para cuidar. Ela o amava. Não sabia porque exatamente, mas o amava como uma mãe ama um filho. O havia adotado, realmente. Com esforço, Adalberto começou a trabalhar e, com ajuda de sua mentora, conseguiu terminar o ensino médio e entrar na faculdade de direito. Anos mais tarde, morando sozinho, Adalberto agraciou Cândida por toda ajuda que lhe dera. Ela, entretanto, já abatida com a idade, não pode aproveitar direito nem dinheiro e nem a casa que lhe foram concedidos falecendo alguns meses depois.

Adalberto viveu como pôde. Por alguns anos pensou em trocar de nome e voltar a cidade, procurando as irmãs que sobraram, mas não o fez com medo de ser reconhecido. Quando se olhava no espelho, via a imagem do próprio pai, e imaginava que, se ele mesmo percebia tamanha semelhança, as pessoas que conheceram seu pai também o iriam.  Foi nos meados de seus cinqüenta anos que Adalberto finalmente descobriu tudo o que acontecera naquela fatídica noite. E não porque procurara, mas porque fora procurado. Ele ainda guardava graves lembranças e traumas daquela noite. Não havia um dia em que não se lembrasse ou tivesse pesadelos. Quando achava que tinha deixado tudo para trás, alguém na rua gritava “Ô!”, para lembra-lo do terror que sentiu. Foram anos infrutíferos tentando superar a perda, até que recebeu uma carta. Chegava em casa do trabalho de mais um dia cansativo. Abriu a missiva, endereçada à ele. Era do Dr. Lorenzo T. C. Neto. Adalberto leu as páginas escritas à mão que explicavam tudo que havia acontecido. General Taubaté, naquele sábado, havia designado o filho para seguir as ordens de Maneco. Ele pensava que já era a hora de Mathias se tornar um homem e que, para isso, ele deveria aprender a fazer o trabalho sujo. Lorenzo não pensava que o filho iria morrer naquele dia, especialmente sobre as guardas de Maneco. O destino, entretanto, foi o vilão da história.

Ao contrário do que se pode imaginar, na carta endereçada a Adalberto não constava nenhum pedido de desculpas. Somente uma justificativa: “Foi feito o que deveria ser feito. Meu avô agiria da mesma forma, e meu pai também. Portanto, não guardo nenhum arrependimento.” A carta também revelava que General Taubaté por muitos anos procurou Adalberto, querendo matá-lo, como fizera com cada criatura viva da casa de Ignácio. Infrutífero em suas buscas, desistiu dela com o passar dos anos. Mas não deixara por menos. Cada uma de suas irmãs, as que já estavam casadas e não mais moravam naquela residência, já estavam todas enterradas. Lorenzo se justificava dizendo que lhes havia proporcionado uma morte rápida e indolor. Adalberto até tentava com alguma disciplina, mas não acreditava nele.  General Taubaté terminou a carta contando o que lhe havia acontecido. Havia perdido todas as terras da família, pois caíra em uma depressão tão grande proporcionada pela morte do filho e pela falha vingança(já que o único filho de Ignácio continuava solto por aí), que perdera a aptidão para os negócios. Dizia que estava pobre, apodrecendo, vivendo de favor na casa dos amigos que ainda lhe sobravam, constantemente se mudando. Terminava mandando o endereço atual, e dizia que se Adalberto o quisesse encontrar para mata-lo, que ele não iria se opor e que iria morrer com dignidade, pois que era direito adquirido de Adalberto vingar o pai e a família.

Por alguns meses, para não dizer anos, Adalberto considerou seriamente a sugestão do General. Antes de dormir, principalmente, passava horas pensando em como proporcionar uma dor tão grande quanto a que sentiu no domingo seguinte e nos anos posteriores. Chegou até a comprar material de caça, cordas, baterias de carros e ferramentas para colocar a vingança em prática, mas as suas idas à igreja nos domingos sempre o faziam mudar de ideia. Havia algo na imagem de cristo crucificado que o impedia de seguir em frente. A crise mais forte foi dois anos após o recebimento da carta, quando Adalberto estava convencido a ir até o endereço informado e terminar com a vida do General. Ele se justificava dizendo que para Jesus era fácil perdoar, pois fora ele quem morrera na cruz, e não a humanidade que ele tanto amava. Foi convencido no confessionário pelo padre da catedral, doutor em psicologia, Maciel, a deixar o ódio de lado e seguir em frente, como bem conta o próprio em alguns escritos achados em seu quarto. Passaram-se mais alguns anos sem angústia, até que Adalberto recebera outra carta de Lorenzo. Essa, ao contrário da outra, não era longa e cheia de histórias, dizia somente: “Troquei de endereço. Se ainda quiser se vingar estou morando na Rua ‘X’ número ‘abc’.” A casa onde o General agora habitava era mais próxima que a anterior, o que aumentava a angústia de Adalberto que, para pensar melhor e refletir sobre os próximos passos, foi falar novamente com o padre Maciel. Por sugestão do clérigo, tudo o que fez foi escrever uma carta em resposta com as três palavras as quais mais teve dificuldade de escrever na vida: “Eu te perdoo.” Alguns meses mais para frente, ainda trabalhando, Adalberto recebeu no próprio escritório a figura velha de Lorenzo. Mal podia acreditar, aquele que matara sua família anos atrás estava sentado na sua frente. General Taubeté, nessa época, já não mais aparentava ser um homem forte, estava velho, corcunda, andava com uma bengala a uma velocidade inacreditavelmente lenta. Seus cabelos não mais estavam na cabeça, tinha a cara totalmente lisa. Adalberto teve de se concentrar por alguns segundos para reconhecer a imagem do homem. O início da conversa foi bastante intricado, cheia de silêncios perturbadores, até que Lorenzo o estendeu a mão e, com os olhos cheios de lágrima disse: “Obrigado. Você me deu uma lição muito grande. Queria eu ser forte como você foi.” E nesse momento, foi como se toda a aflição de Adalberto despencasse do alto de uma colina. Dali para frente, o General o fazia visitas semanais, toda a sexta feira, e os dois conversavam sobre as amarguras da vida. Não que Adalberto realmente o tivesse perdoado, mas saber pelas angústias pela qual Lorenzo havia passado, era, para ele, como matar o homem de forma dolorosa. Conversavam sobre histórias do interior. General Taubaté o contou sobre tudo o que aconteceu com todos os seus homens. O trágico fim de Maneco, que se matou de desgosto, deixando uma carta ilegível para trás, a morte de  esposa pelas suas próprias mãos, e o fim negro de Negro Passarinho, que morreu de intoxicação alimentar. Sobraram para Lorenzo ainda mais alguns anos de vida. Adalberto, uma noite, recebera uma ligação o informando que o General havia morrido durante a noite, por uma falha cardíaca. Só recebera essa ligação, pois estava explicitado no testamento do velho que Adalberto deveria ser informado e encarregado do enterro. Ao saber de tal obrigação, ele foi procurar novamente o padre Maciel, que se havia mudado para outra igreja. Mas recebeu a notícia de que ele também havia falecido. Pensou por um bom tempo e sepultou General da mesma maneira que queria ter sepultado a família: um enterro cristão. E naquela lápide foi que Adalberto enterrou não somente Lorenzo T. C. Neto, mas toda a família.

Agora, quinze anos mais tarde, sem muitos remorsos no coração, mais ainda amargurado, ele se via sentado ao lado de dois amigos de ocasião, conversando sobre mulheres e tecnologia. Durante os vários minutos de espera ele se perguntava o que é que estava fazendo ali, mas mesmo assim, continuava sentado. Via o sol do meio dia batendo forte em tudo e em todos, reluzindo na careca dos dois colegas e, embora se mostrasse bastante interessado no assunto, não dava a menor importância para as histórias de Juvenal. Quando já estava bufando de tédio é que ouviu uma voz suave irrompendo atrás de sua nuca.

– Quando eu fiz meu aniversário de vinte antos, me disseram que a vida só começava aos trinta. Quando fiz trinte, foi-me dito que somente começava aos quarenta. Aos quarenta, me convenceram que a vida só começava aos cinquenta. Aos cinquenta, era aos sessenta. Aos sessenta era aos setenta. Bem, senhoras, hoje, que tenho setenta e três anos de idade é que vos digo e confirmo: a vida mal começou. E dizem por aí que ela só começa mesmo aos oitenta! – Era Paulo. Seu semblante era reluzente. Ele alegrava a todos com seu sorriso fácil e seu jeito conversador, humilde, por mais sábio que fosse. Sua barba branca refletia a luz do sol, e seus óculos escuros contrastavam com o grande par de óculos escuros que cobriam seu rosto.

– Isso aí é óculos escuro de grau? – Pergunta Juvenal, intrigado com a capacidade com que o homem cegueta, cujos olhos normalmente ficam gigante no rosto, andava.

– Que nada! São meus óculos normais. Gastei uma dinheirama na ótica pra fazer ele ter dessas lentes que escurecem sobre o sol.

– Quanta tecnologia! – exclamou Honório.

Por trás dos dois amigos, Adalberto mostrava um pequeno sorriso no rosto. Estava, pela primeira vez em muito tempo, contente.

E, batendo as mãos, com um delicioso sorriso no rosto, um sorriso que representava toda a excitação dos quatro amigos com as aventuras que o futuro guardava, com toda incógnita que o tempo, essa maldita linha que só segue em uma direção, faria questão de revelar, para o deslumbre dos olhos de todo ser humano, Paulo indagou: “Estão todos prontos ?”

A Flauta


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Os fatos que aqui relato se deram em velocidade tão extrema, que não posso garantir com certeza a veracidade literal do meu relato. Meu estado alterado devido ao alto teor alcoólico que ingeri tal noite turva minhas memórias, entretanto, farei todo o possível para acessar com sucesso os arquivos de minha mente e vos relatar a história como de fato me lembro. Contudo, já adianto, há a possibilidade de que nada disso seja exatamente real.

A noite já estava em seu fim. Ao longe, era possível observar a luz do sol banhando o topo dos prédios. Meus amigos já haviam deixado o bar há muito tempo. Faziam algumas horas que eu bebia sozinho enquanto chorava por alguma possibilidade que nunca passou de uma possibilidade.

Enquanto tomava mais um gole do meu copo de uísque naquele bar mequetrefe e cheio de muquiranas que só pensam em arrancar a grana de quem quer se divertir cobrando oito reais por uma lata de cerveja, um daqueles garçons idiotas, com a cara mais estúpida que eu já vi na minha vida, se aproximou de mim e, ao meu ouvido, sussurrou:

– Senhor, o bar já vai fechar.

O olhar idiota daquele sujeito, a maneira com que os cabelos do lado de sua cabeça começavam a embranquecer me deixavam possesso. Quem é ele pra dizer que eu tinha de ir embora?! Eu poderia, no mínimo, ainda tomar mais algumas doses e fumar mais alguns cigarros antes de ser expulso dali. Tenho certeza que esse ato ultrajante contra o meu direito de me embebedar só aconteceu porque o gerente ou o dono daquela budega não estava ali e os funcionários, preguiçosos e vagabundos, estavam armando um complô pra voltar pra casa mais cedo.

Pressionado pelas palavras impertinentes de um funcionário vadio, eu fui obrigado a deixar o meu assento e ir até o caixa para pagar a minha conta.

Para a minha surpresa, ela foi um pouco muito(?) mais alta do que eu esperava. Botei tudo no cartão de crédito. A minha versão do mês que vêm que lide com a situação de estar devendo mais de setecentos reais.

Saí daquele bar idiota em que cobram tão caro só pelo prazer de cobrar tão caro e decidi voltar para casa. Fui até o local onde havia estacionado meu carro, estava cambaleando de bêbado, mas por alguma razão, eu tinha dentro de mim a certeza de que conseguiria dirigir até a minha casa. Para minha sorte, eu não consegui encontrar as chaves do carro. Então fiquei ali, sentado no meio fio, chorando por ser tão imbecil ao ponto de perder a chaves do carro.

Passados aqueles minutos de luto, percebi que se não começasse a andar, era capaz de eu acabar dormindo ali mesmo, na calçada, na sarjeta, feito um viciado em crack ou coisa pior.

Me levantei e comecei a andar para aquele antigo ponto de ônibus que há tanto tempo não via.

Quando a gente anda muito de carro, a gente acaba não reparando na altura dos prédios. Eles são altos. Muito altos.

Eu sei que parece besteira dizer isso, mas é que é de ficar tonto.

Tudo bem que eu também já não estava no meu melhor estado de consciência, que eu cambaleava um pouco, mas a sensação de olhar para um prédio de mais de cinquenta andares ao lado de outro de trinta e de estar circundado por uma infinidade deles é, mesmo quando sóbrio, nauseante.

É como quando a gente se percebe num barquinho pequeno no meio do oceano. O que te deixa tonto não é tanto o ondular, mas a imensidão de água que te cerca. Meio que faz você perceber o quão insignificante você é. O quão estúpido você foi ao reclamar da maneira como o cara que trabalha no biombo ao se lado respira. No fim das contas, você se apercebe como tão idiota quanto um garçom de um bar decadente e que cobra caro demais.

Meus passos bêbados seguiram por quadras e mais quadras, no breu da aurora. Devagar, o sol ia se levantando. Num desses prédios com vidros espelhados, era possível ver o grande círculo alaranjado subindo devagar.

Alguns postes aqui e ali já começavam a apagar suas luzes. As boates, espalhadas em cada esquina, já não tinham filas enormes e era possível ver alguns casais saindo de lá de dentro e se incomodando com a claridade não tão ameaçadora do início do dia.

Enfim, cheguei a catedral central. As grandes torres apontado para o céu, mas nem um pouco tão intimidadoras quanto os arranha-céus.  É incrível como a igreja perdeu seu poder com o passar dos anos.

As grandes portas de madeira maciça e pesada estavam fechadas. Os vitrais ornamentados brilhavam e reluziam. E na frente dessa esplendorosa visão divina, tomando toda a grande e luxuosa escadaria de mármore, estavam os moradores de rua, aninhados, quase que um em cima do outro, enrolados nos próprios cobertores, tremendo de frio. Eram tantos, mas tantos, que nem era possível ver aquela escadaria branquinha e sofisticada. Praticamente, cada degrau abrigava famílias inteiras. Era muito peculiar.

Por alguns instantes, pensei em me juntar a eles. Sabe?, entrar na diversão. Eu estava com sono e bêbado e caindo aos pedaços. Mas por alguma razão, alguma coisa dentro de mim me disse que não seria uma boa ideia. Ainda faltavam alguns bons quarteirões até o meu tão amado ponto de ônibus.

Minhas pernas estavam tremendo. Eu já não conseguia mais andar direito. Precisava respirar. Me sentei, então, em um banco de praça, um desses com inúmeras faixas de madeira paralelas.

O dia continuava frio. Meus pés estavam congelando. Aquela típica fumacinha de dias frios pulava toda vez que espirava. Meu nariz estava congelando. Podia sentir o vento batendo nele devagar. Com meus braços totalmente abertos, relaxei naquele banco de praça. Penso até que posso ter cochilado em algum momento. Entretanto, minha memória sobre os detalhes mais sórdidos dessa ocasião estão tão nebulosas que nada posso eu garantir.

A única coisa da qual me lembro, e em detalhes, era o rosto desse homem que, sorrateiramente, começou a se aproximar. Ele era magro, muito magro. Estava todo vestido em marrom, naquele tom bege de couro… bem… suas vestimentas eram de caubói. Usava daquelas calças e casacos com tiras de couro pendendo aos lados. Entretanto, ao invés de um lustroso par de botas com esporas brilhantes penduradas e prontas para judiar de um animal, ele usava, estranhamente, um par de mocasines que pareciam o incomodar muito. Pareciam grandes demais para seus pés. Ele andava como se tivesse cagado nas calças, e eu tenho quase certeza que ouvia o som de um leve trotar.

Por baixo daquele casaco espeço de pesado de couro, era possível ver – não!, na verdade era evidente, muito evidente, a brega camisa havaiana cheia de flores. Contrastando com isso, de um grande colar que se pendia ao seu pescoço, havia aquela imensa e dourada estrela de Davi.

O que eu posso dizer? Ele era uma caricatura viva!

Os olhos desse homem eram negros e enormes. Muito grandes. Ao redor deles, a pele era afundada e escurecida, como se não dormisse há muito tempo. Rugas estavam aqui e ali. E ele era magro. Não tinha bochechas. Era só pele e osso. Deixava ainda crescer um pouco de barba no queixo, tão bem penteada que fazia com que não conseguisse olhar para ele sem lembrar de uma cabra.

Acima das sobrancelhas enormes e grossas, havia aquela cabeleira gigantesca. O cabelo era muito comprido.  Estava amarrado em rabo de cavalo, deixando o formato fino da cabeça bem evidente. Duas saliências se escondiam por baixo dos cabelos, como se fossem dois chifres apertados por muito cabelo.

E lá estou eu, sentado em um banco de praça, encarando os moradores de rua tremendo de frio na escadaria da igreja quase como se tivessem combinado uns com os outros que todos iriam dormir ali exatamente para aquela ocasião, quando eu vejo essa figura que vos acabo de descrever saltitando em minha direção.

Não, você não leu nada errado. Esse homem, tão peculiar em suas vestimentas, vinha saltitando em minha direção. Saltitando, como a própria Dorothy minutos antes de conhecer o Mágico de Oz.

Sem entender direito a cena, permaneço parado, só para ver o que vai acontecer. Esse homem vem até o banco em que estou sentado e, se curvando, me saúda.

– Bom dia, Senhor!

Eu aceno com a cabeça, meio tímido.

– Gostaria de ouvir uma poesia nesta linda manhã de maio?

– E essa poesia vai me custar quanto? – pergunto, preocupado.

– Nada, Senhor. Essa poesia vem de graça.

– E por que você está fazendo isso de graça?

– Pois, Senhor… – ele se senta ao meu lado e começa a bater com o indicador no queixo – O Senhor sabe qual o maior desejo de um texto poético?

Ainda meio embriagado respondo: – Não!

– O maior desejo de toda poesia que existe no mundo é o de ser recitada. Principalmente aquelas que se caracterizam por serem assim: sonoras. Quero dizer, existem as visuais, mas elas são as que se contentam em ficar em uma estante, mesmo preferindo uma parede ou uma moldura. – Eu o interrompo com um suspiro. Ele toma meu tédio como sinal para que continue – Entretanto, a poesia que brinca com o som e com a atuação, essa quer ser libertada das grades de uma estante, do cárcere das páginas amareladas. O Senhor entende, não entende?

– Mas é claro! – respondo de forma irônica. O homem, entretanto, parece não entender o meu sarcasmo e, com os olhos cheios d’água, me indaga:

– Então quer dizer que posso recitar alguns versos?

Eu mal faço que sim com a cabeça e o home já se levanta, todo excitado com a possibilidade de me recitar alguns versos. De dentro da bolsa que carrega consigo, o homem tira uma flauta transversal e a aproxima dos lábios.

– Eu não estou entendo nada – o interrompo, fazendo com que não dê o primeiro sopro – O senhor não ia recitar uma poesia?

– Mas é claro. Eu vou recitar uma poesia.

– Então por que está com essa flauta na mão?

– Bem, eu vou recitar a poesia com essa flauta.

Eu dou algumas gargalhadas.

– Qual é a graça?

– Poesia se recita com a boca! E não com instrumentos. – eu estava tão bêbado.

– E eu vou tocar essa flauta com qual parte do meu corpo exatamente?

Nessa hora eu me calo. De repente, aquele moço superexcitado havia se tornado uma pessoa áspera e irônica. O que é bem irônico, pra falar a verdade.

Ele, novamente, volta a aproximar a flauta da boca.

– Espere, espere um pouquinho – eu novamente o interrompo.

– O que foi dessa vez?

– Você não vai nem me dizer qual é o tema da poesia? – ele parece surpreso. – Não vai me deixar ao menos escolher o tema?

– O senhor quer escolher o tema?

Eu penso por alguns segundos.

– Na verdade não…

– Vamos, sugira um tema.

Eu começo a pensar. Olho para o céu. Ele já está azul. Não há sequer uma nuvem no céu. Olho ao meu redor. A praça que, há alguns segundos estava vazia, começa a ter algum movimento. Devagar, pessoas vão descendo dos pontos de ônibus da proximidade e começam a dar algum movimento àquele lugar antes quase morto, como um cenário do velho oeste. Pombas começam a descer da copa das árvores, dos ninhos que fizeram nas lajes e começam a descer e comer chicletes velhos presos no chão.

No meio disso tudo, eu revejo a escadaria cheia de moradores de rua passando frio. É uma cena triste. Logo aquela praça iria encher e eles seriam despejados dali de uma maneira cruel. Seriam acordados pela repentina elevação no fluxo de automóveis, com as buzinadas e até xingamentos.

Vendo aquele povo longe de casa, sem casa, na verdade, sem esperança e calor, uma ideia me vem à mente.

– Faça o seguinte – sugiro ao homem – ao invés de recitar a poesia para mim, recite para eles. – e aponto para o grupo que dorme na escadaria.

O homem começa a rir. Começa a rir freneticamente. Dá longas gargalhadas e depois me pergunta:

– Eles?! – e ri mais um pouco. – Você quer que eu recite uma poesia para eles?!

– Mas é claro. Por que não?

– Por que não?! – O sorriso que antes fazia parte de sua feição desaparece. Agora ele estampa um olhar sério. Seus olhos ainda estão lacrimejando. Por alguns instantes penso que isso deve ser algo natural para ele, afinal, tem olhos tão grandes. – Olhe para eles, Senhor! Só olhe!

Eu os olho. Levanto os ombros.

– O Senhor realmente acha que eles conseguiriam apreciar a verdadeira arte?! Eles?! Só olhe para eles e me diga!

Eu os encaro.

– Sim. Por que não?

O homem tem um olhar furioso em seu rosto. Por alguns segundos, penso que ele vai largar aquela flauta transversal no chão e pular no meu pescoço. Ao invés disso, ele me encara por alguns segundos. Me encara e aproxima o rosto dele ao meu. Aproxima tanto que consigo sentir a respiração pesada em seu nariz. Ele está irritado. As sobrancelhas arqueadas. Após essa diabólica encarada, ele sorri. Um sorriso grande, cheio de dentes amarelos. Ele sorri e começa a rir. E então, começa a chorar. Ele se afasta, coloca a mão na boca, respira.

Se recompondo, me pergunta:

– E qual deve ser o tema sobre o poema para eles recitado?

Eu, novamente, penso por alguns segundos.

– Eu não tenho certeza, na verdade. – Seus olhos suplicam para que eu diga alguma coisa. Eu não sei o que é exatamente, mas suplicam. – Algo relacionado com o lar, com o sentimento de estar em casa, de estar bem. Talvez algo relacionado com estar próximo de Deus. Daquele Deus que não mantém as portas do paraíso fechadas.

– Aha! – ele grita. – Então o senhor quer que eu recite um poema que os faça acordar! Um poema para que acordem, para que acordem e que se sintam próximos de Deus. Um poema para que vivam, por alguns segundos O Eterno! Um poema que os arrebate! Que os faça flutuar! Que os leve ao reino dos céus!

– Exatamente! – eu concordo.

– Senhor – ele me diz, apertando a minha mão – O Senhor não sabe quanto tempo eu esperei por isso.

Então ele beija a minha mão e se dirige para o povo dormindo na escadaria.

– Eu só quero pedir desculpas ao Senhor – o homem me diz – pois o Senhor não vai conseguir ouvir nada.

Eu, então, assenti. O homem aproximou a flauta da boca e começou a soprá-la. Eu não conseguia ouvir nada. Eu o via soprando a flauta e não ouvia som nenhum saindo dela. Era algo realmente estranho. Eu me levantei do meu banquinho e caminhei até perto dele. Ele tocava aquela flauta e dançava e vez ou outra nossos olhos se cruzavam. Mas, de qualquer maneira, eu não ouvia uma nota, um som sequer saindo daquela flauta.

Os moradores de rua, empilhados um em cima do outro naquela escadaria, por outro lado, pareciam estar ouvindo a tudo! Devagar, eles reagiam, iam se levantando e abrindo os olhos, ainda pouco acostumados com a claridade.

Dentro de alguns segundos, todos os moradores tinham acordado. Alguns até batiam palmas. E, da mesma maneira que eu não ouvia som algum saindo da flauta, as palmas dos moradores eram, à mim, inaudíveis.

Logo, todos batiam palmas ao mesmo tempo, em ritmo.

E agora é o que realmente acontece de estranho. O homem da flauta, da poesia, do casaco de caubói, do mocasine muito maior do que seus pés, do rabo de cavalo que escondia seus chifres e da barba de bode, pareceu, de repente, ser suspenso pelos ombros. Era como se tivesse um fio amarrado às costas. Então, ele começou a subir. Seus pés deixaram de tocar o chão e ele começou a levitar.

A mesma coisa começou a acontecer com os moradores de rua. Parecia até que eles tinham fios de marionete presos em suas articulações e que, de repente, começaram a ser puxados para cima. Dentro de alguns segundos, todos estavam levitando. Mas não era simplesmente levitar. Era realmente como se estivessem presos à alguma espécie de corda invisível e sendo puxados para cima. Até o ritmo com que subiam era teatral, como se alguém estivesse puxando a corda pela roldana atrás do palco.

E o homem da flauta e os moradores de rua começaram a subir na direção do céu até que ficaram tão pequenos que eu não mais os pude ver. Eles subiram tanto que acabaram se confundindo com o céu azul.

Eu não sabia o que fazer. Estava atônito. A praça já estava cheia de pessoas que seguiam seus caminhos. Os carros já buzinavam a faziam barulho, os motoristas já xingavam, os pipoqueiros já vendiam. A cidade já estava funcionando e, ao que parecia, só eu havia notado o que tinha acabado de acontecer. As pessoas simplesmente seguiam seus caminhos.

Eu olhei para cima me perguntando que diabos havia sido aquilo.

Não obtive resposta.

Decidi que já era tempo de voltar para casa. Fui até o ponto de ônibus e esperei, inutilmente pensando no que havia me acontecido.

Já dentro do ônibus, comecei a pensar na desculpa que ia dar para minha esposa quando chegasse em casa. Pensei também na consulta com o médico que eu teria sexta feira e no prazo para entrega do relatório mensal. Pensei nas contas que eu tinha que pagar, no dinheiro que eu tinha de economizar, naquela televisão que há tanto tempo eu havia prometido para mim mesmo e, no meio disso tudo, no meio de toda essa profusão de pensamentos, enfiei a minha mão no bolso do meu casaco e achei as chaves do carro que minutos antes podia jurar ter perdido. Ao encarar aquele pedaço de metal e plástico na minha mão, lembro-me de ter dito algo mais ou menos assim para mim mesmo:

– Caramba! As coisas andam estranhas ultimamente.